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Discípulo de Athos Bulcão relata conversa com mestre que o transformou em defensor da azulejaria brasileira

Alexandre Mancini

 

Há pouco mais de 10 anos, peguei um táxi em direção ao Hospital Sarah Kubitschek, no Lago Norte de Brasília, onde Athos Bulcão residia. Naquele dia, em particular, ele estava bem disposto e apto a receber visitas. Entretanto, Brasília pode ser uma cidade grande, muito grande, pois do Eixo Monumental, meu local de partida, ao Sarah do Lago Norte o caminho parecia ser interminável. Entre eixões, eixinhos, tesourinhas e tudo mais que só o brasiliense sabe de cor e salteado, fui ao seu encontro. Tentei entender, no meio do caminho, a sua escolha de Brasília como cidade... lembrei-me de meu avô, que foi um daqueles pioneiros nas terras dos candangos. Será que eles se conheceram? Foi um pensamento, simplesmente. Pensava em minha decisão de, alguns anos antes, romper com tudo que havia feito e começar uma vida nova, cercada de arte, de vocação, uma vida dedicada à azulejaria.

A verdade pessoal que ele, Athos Bulcão, havia me dado sem nem sequer saber disso. Vi e revi naquele trajeto todas as lições que aprendi estudando suas obras, tantas e múltiplas.

Cheguei ao destino com a ansiedade mais inocente e pura possível. E o Sarah do Lago Norte, projeto do João Filgueiras Lima, o Lelé, conta com tantas e diversas obras de Athos integradas ao espaço que chega a ser confuso perceber o que cada um projetou. Tudo é tão integrado que se percebe, claramente, a vocação para o bem comum e não para a vaidade pessoal. Que lição!

A começar pelo muro externo, cujos grafismos são nitidamente de Athos. Na recepção, um relevo em madeira pintada, fundamental. Imediatamente, pensei: Athos é muito, mas muito mais que azulejos! Pela primeira vez pude compreender sua multiplicidade criativa não só na azulejaria.
Sua assinatura visual é também absolutamente marcante na pintura figurativa sacra e profana, nos croquis que o artista fez para o grupo de teatro O Tablado, do Rio de Janeiro, nos figurinos de óperas, nos paramentos litúrgicos modernistas, no seu trabalho gráfico.

E ao ser anunciado e recebido pelo enfermeiro que o acompanhava, entrei efetivamente no edifício. Percebam, o hospital é longilíneo, de certa forma estreito. À direita, boa parte do edifício, e, à esquerda, áreas de fisioterapia e quartos que margeiam o Lago Norte. No momento em que entrei nesse longo corredor que separa os dois lados, a própria luz, naquela tarde ensolarada, criava um ambiente mágico que, inevitavelmente, conduzia à esperança na recuperação plena de cada individuo que ali estava, de fé plausível, palpável, religiosa por assim dizer.

Percebi que boa parte dessa impressão ou sentimento tangível, vinha, além da luz do lago, das divisórias coloridas criadas por Athos. E por Lelé. Mais adiante, havia painéis de grafismos coloridos, semelhantes aos do muro externo. Ver os pacientes, naquele breve momento, conduzindo suas terapias de recuperação, tão longas e plenas, contarem com a ajuda da arte de Athos me emocionou profundamente.

Depois de muito caminhar, cheguei, finalmente, ao quarto de Athos Bulcão. Parei na porta e vi a silhueta de um idoso em uma cadeira de rodas assistindo à televisão.
O quarto era bem grande e, fora de suas dimensões, uma grande varanda junto ao lago. Minha primeira visão do professor, daquele que havia me ensinado muito, mesmo sem saber, era de uma silhueta tão imponente e magnífica que me fez congelar. Simplesmente, não acreditei.

O gentil enfermeiro o chamou e disse haver visita. Apresentamo-nos e dei-lhe um singelo presente, um pequeno quadro revestido com aço galvanizado com um azulejo fixo ao alto e, abaixo, ímãs que permitiam a combinação aleatória, uma de suas grandes lições. Naquele momento, entre tantas coisas que poderia perguntar, percebi que não deveria tentar absorver todo conhecimento, sabedoria e sensibilidade diante de mim. O certo era, simplesmente, desfrutar uma tarde com uma pessoa nobre. E assim fiz.

Athos me convidou para a beira do lago e disse que aquela vista lhe  lembrava a Casa do Baile, da Pampulha. Percebem o tamanho da generosidade dele ao falar isso? Nessa época, eu morava a poucos metros da Igreja de São Francisco, cujo painel de azulejos composto por Portinari teve Athos como assistente. Senti-me ainda mais próximo da Pampulha, de uma outra forma, experimentando um respiro da amizade que ele mantinha com Portinari, Niemeyer, Burle Marx, entre outros que ali construíram uma história.

Conversamos e conversamos, muitas vezes com a ajuda do enfermeiro, já que Athos estava com mal de Parkinson em estágio avançado. Quando percebi que era hora da despedida, fui lhe agradecer por tudo.
Athos quis se levantar para me abraçar, mas o enfermeiro não deixou. Isso me marcou muito. Mas nos despedimos.

O nome Athos Bulcão carrega as iniciais AB. As mesmas iniciais de Azulejaria Brasileira, as mesmas iniciais de Arte Brasileira. AB. Athos Bulcão. Aos 33 anos de idade, tive plena consciência de ter encontrado um dos maiores artistas que o Brasil conheceu.

Saí em sentido contrário naquele corredor longo, quase interminável, com uma luminosidade insistente e com toda aquela beleza esperançosa. Com lágrimas nos olhos, lábios cerrados e uma mistura de sentimentos que, confesso, só foi superada com o nascimento de minha filha três anos depois, pisei a área externa do hospital. Liguei imediatamente para minha esposa para tentar contar a experiência vivida. Não consegui.
Chorei como criança. Chorei, chorei e chorei por ter compreendido que meu caminho havia sido iluminado, tal qual o sol que iluminava o lago naquela tarde. Prometi a mim mesmo que, dali pra frente, cada painel que executasse seria uma pequena homenagem a Athos Bulcão, o professor, por quem guardo uma gratidão profunda e interminável.

No ano seguinte, 2008, recebi a notícia, através de um grande amigo, de que o professor havia partido. E chorei novamente.

100 ANOS DE ATHOS BULCÃO
Exposição com trabalhos em várias linguagens. Centro Cultural Banco do Brasil (Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9400). De quarta a segunda, das 9h às 21h. Até 25 de junho.


Fiel à composição
Nascido em Belo Horizonte, em 1974, Alexandre Mancini começou a se dedicar à azulejaria brasileira em 2006. Seu trabalho Conhecedor da matéria foi pioneiro na renovação da azulejaria e, a partir dos anos 2000, passou a criar e produzir seus próprios painéis, assim como divulgar, no Brasil e no exterior, a rica história de seus predecessores. Foi fortemente influenciado por Athos Bulcão na utilização de elementos geométricos simples em livres combinações no espaço. A composição modular aleatória em seu trabalho, em que deixa os próprios operários livres para criar combinações, o levou a ser formalmente reconhecido como discípulo de Athos Bulcão por meio da chancela dada pela Fundação Athos Bulcão, que mantém junto a Mancini uma parceria iniciada em 2012.

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