Com homenagem na Flip, lançamento de biografia e livros esgotados, Lima Barreto, finalmente, ganha lugar de destaque na cena literária

Escritor carioca é autor de clássicos como "O triste fim de Policarpo Quaresma"

por Nahima Maciel 21/07/2017 09:48

No dia em que a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, Afonso Henriques de Lima Barreto completava 7 anos. Foi a professora, dona Teresa Pimentel do Amaral, quem deu a notícia para as duas únicas turmas de alunos daquela pequena escola pública do subúrbio do Rio de Janeiro. O menino Afonso não sabia muito a dimensão do ato. Neto de escravos, ele mesmo nunca havia conhecido um. Mas escreveu sobre o fato ao longo de toda a vida. Escreveu tanto que é até possível comparar, nos textos, a maturidade e o estado de compreensão que evolui ao longo do tempo.

Ilustração Quinho/E.M/D.A.Press
(foto: Ilustração Quinho/E.M/D.A.Press)

Quando se tornou Lima Barreto, o autor de Triste fim de Policarpo Quaresma e Recordações do escrivão Isaías Caminha, o menino aluno de dona Teresinha já havia incorporado a realidade de um Brasil República ainda às voltas com a questão racial. É esse Lima Barreto, ainda pouco lido no Brasil de hoje, quem ganha destaque na cena literária de 2017 graças à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). O autor é o homenageado da 15ª edição do encontro, que vai reunir na cidade do litoral fluminense, entre 26 e 30 de julho, 43 autores do Brasil e do mundo.

Curadora da Flip, Josélia Aguiar fez parte do movimento que pediu a presença do nome de Lima Barreto na festa de 2014, quando o homenageado foi Millôr Fernandes. Foi enquanto trabalhava na pesquisa para a biografia de Jorge Amado, em 2011, que Josélia se deparou com a dimensão do autor. Lima Barreto foi importante para Amado, assim como para fincar certos temas na literatura brasileira.

“Na época, fiquei muito impressionada com a ideia de que ele não tinha uma posição no cânone universitário, não tinha todos os livros à venda nas livrarias, apesar de estar em domínio público. Então achei que podia ser o momento de tornar Lima Barreto mais conhecido hoje”, explica. “É um autor absolutamente atual. Essa questão racial é, talvez, a principal questão hoje para o país. A gente vai discutir o maior problema de todos, que tem a ver com tudo e que, inclusive, resulta na crise atual. Joaquim Nabuco dizia que a escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. São 100 anos de abolição, é pouco tempo, tem muita coisa ainda para resolver em relação a isso”, afirma Josélia.
Ateliê Editorial/Divulgação
(foto: Ateliê Editorial/Divulgação)

MERCADO
A homenagem esquentou o mercado e rendeu bons frutos. Pela Companhia das Letras, a historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz lança Lima Barreto: triste visionário. A Ateliê Editorial publica o quase desconhecido Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá e a Global Editora vem com a seleção Crônicas para jovens. A Carambaia reeditou, no mesmo luxuoso volume, Os bruzundangas e Numa e a ninfa, duas obras publicadas como folhetim (leia texto ao lado). Ainda este ano, saem pela Penguin Numa e a ninfa e Impressões de leitura. É, portanto, um bom momento para mergulhar com mais profundidade na obra de um dos mais ambíguos e importantes autores do Brasil da virada do século 19 para o 20.

Lilia Schwarcz sempre rondou Lima Barreto. Em 2015, logo depois de publicar Brasil: uma biografia, em parceria com Heloisa Starling, ela brincava que já estava grávida da biografia. Os dois livros compartilhavam uma temática sobre a qual a pesquisadora já havia se debruçado inúmeras vezes e escrever sobre a vida de Lima Barreto foi quase uma sequência natural. “Eu já vinha trabalhando com a questão racial desde meu mestrado”, conta. “A questão racial era uma questão com a qual convivia. Quando terminei o livro do Taunay (O sol do Brasil), pensei que era hora de enfrentar um autor como Lima Barreto”, explica.

