O negro e o curta-metragem

Edição do FestCurtasBH de 2018 reserva enfoque especial à produção de cineastas negros

por Heitor Augusto* 10/08/2018 09:25

FestCurtasBH
La santa cena (A santa ceia), de Everlane Moraes, foi rodado em Cuba (foto: FestCurtasBH)
Realizar a curadoria de uma mostra que propusesse um olhar e um recorte sobre a produção de curtas-metragens dirigidos por negros e negras no Brasil vai muito além do processo-padrão de curadoria para um festival de cinema. Se o ato de escolher filmes – e, mais importante ainda, de deixar de escolher – implica desafios e responsabilidade, pois falamos de um campo que ainda necessita adotar o gesto político de fazer uma demarcação especial – “cinema negro” – como forma de existir frente ao hegemônico – “cinema”.

Os desafios são bem maiores ao considerar a falta de informações consistentes, organizadas e acessíveis acerca da existência do negro não como objeto do olhar, mas como sujeito dessa construção; as inúmeras violências entrepostas na formação do olhar, entre elas a epistemológica, que relega uma imensidão de obras ao depósito onde se enfiam os filmes menores; a falta de garantia de ter nossa fala apreciada – não seria o ato de olhar também uma forma discursiva.?


Todavia, meu desejo como curador foi transformar esse sentimento de responsabilidade em potência. Propor, em vez de apenas reagir ou responder. Cinema Negro: capítulos de uma história fragmentada é, sim, uma retrospectiva propositiva, que aponta possibilidades de encarar filmes realizados em diferentes momentos do Brasil, colocando-os para dialogar com a produção vibrante em curta-metragem dos últimos cinco, 10 anos. Vislumbra-se, assim, a forja de futuro(s).

Entre os muitos desejos, um deles é entrar num vespeiro e propor uma compreensão ampla do que é Cinema Negro – inclusive negando, se necessário, essa classificação “paralela”. Assim, os cinco programas foram organizados a partir de eixos que alinhavam os filmes: Família, Genocídio, Raízes, Diáspora e Corpo. No subtexto, colocam-se as perguntas: o que pode um artista negro que se expressa através da realização de filmes? De que é constituído seu universo de interesses estéticos e temáticos?.

Negros e brancos, uma situação relacional
“Cinema” e “Negro” não são signos estranhos um ao outro. Pelo contrário: no Brasil, onde há cinema, há negro. Não há como ignorar que um realizador negro – de hoje ou de ontem – adentra um campo simbólico no qual o signo “negro” tem sido majoritariamente preenchido há mais de um século por quem não é negro. E isso tem um custo – psíquico e econômico –, mas a maior fatia dessa conta tem sido paga pela pessoa negra.

Historicamente, a atenção à presença do negro no cinema – de longa ou curta-metragem – esteve focada quase que exclusivamente na representação, ou seja, na qualidade dessa presença em tela e, com raras exceções, debateram-se os porquês da ausência do sujeito negro na cadeira de diretor – ou seja, aquele que detém a agência do olhar. Várias questões permanecem sem resposta. Se no Brasil de 1968, um crítico como David E. Neves permitiu-se afirmar, no texto ‘O cinema de autor e de assuntos negros no Brasil’, que “o filme de autor negro é fenômeno desconhecido no panorama cinematográfico brasileiro” – ainda que tal diagnóstico passasse ao largo de Cajado Filho e Haroldo Costa, ambos negros –, no Brasil de 2018, porém, pode-se falar de um avanço, pois existe uma contranarrativa que briga para que negros contêm suas próprias histórias.

Sujeito(s) negro(s)
Difícil precisar a quantidade exata de curtas-metragens dirigidos e lançados por pessoas negras ao longo das últimas sete décadas. Se a situação da preservação da memória cinematográfica no Brasil é marcada por uma constante iminência da tragédia, quando se trata de diretores e diretoras negros o panorama é ainda mais frágil. Opera-se a equação do “comigo não morreu”: os filmes não são vistos porque não são preservados; se não são vistos, logo não são importantes; não são importantes, logo não é necessário produzir ciência e conhecimento acerca deles; sem ciência, não são importantes; não são importantes, então não são vistos; não são vistos, então não são preservados…
Qualquer tentativa de afirmações totalizantes esbarra na escassez de informação, na dificuldade do acesso aos filmes ou no tamanho da produção. Contudo, é possível lançar algumas hipóteses acerca da última pergunta colocada por este texto: como e o que os diretores negros olharam?.

