Em 'Ainda estou aqui', Marcelo Rubens Paiva retoma a narrativa pessoal de 'Feliz ano velho'

Objetivo do autor é expor as agruras da família destroçada pelo regime militar

por Ângela Faria 04/09/2015 10:17
Editora Alfaguara/ Reprodução
(foto: Editora Alfaguara/ Reprodução)
'Ainda estou aqui', de Marcelo Rubens Paiva, é um livro didático. Deveria ser distribuído aos jovens nas escolas deste Brasil em que protestos contra a corrupção vêm se tornando passarela para gente que exibe cartaz pregando “golpe militar já” e “morte aos comunistas”, enquanto senhoras posam orgulhosamente com cartolina onde se lê “Dilma. Pena que não te enforcaram no DOI-Codi”.

O deputado Rubens Paiva, pai de Marcelo, nunca foi comunista. Democrata, deputado federal pelo PTB, resistiu ao golpe de 1964. Piloto de avião, tirou de Brasília líderes perseguidos pelos militares e levou com ele, num teco-teco, a faixa presidencial. O general Castelo Branco teve de mandar fazer outra para se instalar no Palácio do Planalto.

Cassado, Rubens ajudou militantes de esquerda a fugir do Brasil. Em 1971, trucidado por torturadores no Rio de Janeiro, morreu do jeitinho que as senhoras da cartolina recomendam: no DOI-Codi da Tijuca, o maior centro de tortura da América Latina. Seu corpo jamais foi encontrado. A mulher, Eunice, e a primogênita, Eliana, também foram presas no mesmo dia: 20 de janeiro de 1971. Não deu tempo de torturá-las para arrancar informações do ex-deputado – ele morreu antes.

Viúva aos 41 anos, Eunice teve de se virar para criar os cinco filhos. Dona de casa, classe média alta, voltou a morar com parentes em São Paulo. Retomou os estudos, formou-se advogada e se tornou uma das especialistas mais respeitadas do país em direitos indígenas. Trancava-se sozinha no quarto para chorar (nunca na frente dos filhos), jamais posou de vítima. Essa italiana decidida, de poucos abraços e cozinheira de mão cheia, endureceu como calda de açúcar queimado, nas palavras do filho.

Viúva de marido “nem morto nem vivo”, ela não recebeu a certidão de óbito de Rubens. Por esse motivo, todos os bens do casal ficaram bloqueados. Os meninos foram à luta: estudaram em colégios de esquerda solidários a Eunice, conseguiram passar em universidades públicas. Só Babiu entrou na PUC. Trabalhava em escolinha para pagar a faculdade.

Ainda estou aqui é um relato tocante sobre uma família que não se deixou destroçar. A jovem matriarca não beijocava os filhos, não dava muito colo ao único filho homem e nem frequentava reuniões de pais na escola. Deixou Marcelo fumar maconha dentro de casa, apoiou-o quando a namorada fez aborto, bancou algumas de suas aventuras mochileiras. Não criou um “mimimi” ou um “coitadinho sem pai”. Do seu jeito, amparou o filho, que, aos 22 anos, viu-se preso à cadeira de rodas depois de sofrer um acidente. E ele seguiu em frente. Escreveu o best-seller 'Feliz ano velho' (1982), é um dos talentos literários de sua geração.

Livro de memórias é pouco para 'Ainda estou aqui'. Uma coisa é o jovem estudante de hoje ler Brasil: nunca mais ou a tetralogia de Elio Gaspari sobre o golpe de 1964. Outra coisa é entrar no lar de Rubens e Eunice, conhecer a filharada, compartilhar com o menino a agonia de ficar trancado em casa, vigiado pela polícia, enquanto o pai, a mãe e a irmã foram levados para um quartel da Tijuca.

Voltamos com eles a São Paulo, sem Rubens. Autoridades militares garantiam a Eunice que o marido estava vivo. Amigos, céticos, esperavam pelo pior. Acompanhamos a agoniada luta dos Paiva em busca da verdade. Aliás, ela ainda não terminou, 44 anos depois do assassinato do ex-deputado. Com nó na garganta, voltamos com a família do fórum naquele dia de 1996 em que, finalmente, a viúva recebeu o atestado de óbito.

Eunice Paiva recusou a indenização do Estado pelo assassinato de Rubens. Trabalhou loucamente e construiu o próprio patrimônio. Quando preparava a aposentadoria, a cabeça começou a falhar. Diagnosticada com Alzheimer, hoje, aos 85 anos, recebe os cuidados dos filhos. O tsunami emocional provocado pela doença foi outra odisseia a desafiar os Paiva.

Marcelo nos abre a porta de casa. Conversa conosco. O relato sobre os últimos momentos de seu pai deveria fazer parte das aulas de história do Brasil. É urgente esclarecer os nossos garotos sobre ditadura, tortura, golpe de 64. Eles vão compreender direitinho por que as sete letrinhas – DOI-Codi – jamais deveriam frequentar passeatas que pretendem defender a democracia.

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Marcelo Rubens Paiva
Editora Alfaguara
295 páginas
R$ 31,90

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