Lilia estava acostumada a discutir a questão racial no Brasil em livros e artigos amparados pela pesquisa científica e acadêmica, mas fazer isso a partir da perspectiva de um personagem era diferente. Um personagem que, ela tinha certeza, havia levado para o primeiro plano um tema que, no Brasil da Primeira República no qual viveu, era um enorme tabu.

“Eu sabia que Lima Barreto era uma vítima, mas eu queria mais. Ele, na minha opinião, merecia mais que a vitimização. Ele teve um projeto literário. Eu queria entender as ambiguidades desse personagem”, explica. A pesquisadora sabia que trabalho minucioso havia sido feito na década de 1950 por Francisco de Assis Barbosa em A vida de Lima Barreto (1952), material, aliás, fundamental para Triste visionário. Mesmo assim, há algumas novidades na biografia de Lilia. Um capítulo inteiro dedicado aos pais do escritor faz detalhamento inédito sobre dona Amália, mãe de Lima. É um trecho importante para entender a origem familiar que permitiu ao rapaz uma educação sólida. Amália era professora e fundou uma escola apenas para meninas em um tempo no qual, das mulheres, era exigida apenas uma atuação doméstica.

Do pai, João Henriques, Lilia também faz um retrato precioso: de tanto se reinventar profissionalmente, ela desconfia que era ele mesmo o Isaías Caminha que rendeu as recordações publicadas em 1909, o primeiro romance do autor a virar livro.

Uma fotografia de Lima Barreto com a turma da escola politécnica também oferece uma visão diferente na biografia. Lilia lembra que boa parte das imagens mais divulgadas do autor foram realizadas enquanto esteve internado para tratar um alcoolismo crônico. “A gente não deve olhar aquelas imagens como se fossem um retrato dele porque ele estava, como dizia, sequestrado naquele lugar. A foto com a turma da politécnica, essa sim é nova: ele é o único evidentemente negro, com o colarinho frouxo, a gravata frouxa, olhando pra frente. Mostra um pouco esse mundo de inadequações e de deslocamentos sociais”, diz Lilia. O deslocamento e a sensação de inadequação, a historiadora lembra, pontuam tanto a vida quanto a obra do escritor.

Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá é, segundo Marcos Schweffel, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos livros mais importantes e menos estudados de Lima Barreto. Os primeiros esboços do romance, que narra a vida de um amanuense, mesma profissão do próprio Lima, datam de 1906, três anos antes da estreia do autor com Recordações do escrivão Isaías Caminha, em 1909. Lima achava que Vida e morte era um livro muito cerebral e solene, “pouco acessível”, por isso resolveu mandar para o editor as Recordações, um livro, Schweffel descreve, escandaloso e crítico em relação à intelectualidade brasileira.

A paisagem, a vida política, os habitantes e as transformações trazidas pela modernidade estão nos textos escolhidos para Crônicas para jovens. As peculiaridades da sociedade brasileira do início do século 20 aparecem nas crônicas de Lima Barreto de maneira bastante crítica e libertária nos 29 textos organizados por Gustavo Henrique Tuna. “O objetivo foi trazer algumas crônicas bastante conhecidas que tratam de momentos da história do Brasil que são cruciais e trazem o inconformismo dele com problemas que perduraram durante a República e não foram resolvidos como se esperava”, explica Tuna. A cidade, a política e até o futebol, com o qual Lima Barreto não tinha grandes ligações, aparecem nas crônicas. Neste último, ele critica a violência e a discriminação racial ao narrar a viagem de um time brasileiro à Argentina, onde os jogadores foram chamados de “macaquitos”. Há até uma espécie de manifesto no qual o escritor pede o fim do feminicídio. Não as matem analisa uma série de assassinatos de mulheres no Rio de Janeiro. “Tudo isso dá até uma sensação de déjà vu”, repara Tuna.

Os textos do escritor também vão servir de inspiração para quatro artistas convidados a ficar confinados na Casa de Papel, um espaço da editora Lote 42 destinado a oficinas e debates durante a Flip. Os artistas Daniela Avelar, Henrique Martins, João Montanaro e Vânia Medeiros produzirão um projeto inspirado em textos de Lima Barreto e que será publicado no livro Novos mafuás: crônicas de Lima Barreto e algumas outras coisas feitas por algumas outras pessoas, que será lançado no final da festa. “Ele foi um dos raros autores que, no início do século 20, colaboraram com a imprensa. A gente separou esse conteúdo em que ele fez essas colaborações e esses artistas vão criar alguma coisa”, avisa o editor João Varella.

