Um olhar sobre a trilogia cinematográfica 'Antes do amanhecer', 'Antes do Anoitecer' e 'Antes da meia-noite'

Trilogia do diretor Richard Linklater aponta pistas sobre a criação e a dessacralização do amor romântico

por Letícia Orlandi 28/06/2013 09:00

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Divulgação
Ethan Hawke e Julie Delpy como Jesse e Céline, em "Antes da meia-noite' (foto: Divulgação)
Em 1995, o americano Jesse e a francesa Céline encontraram-se em um trem em Viena. Os dois jovens cheios de planos e idealizações a respeito do amor e do futuro começavam, no filme 'Antes do Amanhecer', a trilogia do diretor norte-americano Richard Linklater sobre o amor, os relacionamentos e o amadurecimento. Neste primeiro filme, durante a noite que passam juntos passeando por paisagens românticas, Jesse pergunta: "Por que você acha que todo mundo pensa que os relacionamentos precisam durar para sempre?". A resposta de Céline: "É mesmo, por quê? Isso é besteira."

Ainda durante o passeio, a jovem de vinte e poucos anos fala sobre a avó, que manteve um casamento até o fim, mesmo apaixonada por outro homem. Céline acha triste, mas Jesse não: se eles ficassem juntos, em algum momento se decepcionariam. "As pessoas projetam romantismo em tudo e esquecem da realidade", sentencia ele.

Em 2004, nas casa dos 30 anos, eles se reencontram em 'Antes do anoitecer”. Trocam as frustrações que viveram até ali -casamentos e relacionamentos infelizes, escolhas profissionais frustradas, medo. Neste segundo filme, Jesse coloca a questão: "O que é amor, senão respeito, confiança e admiração? Eu sentia tudo isso, quando me casei, mas agora sinto como se fosse dono de um berçário junto com alguém que namorei no passado, vivemos sob o pretexto da responsabilidade do casamento e um monte de ideias que alguém colocou sobre como as pessoas devem viver. O amor deve ser mais do que compromisso.".

Já Céline devolve: "O que significa o homem certo? O amor da sua vida? Esse conceito é absurdo, a ideia de que só podemos ser completos com outra pessoa é má! (...) Acho que já me machuquei muito e me recuperei. Agora nem me esforço, porque sei que não vai dar certo", afirma, desesperançosa.

No dia 14 de junho, estreou no Brasil a terceira parte da série: 'Antes da meia-noite'. Jesse e Céline são agora um casal na faixa dos 40 anos, pais de gêmeas, e estão em férias. Agora, as questões estão voltadas para as estratégias que mantêm viva um relacionamento duradouro. Algo como – as escolhas foram feitas, elas são imperfeitas, o que vamos fazer com elas?

Alguma semelhança com o que Esther Perel e Regina Navarro Lins discutem?

Enquanto os dois primeiros filmes deixam no ar aquela aura de “alma-gêmea' – a despeito dos diálogos realistas de seus personagens – o terceiro mostra mais as técnicas de negociação, concessão e autoengano que cada um faz. A culpa por um filho do outro casamento, que mora longe. O casal é admirado por gerações de cinéfilos, e parte desse fascínio se dá pela identificação com seus dilemas.

O romantismo cinematográfico pode ser apenas uma fonte de idealização. E de infelicidade. Mas pode também ensinar que as relações humanas, embora imperfeitas, podem contribuir para uma vida mais feliz. Ainda que não enquadrada em um modelo.

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