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Livro de Sérgio Fantini expõe o absurdo invisível do dia a dia

Já na apresentação de O município de Tormenta: baseado em fatos reais (primeiro romance de Sérgio Fantini), Fernando Bonassi alerta que “por trás do bangue-bangue distópico de Sérgio Fantini está o retrato da tragédia brasileira, não uma fotografia de face e de perfil (...), mas algo lá de dentro, daquilo que formou e deformou nossos melhores sonhos e esperanças”. E segundo o próprio Fantini nos informa em nota anexada ao “documento”, esse retrato foi literalmente extraído a fórceps da realidade, uma vez que “todas as cenas de violência aqui editadas, foram publicadas originalmente em jornais de grande circulação em Belo Horizonte, em 2015 e 2016”. Mas nada é tão simples quanto parece.

Primeiro, temos a estrutura de Tormenta, construída no limite entre a literatura e o jornalismo, naquele ponto a partir do qual ambos se aproveitam da boa-fé prévia que o leitor mantém para acreditar no que lê. Segundo, temos um autor que, no auge de sua técnica literária, joga o tempo inteiro com esse princípio – daí ter construído um narrador pouco confiável para sua “farsa-spaghetti”; um que, no “Aviso aos desavisados”, força o leitor a admitir que tem em mãos um dilema ético e a se colocar na condição de voyeur para que “a escrita cumpra seu destino”.

Que destino é esse? O de seduzir leitores através da verossimilhança, até fazê-los notar que o município de Tormenta não é um lugar tão desconhecido assim, já que há algo nesse local (repleto de vigilantes, maconheiros, personagens com nomes esdrúxulos e evangélicos peritos em “conversão express”) que nos é bem familiar, sobretudo a violência, a substituição da fraternidade e da civilidade pelo suborno, ou a mania que alguns “tormentenses” têm de imitar a fala dos astros da televisão.

Jornalismo e literatura são, entre outras coisas, dois jeitos distintos de contar histórias, dois lados de uma mesma moeda que, no romance de Fantini, se entrecruzam até formar um corpo textual híbrido entre a crônica e a farsa, demonstrando que a objetividade e a imparcialidade são um mito, porque a verdade é um mito. Tudo é uma questão de versão dos fatos.

O narrador de Tormenta tem a dele; seu coloquialismo burilado, suas pistas falsas e suas explicações elegantes ultrapassam qualquer simplificação de linguagem e de estilo e sugerem, o tempo inteiro, uma participação cada vez maior do leitor. É quando este (atento) atinará para a matiz falsamente solene do romance, notando que o que Fantini quer inversamente construir é, além da denúncia, uma empatia total por suas personagens.

Aliás, os personagens e o cenário de Tormenta são caros a Fantini, que em mais de 40 anos de estrada nunca deixou de retratar toda a grandeza e a baixeza da vida cotidiana, com um interesse e um olhar cuidadoso que é tanto uma defesa dessa realidade quanto uma clara tomada de posição política. E aqui, chegamos à maneira como seu primeiro romance foi publicado.


Admirado por autores consagrados, Fantini decidiu, desde o início, abrir mão do circuito das grandes editoras e dos modismos, optando por publicar seus contos e poemas com editoras menores, para manter controle absoluto sobre aquilo que quer dizer, reafirmando uma ética pessoal e o papel do escritor em uma sociedade cada vez mais excludente.

A edição de O município de Tormenta é o gesto mais radical desse posicionamento. As 81 páginas do romance vêm soltas, atadas por um barbante, e dentro de uma pasta lacrada onde se lê “confidencial”.

Nela, além do “manuscrito” (cuja fonte especial imita páginas datilografadas) temos um envelope branco com a apresentação de Bonassi, o recorte de uma matéria de jornal supostamente utilizada para compor os crimes de Tormenta, além de uma folha de caderno, com uma parte do romance escrita a mão. Além disso, uma folha em que Fantini faz seus agradecimentos e coloca os custos da impressão do romance, discriminando sua parte em direitos autorais e o valor total que, dividido pelo número de exemplares, dá o valor exato do exemplar por unidade. Um gesto de recusa e controle totais, além de um claro manifesto ideológico; uma peça rara e originalíssima, escrita e produzida por um dos maiores escritores vivos do Brasil em atividade.


Tadeu Sarmento é escritor, poeta, autor de E se Deus for um de nós (Confraria do Vento, 2016), entre outros.

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