Crítico e atento

Lima Barreto foi um grande crítico da Primeira República. O sistema que deveria trazer a modernidade nunca deu conta da complexidade da sociedade brasileira. A exclusão social, o racismo, as transformações urbanas que modificavam as grandes cidades brasileiras e empurravam a população pobre para os subúrbios, a eterna mania nacional de valorizar o que vinha de fora, a corrupção na política e no cotidiano, questões que são, inclusive, contemporâneas, povoaram os romances, crônicas e contos publicados pelo autor.

Filho de uma professora primária e de um tipógrafo monarquista, Lima Barreto viveu, principalmente, no subúrbio de Todos os Santos, no Rio de Janeiro. Perdeu a mãe aos 6 anos e, em consequência de uma doença psiquiátrica do pai, diagnosticado como neurastênico, precisou ajudar e dar conta do sustento da família. Estudou engenharia na Escola Politécnica, mas não terminou o curso. Em 1903, depois de passar em concurso público, foi ser amanuense no Ministério da Guerra, apesar da péssima caligrafia.

Boa parte dos textos de Lima foram publicados em jornais e revistas da época, com os quais colaborou intensamente. Entre os títulos estão o Correio da Manhã, o Jornal do Commercio e as revistas Careta, Fon Fon, Revista da Época. Um alcoolismo crônico levou o escritor a ser internado em um hospício duas vezes e consumiu os últimos dias do autor de Triste fim de Policarpo Quaresma. Lima Barreto morreu aos 42 anos, em novembro de 1822. (NM)
    

Três perguntas para
Lilia Schwarcz


Como a ambiguidade sempre foi um traço de Lima Barreto?
Ele foi um mordaz crítico da academia e do parnasianismo. Ao mesmo tempo, tentou três vezes entrar na academia. Na terceira, até desistiu. Ele tinha essa ojeriza, mas queria chegar lá. Lima Barreto foi um crítico forte do que hoje chamamos de feminicídio. Ele localiza essa violência doméstica que ainda aflige os brasileiros e faz uma série de artigos chamados “Não as matem”. Esse mesmo Lima Barreto, que fez personagens femininos encantadores, chamou o primeiro feminismo brasileiro de um projeto de senhoras de elite que se divertem. Errou? Quem sabe? Esse mesmo Lima nunca se casou e nunca teve, ao que tudo indica, relacionamentos estáveis. E sempre tinha um problema de deslocamento social: ele era orgulhoso do local de onde falava, Todos os Santos, subúrbio carioca, e até arrisco dizer no livro que ele constrói um Rio de Janeiro com uma geografia mais alargada. No entanto, esse mesmo Lima Barreto muitas vezes desfazia dos costumes dos subúrbios, da sociabilidade local. Quando ele está nos subúrbios, lembra o Centro, e quando está no Centro lembra os subúrbios. Ele se divertia em desfazer do funcionalismo público quando dizia “mede-se a capacidade e a especialidade do funcionário público pela quantidade de vezes que ele abre e fecha a gaveta, pela quantidade de vezes que ele aponta o lápis”. Mesmo assim, o funcionalismo era o ganha-pão dele. Em vez de resolver ou dissolver a ambiguidade, eu aumentei porque essa ambiguidade é fundadora e é uma forma sensível de descrever os personagens.

No livro, a gente tem a impressão de que os livros foram fundamentais para você criar o diálogo biográfico. Como isso funcionou?

O livro tem o esforço de introduzir a retórica do Lima Barreto. Pensei: pra que vou dizer no lugar de Lima se ele diz tão melhor que eu? E ele tem posições tão avançadas que eu tinha medo que as pessoas achassem que eu estava inventando. Então, pensei: vou trazer o próprio Lima falando mesmo, não vou dar uma de tradutora porque ele não precisa. O mote para a pesquisa são os textos do Lima: o momento em que esteve internado, a segunda internação, em 1919, as crônicas, as colunas, seu diário e seu romance inconcluso Cemitério dos vivos, que é um combustível impressionante porque você percebe esse limite tênue e poroso que ele estabeleceu entre ficção e não  ficção. Há muitos momentos em que a gente tem a impressão de que Lima está ficcionalizando sua vida. Essas fronteiras fluidas entre ficção e não ficção já me interessava sobremaneira e a documentação só confirmou.

