Pesquisadora do esporte e história do Brasil nos Jogos Olímpicos critica falta de política pública para o setor

Kátia Rúbio afirma que atletas são sobrecarregados com a cobrança dos políticos e da sociedade

por Renan Damasceno 14/08/2015 06:00
Arquivo Pessoal
A pesquisadora Kátia Rúbio, que lança o livro 'Atletas Olímpicos Brasileiros' (foto: Arquivo Pessoal)

A história olímpica brasileira é uma corrida de obstáculos que, raras exceções, começa com histórias tristes e nem sempre tem final feliz. São esforços hercúleos, longe dos holofotes e muitas vezes à revelia do poder público. A cada quatro anos, atletas são testados diante de uma torcida deseducada sobre o universo olímpico e ávida por medalhas – cobrança amplificada no ano que vem, com a realização dos Jogos Olímpicos Rio'2016, a primeira edição na América do Sul.

Não bastasse a pressão de competir pela primeira vez diante da própria torcida, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) traçou como meta alçar o país pela primeira vez entre as 10 maiores potências do esporte mundial, responsabilidade extra que recai sobre os ombros dos cerca de 400 atletas que vão representar o Brasil em até 28 modalidades. Levando em consideração o quadro de medalhas de Londres'2012, quando foi 22º, o Brasil teria de saltar de três para, no mínimo, oito medalhas de ouro para terminar entre os 10 primeiros no ranking.

“A gente sabe que isso não acontecerá. E nenhum dirigente será responsabilizado por isso, e sim o atleta”, alerta a professora Kátia Rúbio, de 52 anos, doutora pela Escola de Educação da USP, com pós-doutorado em psicologia social, autora da maior pesquisa sobre o Brasil em Jogos Olímpicos. “É preciso desde sempre dividir a responsabilidade de um insucesso de nossos atletas, não porque são amarelões ou fracassados, mas porque eles são vítimas do sistema”, defende a autora de várias obras sobre a relação entre o país e o jogos.

A pesquisa de duas décadas, que mapeou todos os 1.896 atletas que já defenderam o Brasil, resultou no livro Atletas olímpicos brasileiros, que será lançado no próximo dia 25, às 9h, no Sesi da Vila Leopoldina, em São Paulo. Ao Pensar, Kátia falou sobre a mudança na geopolítica dos Jogos Olímpicos, que desembarca pela primeira vez na América do Sul – escolha diretamente ligada à crescente refutação de alguns países à competição, devido ao alto custo e às ingerências da organização –, e da atenção dada pelo governo brasileiro ao evento em detrimento do investimento em políticas públicas de longo prazo.
“O que frustra quem gosta de esporte no Brasil é ver o quanto de dinheiro se gasta para fazer um evento que dura 18 dias e que não há qualquer proporcionalidade com a formação de novas gerações de atletas. A gente vai fazer festa para os outros se divertirem.”

ENTREVISTA // Kátia Rúbio

O que significa para a história olímpica a realização dos primeiros Jogos na América do Sul?
Mostra um redirecionamento da geopolítica olímpica, pois há um movimento crescente de refutar os Jogos por causa dos níveis de exigências, dos gastos necessários para a realização. Houve um empenho muito grande por parte do governo para sediá-los, como afirmação do discurso de país forte, pujante, da sexta maior economia do mundo, que era o discurso daquele momento (2009, ano da escolha). E isso era importante para o movimento olímpico internacional: não era uma cidade, era um país que fazia questão de ter a Olimpíada em seu território, o que é cada vez mais difícil em função da consciência dos governantes sobre o que implica receber o evento.

O que mudou na relação entre os países e o Comitê Olímpico Internacional (COI)?
A estrutura como é hoje é insustentável. Primeiro, pelo nível de ingerência do COI na vida do país que sedia. Isso é cada vez menos aceitável para as democracias. Serve bem para governos totalitários. É um modelo que se esgotou em si mesmo, de um nível de exigência que vai além do que os governos podem oferecer sem ferir sua soberania. O que se esgota no Rio de Janeiro é um modelo totalitário, centralizador, que não se sustenta. A partir de agora, vamos ter uma flexibilização dessas regras. O presidente do COI, Thomas Bach, já aponta nessa direção, aventando a possibilidade de os Jogos acontecerem em mais de um país, mais de uma cidade.

Que fase é essa que se esgota no Rio?
Costumo dividir a história olímpica em fases. De 1896 a 1912, foi a fase de estabelecimento, a apresentação para o mundo de um modelo de competição inédito, mas ainda circunscrito a uma aristocracia que tinha dinheiro para praticar esporte. De 1920 a 1936, os Jogos já se afirmaram como um grande fenômeno, como espetáculo, que coincidiu também com a massificação das práticas esportivas. De 1948 a 1988, foi o período em que o esporte se tornou cenário para as tensões políticas que ocorriam no mundo, transformando-se em metáfora da Guerra Fria. Em 1980 e 1984, em função do boicote e da subida do espanhol Juan Samaranch à Presidência do COI, é uma fase de transição de um modelo amador para o profissional, que só não se concretizou nessas duas edições por causa dos boicotes, mas que iria se manifestar em Seul’1988, com o retorno do tênis ao programa olímpico e, a partir de 1992, sem qualquer restrição, com o Dream Team norte-americano. Acredito que esse modelo se esgote aqui, abrindo uma nova etapa que não sabemos dizer como será.

