Saúde

Micro-ondas pode potencializar as propriedades nutritivas dos alimentos

Pesquisa mostra que alimentos como couve-flor, batata, ervilha e milho têm maior retenção de nutrientes benéficos à saúde quando preparados no eletrodoméstico cercado de controvérsias. Veja também a receita de curau de micro-ondas

Paulo Lima

Clique para saber mais sobre os mitos e verdades em torno do forno micro-ondas
Prático para aquecer alimentos em poucos segundos, o forno de micro-ondas está longe de ser uma unanimidade na cozinha. Há quem hesite em usufruir de toda a praticidade listada nos manuais de instrução. Dúvidas e boatos sobre o equipamento contribuem para isso, como a ideia de que a textura da comida pode ser comprometida pelas ondas eletromagnéticas, apontadas também como prejudiciais à saúde. Mas uma pesquisa americana acaba de mostrar que alguns alimentos podem ser ainda mais nutritivos quando feitos no polêmico eletrodoméstico.


De acordo com Erin Palinski, nutricionista da Universidade de Nova Jersey, nos Estados Unidos, o brócolis, a couve-flor, a batata, a ervilha e o milho, ao serem cozidos no micro-ondas, têm maior retenção de nutrientes benéficos à saúde. “Foi observado que as vitaminas C e B6, o magnésio e o cálcio eram mais presentes quando feitos no micro-ondas”, destaca Erin, fazendo uma comparação de perdas nutricionais ocasionadas a partir da cocção dos mesmos alimentos em fogão.

A observação da nutricionista é reforçada pelo Instituto de Ciências Aplicadas da Universidade do Pacífico Sul, na Austrália, que publicou um estudo semelhante no Journal of Food Composition and Analysis. Pesquisadores comandados pelos cientistas Shailesh Kumar e Bill Aalbersberg analisaram a retenção de nutrientes em carne cozidas. A vitamina A, por exemplo, foi detectada em maior proporção em carnes feitas no micro-ondas do que no forno convencional. “Se há demora no cozimento de alimentos, eles vão perdendo as vitaminas. No micro-ondas, como é rápido, elas ficam em maior quantidade”, explica a culinarista Cátia Schnorr, que ministra cursos sobre o preparo de comidas em micro-ondas.

O fato de não precisar usar água nos alimentos também potencializa as propriedades nutritivas. “É importante ressaltar que as vitaminas são solúveis. Por isso, ao cozinhar um legume em panela com água, perde-se muito dos nutrientes. Em micro-ondas, as ondas eletromagnéticas provocam vibrações das moléculas de água dentro do alimento e isso faz com que se percam bem menos vitaminas do que em fogão”, diz Cátia.

Especialista em técnicas em congelamento e de micro-ondas, Evelin Duarte concorda com os benefícios dos ingredientes feitos no aparelho. Ela explica que não há queda de qualidade, mas falta de informação. “O que se percebe é que não se tem o conhecimento preciso do uso do equipamento. As ondas emitidas fazem com que o preparo da comida seja mais rápido, mas deve-se ficar atento ao tempo da receita e à forma que ela deve ser feita.”

Evelin usa como exemplo o arroz, que, segundo ela, pode ser, sim, saboroso quando feito no micro-ondas. “O cozimento é igual ao do fogão tradicional: deve ser feito com temperos e é necessário tampar a panela para secar os grãos. O erro muito cometido no micro-ondas, de deixar o vasilhame aberto, compromete a textura, o sabor e o aspecto soltinho do alimento”, afirma.

A química Jennifer Fogaça ensina que os alimentos com casca, pele ou membrana, como o tomate, a batata, o ovo, a salsicha e o pimentão, devem ser perfurados com um garfo para que não explodam. Além disso, embalagens totalmente fechadas e alimentos com pouca umidade, como o amendoim e o pão, não devem ficar muito tempo dentro do forno. “Eles poderão inflamar-se e botar a perder a tão esperada comida”, justifica.

Utensílios certos
A qualidade das vasilhas levadas ao forno de micro-ondas também é primordial para o sabor da comida, diz Evelin Duarte. A especialista indica as de vidro, principalmente para aquecer alimentos para as crianças. “Os plásticos das mamadeiras convencionais, quando em aquecimento excessivo, podem liberar uma substância chamada bisfenol-A, um composto tóxico que pode contaminar o leite e deixar a saúde da criança em risco ”, alerta.

Luiz Alberto Jermolovicius, engenheiro elétrico e pesquisador do Laboratório de Micro-Ondas do Instituto de Tecnologia Mauá, acrescenta que já é possível, inclusive, usar recipientes de alumínio no equipamento que tenha a função grill. A dica é ler atentamente o manual do usuário, mas, de uma forma geral, não se recomenda o uso de vasilha fechada.

“A marmita de alumínio, também conhecida como quentinha, se colocada aberta, apenas para aquecer, não vai acontecer nada. Mas, se tiver condução com outra ponta de metal, há o comprometimento da comida e do aparelho com as faíscas que serão emitidas.”

Milho é um dos alimentos que podem conservar melhor suas propriedades no micro-ondas


Vida longa ao equipamento
Como com qualquer outro eletrodoméstico, são necessários cuidados específicos para a durabilidade do micro-ondas. Evelin Duarte ensina a ter atenção com objetos que possam impedir o correto fechamento da porta do equipamento. “É comum que as pessoas usem toalhinhas por cima do micro-ondas para combinar com a decoração da cozinha. Mas é necessário evitar que esses tecidos atrapalhem o abrir e fechar da porta.”

Outra dica é não deixar que os alimentos queimem dentro do eletrodoméstico para não prejudicar as paredes internas. Na hora da limpeza, a especialista indica detergente neutro e esponja macia. “Sempre é necessário fazer com o equipamento desligado. Cabe frisar que não se deve ligar o micro-ondas em extensões. A indicação é sempre direto na tomada”, pontua Evelin Duarte.

Jermolovicius também ressalta a importância do bom uso do equipamento. Ele explica que a regulação da potência é primordial para o melhor resultado na comida. “Muitas vezes, a válvula do micro-ondas fica velha e perde-se a potência indicada, por isso a necessidade de manutenção. Se a pessoa souber operar corretamente, sem dúvida terá alimentos saborosos e um prato melhor do que o feito em chama de fogão.”

Origem militar
As micro-ondas, também chamadas de magnétrons, começaram a ser mais estudadas e produzidas na Segunda Guerra Mundial por cientistas britânicos com a finalidade de detectar aeronaves inimigas. De acordo com a química Jennifer Fogaça, o sinal era emitido e o objeto a ser detectado refletia essas ondas. “Esse eco, por sua vez, era detectado pelo radar. Desse modo, descobriam não só a localização do objeto, mas sua forma, sua velocidade e para qual direção estava se movimentando.” Segundo Fogaça, a ideia de aquecer alimentos com as micro-ondas surgiu em 1945, quando o engenheiro americano Percy L. Spencer (1894–1970), que trabalhava na companhia americana Raytheon, levou o equipamento para casa. Um dia, ele percebeu que, quando ficou em frente ao tubo de magnétron, uma barra de doce que estava em seu bolso começou a derreter. “Ele realizou várias experiências, como colocar grãos de milho espalhados e um ovo cru, que explodiu. A empresa Raytheon patenteou o invento e, em 1947, o primeiro forno micro-ondas foi lançado”, diz a química. O aparelho tinha 1,5m de altura e 340kg e tornou-se popular em escala mundial nas décadas de 1970 e 1980. (PL)