Livro e série investem em protagonismo feminino em ambiente dominado pelos homens

Livro de Ronaldo Correia de Brito e série de George Moura têm em comum protagonistas que desafiam o status quo de uma região permeável às transformações

por Carlos Marcelo 22/06/2018 08:00

 

Quinho
(foto: Quinho )

“As pessoas agora possuem histórias mais complexas, tramas perigosas em que me enredo a cada passo ou conversa.” A frase foi extraída de Dora sem véu, novo romance do cearense Ronaldo Correia de Brito, mas caberia também como descrição de Onde nascem os fortes, série escrita pelo pernambucano George Moura (em parceria com Sérgio Goldenberg) e com direção artística do mineiro José Luiz Villamarim. Além da excelência e relevância, livro e série têm em comum o protagonismo feminino em um ambiente dominado pelos homens, o sertão nordestino, permeável também às transformações econômicas e tecnológicas das últimas décadas.

Autor de livros de contos como Faca (2003) e romances como Galileia (2008, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura) e Estive lá fora (2012), Correia de Brito nasceu em uma fazenda no sertão cearense, em outubro de 1950. “Eram nove horas de uma manhã de domingo, o pai, João Leandro, saiu ao terreiro e deu um tiro de espingarda para cima, anunciando as alvíssaras”, conta o escritor em seu blog. Radicado no Recife desde a juventude, o autor exerce a medicina com paixão idêntica à que dedica às palavras. “Não me concebo um médico sem o escritor, nem um escritor sem o médico. Os dois se alimentam e justificam”, revela, em entrevista ao Pensar.
No livro novo, Ronaldo Correia de Brito escolheu a primeira pessoa para narrar a saga de Francisca, socióloga encarregada pela família de resgatar o passado da avó, Dora. Na jornada, a pesquisadora se depara com histórias de violência, rancor e fé, todas narradas com a habitual elegância e intensidade do escritor. “Dora sem véu é mais tempo presente, Brasil ano 2018, escancaro sem pudor os males da nossa colonização que nunca cessa, se transforma, assume outros nomes e outros colonizadores, mas é sempre a velha colonização que nos esmaga e enche de mazelas”, afirma.

Já o pernambucano George Moura, radicado no Rio de Janeiro, voltou ao Nordeste – onde ambientou Amores roubados (2014), inspirada no livro A emparedada da Rua Nova (de Carneiro Vilela) – para tecer, com o parceiro Goldenberg, a trama de Onde nascem os fortes, em exibição na Rede Globo. Com ecos de faroeste (a partir do título), tragédia grega e melodrama, a série em exibição até julho é um oásis no deserto audiovisual da TV aberta: direção e atuações impecáveis, trilha sonora inspirada (capaz de trafegar de Elba Ramalho a Velvet Underground com idêntica desenvoltura) e dramaturgia sólida, calcada em poucos, ricos e ambivalentes personagens. Mais adequado do que oásis, talvez, seja comparar os Fortes a um açude que, ao “sangrar”, é capaz de irrigar a aridez de ideias e imagens da produção nacional contemporânea.

Como no romance de Ronaldo Correia de Brito, Onde nascem os fortes tem protagonistas femininas que desafiam a hegemonia patriarcal num sertão contemporâneo, mas ainda áspero, machista e violento. “A estranheza é notar como um lugar, apesar de uma nova roupagem mais contemporânea como a presença de motos, celulares e roupas industriais, pode ainda permanecer tão arcaico em seus valores e na sua permanência de status quo econômico”, afirma George Moura, em entrevista ao Pensar.  Ao lado, entrevistas com os dois autores.

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