E que história do Brasil a gente encontra na história do Lima Barreto?
Acho que a história do Brasil que o Lima conta é essa história de exclusão social, é uma história que questiona o mito da democracia racial, é uma história que mostra um país com uma república falha, ainda muito marcada por corrupções. Parece que é hoje: o Brasil é uma grande comilança, falta ao Brasil dignidade. É impressionante. Esse Brasil que ele descreve é o Brasil dos estrangeirismos, é um Brasil de políticos corruptos, de jornalistas igualmente corruptos e artificiais, então há uma escola do Brasil de um personagem que foi sobretudo contra. Contra, mas a favor também, e isso que é tão bonito no Lima. Sendo contra, ele era favorável ao Brasil. Mas ele queria, de alguma forma, iniciar um novo capítulo. (NM)

VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ
De Lima Barreto
Organização: Marcos Scheffel e José de Paula Ramos Jr.
Ateliê Editorial
264 páginas
R$ 39,80

CRÔNICAS PARA JOVENS
De Lima Barreto
Organização: Gustavo Henrique Tuna
Global Editora
104 páginas
R$ 42

OS BRUZUNDANGAS E NUMA E NINFA
De Lima Barreto
Organização de Beatriz Resende
Carambaia
512 páginas
R$ 129,90

 

VOZ DO SUBÚRBIO

 

