Livro 'O pomar das almas perdidas', de Nadifa Mohamed, é lançado no Brasil

Escritora de origem somali relata a transformação na vida de três mulheres que se cruzam para criar um painel vivo sobre um país em guerra

por Ângela Faria 11/03/2016 12:30
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(foto: Divulgação)
A África quase sempre nos chega em flashes. Entre uma notícia e outra na TV, surgem aquelas rápidas imagens de gente castigada pela fome, crianças negras doentes, cenas de atentados terroristas que logo se embaralham com a notícia seguinte. Primeiro livro de Nadifa Mohamed publicado no Brasil, O pomar das almas perdidas, de certa forma, nos obriga a realmente pôr o pé na África. Mais precisamente em Hargeisa, uma das cidades mais importantes da Somália.

Três mulheres – a menina Deqo, a jovem Filsan e a viúva Kawsan – nos conduzem pelo mundo do qual costumamos nos livrar em rápidas “zapeadas”. Porém, capturados por Nadifa, acompanhamos o horror de guerras civis que tão pouco ibope rendem no frenético noticiário internacional. A escrita sensível desta britânica nascida na Somália expõe terror e violência, mas – sem melodramas – nos faz cúmplices de um povo sofrido, gente de fibra.

Percorremos as ruas de Hargeisa, seu mercado, prisões, lares e puteiros. Filsan, Kawsan e Deqo nos empurram para o front cotidiano. Deqo foi parida e abandonada pela mãe num campo de refugiados. Seu sonho é ganhar um sapato e, para tal, tem de se apresentar na manifestação populista para celebrar o ditador de plantão. Dá tudo errado. A garota, duramente espancada, é defendida por Kawsan, mulher de idade que se vê presa por desacato à autoridade. Na delegacia, ela apanha da soldada Filsan, fiel ao “governo revolucionário”. A moça quase aleija Kawsan.

Essas três mulheres se encontram, perdem-se e se reencontram numa cidade dividida entre a ditadura e o iminente caos de nova guerra civil. A menina órfã dorme ao relento, encontra o arremedo de lar junto a prostitutas que se chamam Stálin e Karl Marx. A viúva Kawsan volta para casa, inválida, dependente dos solidários vizinhos e da jovem empregada que sonha se tornar modelo como as belas celebridades de revistas de fofoca. Filsan se mete em operações militares desastrosas e cruéis. Logo percebe que seu brilhante futuro depende dos “favores” sexuais a generais.

Num dos momentos mais impressionantes do romance, Deqo se refugia na mansão abandonada por milionários que escapam das milícias que passam a comandar Hargeisa. Enquanto assiste a um programa de auditório na TV, a menina acompanha o fuzilamento de um homem na rua. Tem nas mãos um pacote de pirulitos, daqueles que fazem a festa de meninos ricos, e dorme sob a luz azul da telinha. Quando acorda, decide espantar os cachorros que fuçam o cadáver estirado na porta da casa. A pequena Deqo, com imenso esforço, consegue enterrar o homem. Arranca um maço de flores de buganvília rosa e a planta sobre a cabeça dele.

Inspirado em fatos ocorridos no país africano em 1987, O pomar das almas perdidas não é um romance de heroínas. Muito menos flerta com maniqueísmos rasos ou melodramas. A Somália é violenta e cruel, mas também solidária e poética. Deqo, Kawsan e Filsan são mulheres transformadas quando chegamos à última página. Não têm mais casa, família, amores nem dinheiro.

Tantos anos depois da guerra civil somali, Nadifa Mohamed nos obriga, por meio de suas três personagens, a encarar – de verdade – aquelas pessoas que hoje surgem em nossa TV, fugindo de seus países, atravessando o Mediterrâneo em busca de alguma esperança.

Desta vez, não vai dar para trocar de canal. A África não é flash.

O POMAR DAS ALMAS PERDIDAS
De Nadifa Mohamed
Tordesilhas
296 páginas
R$ 39,90

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