Tributo a Geraldo Veloso: jornalista Fábio Leite fala sobre destreza do mineiro como crítico de arte

Incansável guerreiro do cinema faleceu no último sábado (1°), aos 74 anos. Confira depoimentos de seus amigos e parceiros de trabalho

por Fábio Leite 05/10/2018 21:39
Marcos Vieira/EM/D.A Press
(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
“Minha relação com o CEC foi, num primeiro momento mítica. Ela se deu, sobretudo, pela presença do texto crítico, quase cotidiano, de Cyro Siqueira, no Estado de Minas, jornal que sempre foi lido em minha casa. A presença da ‘carinha’ do Cyro balizava meu interesse por este ou aquele filme. O texto era ainda muito consistente e complexo para minha possibilidade de leitura (...) Frequentemente, ao lado da crítica do Cyro Siqueira, uma chamada para as sessões do CEC me encantavam e seduziam para um determinado tipo de filmes aos quais não tinha acesso nas idas ao cinema convencional. Logo, comecei a traçar (primeiro inconscientemente) uma estratégia de aproximação do CEC (e das imagens e ícones ligados a esta sigla, já mágica para mim).

Os textos dos substitutos eventuais de Cyro Siqueira no Estado de Minas, sobretudo Maurício Gomes Leite e Flávio Pinto Vieira, nos chamavam a atenção para um universo de produção que começava a incendiar o exercício crítico e de realização no mundo inteiro: a Nouvelle Vague francesa.”

Esse depoimento de Geraldo Veloso, publicado no livro Presença do CEC – 50 anos de cinema em Belo Horizonte (2001), caberia muito bem,  como um remake, na voz de alguns críticos e cineastas da minha geração. Bastaria, a princípio, trocar os nomes de Cyro Siqueira e de seus companheiros pelos nomes de Geraldo Veloso, Paulo Augusto Gomes, Mário Alves Coutinho, Ronaldo de Noronha, Paulo Vilara e Ricardo Gomes Leite, entre outros, que exerceram, brilhantemente, a crítica de cinema em Belo Horizonte, entre meados da década de 1970 e início dos anos 1980, na Seção de Cinema, página semanal veiculada no Estado de Minas.

Como lembrou oportunamente o cineasta Fábio Carvalho, no dia em nos despedimos de Geraldo Veloso,  a Seção de Cinema, publicada nessa época às terças-feiras, era o oráculo cinematográfico de nossa geração, batizada, algum tempo depois, já como membros do CEC, de Geração Cachoeira, em homenagem a Humberto Mauro (“Cinema é cachoeira!”, definiu o mestre).

Acompanhávamos, certamente, a crítica publicada em outros jornais, de Rio de Janeiro e São Paulo, principalmente, mas a Seção de Cinema tinha para nós um significado especial. Primeiramente, por ela estar atualizada com a programação dos cinemas belo-horizontinos – àquela época, os lançamentos nacionais eram raros, em virtude do custo das cópias em película. E depois, mas não menos importante, pela mistura de prazer e orgulho que sentíamos: prazer em discutir, em concordar ou discordar daqueles textos; ironizar e depreciar até. E orgulho porque eram os “nossos” críticos, tão bons no exercício analítico, na reflexão e na polêmica quanto quaisquer outros.

Se a geração de Veloso aprendeu a conhecer melhor e a amar a arte cinematográfica com os fundadores do CEC e da Revista de Cinema, nós, da geração 1980, “crescemos” com ele e  seus caros amigos. Falo, sim, agora, em nome de Fernando, João Batista, Carlos, Alcino, Ivan, Lício,  Marcello e outros amigos que frequentaram a “escola” de Veloso e seus companheiros e que, de uma forma ou outra, acabaram trilhando profissionalmente os caminhos do cinema, seja atuando como crítico, produtor, cineasta, ator etc.

Percebia com certa inveja o grupo de Geraldo Veloso, porque eles conheceram antes e in loco os filmes e artistas que eu admirava na época – Truffaut, Godard e o bando da Nouvelle Vague, Fellini, Antonioni e os outros italianos – e filmes do mundo afora. E, principalmente, filmes do Brasil adentro. Foram eles, sim, incansáveis críticos e defensores do cinema nacional, sempre às voltas com a ferocidade do mercado, dominado por distribuidores ignorantes, exibidores arrogantes e espectadores ingênuos. O cinema nacional sempre teve a crítica como um foco de resistência. E em Belo Horizonte, a luta sempre se manteve viva.

Incentivada por mestres e tutores desse nível, a Geração Cachoeira conseguiu manter o CEC em atividade e seguir atuando por quase duas décadas. No ano 2000, Geraldo Veloso, Paulo Augusto Gomes e Mário Alves Coutinho assumiram a direção do CEC, dando início a uma nova fase de exibições, encontros, projetos e cursos promovidos pela instituição.

O que há de mais gratificante, no entanto, foi ter a sorte e a satisfação de conviver com Geraldo Veloso e seus companheiros durante todos esses anos. Ao longo do tempo, tivemos inúmeros encontros, profissionais (em mostras e festivais, aqui e pelo Brasil) e casuais, pelas ruas da cidade. Grandes momentos, agradáveis, elegantes e divertidos.

Tivemos, nós e eles, uma convivência estimulante (cujo prazo de validade seja mesmo somente a morte, espero), sem notáveis atribulações ou conflitos. Isso acontece, creio, porque essa relação começou com um voto de confiança: quando, bem no início dos anos 1980, eles, Geraldo, Paulo, Ronaldo e os outros, delegaram a nós a responsabilidade de conduzir o CEC e ocupar a Seção de Cinema. “É isso mesmo: agora é a vez de vocês serem gauches na vida.” Ciao, Geraldo. Grazzie!

* Fábio Leite é jornalista e crítico de cinema.

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