>>Raça ao centro: num amplo espectro estão, obviamente, as obras que tomaram a questão racial, especialmente o racismo, como objeto focal do filme, em que a existência do negro está condicionada à relação com o branco.

>>Raça como pano de fundo: uma porção significativa dos curtas, em especial os realizados por alguns pioneiros no formato (Odilon Lopes, Afrânio Vital e Adélia Sampaio, constituindo exceções Zózimo Bulbul e, em alguma medida, Waldir Onofre) trazem o componente racial como detalhe. Seja na não discussão do tema, seja na ausência de atores negros ou de elementos associados ao universo negro.

>>Registro documental: se contarmos nós mesmos as nossas histórias ainda representa um gesto político, entende-se a importância premente do documentário. Uma subdivisão disso seriam os filmes que celebram a(s) cultura(s) e a(s) vida(s) negra(s) do Brasil como gesto de proteção e preservação.

>> Desejo narrativo: um aspecto interessante de ser destacado e observado é como muitos dos filmes almejam ocupar explicitamente o campo do cinema narrativo de ficção. O que se explica, novamente, pelo desejo de nos vermos em tela.

>>Experimentação formal: ao mesmo tempo em que se verifica um desejo por narratividade, existem as obras que dialogam com ferramentas das outras artes – música e artes plásticas – ou se filiam a uma tradição mais radical de cinema.

>>Despertar racial: fenômeno de maior envergadura especialmente nos últimos três anos, diretamente conectado a uma ideia de empoderamento através da estética. Assumir o cabelo crespo, um dos marcadores da injúria racial no Brasil, apresenta-se com frequência. O que era motivo de chacota se transforma em orgulho e escudo.

Na última década, contudo, percebemos não só um aumento na quantidade de filmes produzidos, mas também na diversidade de abordagens e de temáticas. Mais do que isso, na expansão de ideias de negritude nos filmes. O que me parece bastante natural: quanto mais o debate racial se estabelece no Brasil – não apenas no cinema – e de forma menos equivocada, mais desobrigados os realizadores se sentem a, digamos, bater ponto em certos assuntos. Ser negro significa ser muitas coisas, inclusive, contraditórias. Algo que Stuart Hall defende há muito: “Significa insistir que na cultura popular negra, estritamente falando, em termos etnográficos, não existem formas puras. Todas essas formas são sempre o produto de sincronizações parciais, de engajamentos que atravessam fronteiras culturais, de confluências de mais de uma tradição cultural, de negociações entre posições dominantes e subalternas, de estratégias subterrâneas de recodificação e transcodificação, de significação crítica e do ato de significar a partir de materiais preexistentes. Essas formas são sempre impuras, até certo ponto hibridizadas a partir de uma base vernácula.”

Uma projeção de futuro deve levar em conta um aspecto primordial: a busca pela liberdade. Entender o uso estratégico da ideia de essência ou vocação negra, mas abrir a janela para o ar entrar, permitindo a absorção de muitos aromas, aberto ao questionamento da “aspiração contínua de adquirir uma identidade ‘enraizada’ supostamente autêntica, natural e estável”, como afirmou Paul Gilroy, autoridade nos estudos culturais.

Com a “emergência das sensibilidades descolonizadas”, nos termos de Stuart Hall, os cineastas negros, ao filmar, detêm a agência do olhar e fazem (res)surgir questões frutíferas a iluminar nossos futuros: o que qualifica um negro que dirige um filme como um autor negro? Um negro que dirige deve procurar ser lido como um autor negro? Como verificar o caráter negro dessa autoria? Quais potências e limitações entram em cena quando estamos contidos nessas classificações? Quais problemas seriam disparados se nos dispuséssemos a fazer o movimento contrário e verificar o caráter branco numa autoria? Mais ainda, faz sentido, em 2018, seguir os rastros da “política dos autores”?.

Hall, novamente, expande os limites de compreensão, amplia as fronteiras e nos convida a vislumbrar o impossível. “Esses são os pensamentos que me impulsionaram a falar, em um momento de espontaneidade, do fim da inocência do sujeito negro ou do fim da noção ingênua de um sujeito negro essencial”.

 

*Curador da mostra Cinema negro, capítulos de uma história fragmentada, do FestCurtas2018. É crítico de cinema, pesquisador e professor e foi um dos curadores do Festival de Brasília (2017-18). Mantém o Urso de Lata (www.ursodelata.com.br)

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