PABLO PIRES

A obra de Lima Barreto tem certas singularidades. Uma das mais evidentes é a relação do escritor com a política. Desde que começou a publicar em revistas e jornais, em 1905, a verve crítica e a postura combativa estavam presentes. O olhar sobre o aparato do poder – e a lógica burocrática, personalista e baseada em favores – que imperava na jovem República ganhou mais contundência ao longo dos anos nos escritos de Afonso Henriques. Em artigos, crônicas, contos ou romances, Lima Barreto expressava-se politicamente. Era-lhe inevitável. “Não é só político, ele é muito corajoso”, afirma Beatriz Resende, notória pesquisadora da obra do autor e organizadora da edição de Os bruzundungas e Numa e a ninfa, duas obras publicadas em folhetim e reunidas no precioso volume recém-lançado pela Editora Carambaia. Na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a pesquisadora participa de duas mesas-redondas: Arqueologia de um autor e Subúrbio + Fruto estranho. Sua produção sobre a obra de Lima Barreto é vasta e incluindo a monumental Toda crônica (Agir, 2004). Agora, está contente de ver publicados Impressões de leitura e outros textos críticos (Penguin/Cia. Das Letras, com previsão de lançamento hoje), que traz crônicas, resenhas e cartas a jovens escritores; Sobre Lima Barreto – Três ensaios (e-galáxia), e-book no qual comenta a iconografia e a obra do escritor; e Lima Barreto cronista do Rio (Autêntica, previsto para 4 de agosto), em que assina a introdução do volume com imagens e crônicas sobre a capital brasileira de então. Para Beatriz, a singularidade maior de Lima Barreto é um gesto político-literário que lhe garantiu pioneirismo nas letras brasileiras: descrever e incorporar na literatura o universo suburbano, os pobres, os subalternos e os chamados “cidadãos de segunda categoria”, tornando-os protagonistas. Com a autoridade de integrar tal “camada social”, não tinha papas na língua. “A crítica dele se dirigia contra o poder constituído, os males dessa República que surgia autoritária e racista E ele toma partido dos excluídos”, diz. A especialista aponta para o fato de que Lima Barreto sempre foi um deles. Negro e suburbano, teve que persistir para ganhar espaço na imprensa. “Essa situação de exclusão favoreceu a postura crítica dele, porque ele tinha uma liberdade que muitos outros intelectuais não tinham. Ele não dependia de ninguém, não devia nada a ninguém”, explica a escritora. Sempre atualizado dos fatos e ideias que circulavam no Brasil e no mundo, o escritor se identificou com princípios anarquistas, coerentes com sua visão igualitária e com a defesa dos deserdados. “A utopia dele está perto de um anarquismo ou um socialismo internacionalista”, diz Beatriz, apontando que o escritor foi ferrenho crítico do militarismo e sempre expôs o absurdo da guerra. Anterior ao Modernismo de 1922, que moldou a “identidade brasileira”, por toda a vida Lima Barreto negou a noção de pátria. Embora criticasse “os modismos importados”, qualquer ideia de nacionalismo lhe remetia às estruturas do Estado e de poder que combatia. Beatriz ressalta que “ele não se identifica com o comando da nação, com quem toma a palavra e exerce o poder. Se há identidade, ela se dá através da questão da cor, da subalternidade”. Outra singularidade de Lima Barreto é a mistura indissociável entre sua vida e o lugar social de seus textos. Aquele negro suburbano, tantas vezes rechaçado pela elite – tacanha, racista e aferrada a uma pretensa superioridade –, usou a escrita para manifestar repulsa ao status quo. Combateu, do princípio ao fim da vida, a hipocrisia do poder e a lógica social excludente e classista do Brasil de então, cutucando as feridas que, ainda hoje, não se cicatrizaram. Tal procedimento, porém, foi alvo de boa parte da crítica à sua obra. Na época, arte e a vida deviam manter distância. “A literatura não era espaço para ser confessional”, diz a pesquisadora. Atualmente, a visão é outra. Ela explica que, “hoje, essa subjetividade é importante na literatura”. A autoficção, com vida e obra enredadas, é procedimento aceito e até valorizado, não apenas na literatura, mas em todas as artes contemporâneas. “Isso joga a favor de uma leitura contemporânea de uma obra do início do século passado”, defende, ressaltando o pioneirismo de Lima Barreto no “gênero”. Apesar da vida conturbada e curta – morreu aos 42 anos –, Lima Barreto escreveu bastante sobre seu tempo. E sua obra é importante documento sobre a época e a cidade. “A crônica é um gênero que existe a partir da relação com a cidade e com o leitor. Isso contamina muito positivamente a escrita do Lima. Os contos são próximos das crônicas e as crônicas próximas do conto. Ele faz crônicas de maneira próxima a um diário, fala de suas impressões sobre onde morava, sobre a rua, o bairro, as pessoas.” As duas obras reunidas no volume organizado por Beatriz Resende – Os bruzundungas e Numa e a ninfa – são testemunhas saborosas sobre o Rio de Janeiro que se modernizava. O primeiro, publicado em 1917, é uma sátira em que descreve a Bruzundanga, país-espelho do Brasil. Ali, não poupa seu escárnio para evidenciar as mazelas nacionais. Um século depois, a atualidade do relato é impressionante, o que é um triste sinal de que pouco mudou desde então. O segundo é um romance mais estruturado, mas igualmente sarcástico na descrição das regras sociais e do funcionamento do poder. Em certa passagem do livro, o deputado Numa conversa com o jornalista Fuas Bandeira e pergunta: “E o povo?”. A resposta é direta: “O povo! O povo! Que tem o povo com estas questões? Por acaso ele pode raciocinar sobre finanças? Creio que não, meu caro doutor. Não é a sua opinião?”. Os dois folhetins são carregados de ironia, recurso recorrente na obra de Lima Barreto. Beatriz observa que, mesmo não sendo direto nas críticas, o autor deixa claro seu ponto de vista e comunica com seu público. “O recado continua a ser dado”, resume. Outro traço de literatura de Lima Barreto – menos destacado, mas também recorrente –, é o tom otimista com o qual se refere ao povo, aos seus próximos: pequenos funcionários, comerciantes da periferia, desempregados e boêmios. “Esse lado otimista aparece muito imediatamente depois da Revolução Russa, nos textos de 1918 e 1919. Há uma confiança no povo. Ele acredita que, se povo tiver melhores condições, pode se apropriar dessa realidade e realmente mudar a sociedade.”

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