No Rio’2016, teremos um fato inédito que é a proximidade da torcida. Como os atletas brasileiros vão administrar essa pressão?
Para todos os atletas brasileiros, os Jogos de 2016 serão difíceis, independentemente da modalidade. Porque, da mesma forma que todos querem competir em casa, a responsabilidade pode pesar mais sobre cada um deles. Espero que esteja sendo feita uma preparação específica para o atleta saber lidar com isso, porque, infelizmente, cria-se uma ideia de que o Brasil ficará entre os 10 países que mais vão ganhar medalha, e a gente sabe que isso não acontecerá. E nenhum dirigente será responsabilizado por isso, e sim o atleta. Se ele não estiver preparado para lidar com isso, ele assumirá sozinho e o custo emocional e social será muito alto. É preciso, desde sempre, dividir a responsabilidade de um insucesso de nossos atletas, não porque são amarelões ou fracassados, mas porque eles são vítimas do sistema. Alguns têm consciência disso, outros não. Alguns vão achar que são inteiramente responsáveis pelo insucesso ou pelo resultado prometido e não alcançado.

O fato de o atleta não fazer parte desse sistema de poder o deixa mais fragilizado?
A história do esporte mostra que o atleta nunca fez parte do sistema de poder. Isso não é recente, é histórico. Ele preferiu ficar na posição do performático a assumir a posição política, porque os que se aventuraram durante a carreira pagaram preço bastante elevado. Então, é muito difícil conciliar a carreira do atleta com a carreira de um dirigente. Muitas vezes, eles preferem se resignar para poder realizar seu sonho de ser um atleta olímpico.

A torcida brasileira estará aberta a entender o insucesso?
Mais do que a torcida, eu gostaria de saber se a imprensa está propensa a entender isso. O caso do Cesar Cielo, por exemplo: ele ficou em sexto lugar nos 50m borboleta (do Mundial de Esportes Aquáticos, semana passada, em Kazan) e escreveram que ele é um fracassado. Quando a população lê e ouve uma notícia assim, a única coisa que pode pensar é que ele é um fracassado. Eu não jogo a responsabilidade apenas na população, mas nos meios de comunicação que formam a opinião pública. Só se fala em futebol no país. Aí você deixa de formar uma cultura esportiva no país. O Brasil tem um analfabetismo esportivo. Como você dá um livro do Monteiro Lobato para um analfabeto ler? Ele só vai olhar figurinhas e criar a história que bem entender. Então, em um país analfabeto esportivo, o que fica são apenas aparências.

E você acha que o tratamento será mais crítico por ser em casa?
É mais fácil jogar a responsabilidade do fracasso em alguém, eleger esse bode expiatório, pois assim não precisamos discutir as razões do fracasso. Você elege o bode expiatório e está tudo resolvido, quando o que se deveria discutir são as razões do fracasso.

Por que há essa diferença tão grande entre o mundo do futebol e o olímpico?

Porque o campeonato mundial de futebol rivaliza em importância e ordem de grandeza com os Jogos Olímpicos. Nenhuma outra modalidade tem um campeonato próprio com essa importância e apelo. Há uma questão, uma rivalidade política entre a Fifa e o COI que remonta à década de 1920. São 100 anos de rivalidade, que levaram, inclusive, o futebol a ficar fora dos Jogos Olímpicos'1932, que estão ligados à origem da Copa do Mundo de futebol. Tudo isso está relacionado ao futebol aceitar a profissionalização de seus atletas e o esporte olímpico, não. Então, essa rivalidade atravessa o século 20 e chega ao século 21 de forma insolúvel.

O jogador de futebol não dá o valor devido à Olimpíada?

O atleta do futebol, desde pequeno, quer ser campeão do mundo, ele não quer a medalha de ouro olímpica. Quando ele vai para um evento como os Jogos Olímpicos, ele se perde dentro do evento. Na Copa do Mundo, ele é o cara, com “O” maiúsculo. Na Olimpíada ele é apenas mais um na multidão. Sou a favor da saída do futebol masculino e não do feminino, pois as mulheres sabem o que significaram os esportes olímpicos e a importância disso para elas e para a carreira delas.

A proximidade com grandes atletas pode aumentar o interesse dos brasileiros pelos esportes olímpicos?
Não sei se os Jogos Olímpicos no Brasil provocarão isso. O que se verá aqui não é diferente do que se vê em outras edições, pois o acesso às arenas será restrito. O esporte hoje vive uma crise geracional, porque a prática esportiva no mundo é decrescente. Há um aumento do sedentarismo e uma diminuição da prática, em função de outros estímulos relacionados ao desenvolvimento tecnológico. Se, no passado, o momento mais ansiado por uma criança era sair de casa para brincar para jogar, hoje é voltar para casa e ficar dentro do próprio quarto jogando, virtualmente, mesmo que seja futebol.

Como mudar esse panorama?
Esse decréscimo foi um dos motivos que levaram à criação dos Jogos Mundiais da Juventude, para tornar os Jogos mais atrativos para essa faixa etária. É importante entender também que o modelo de treinamento é do século 19. Ele é autoritário, que serviu perfeitamente para uma geração de crianças criadas por pais também autoritários. A geração do fim do século 20 é uma geração reivindicante, responsiva, que não aceita o sim pelo sim e o não pelo não. Esse modelo de treinamento não cabe nessa geração. Foi o que levou também os pedagogos do esporte a repensarem os métodos de treinamento.

O Brasil está perdendo, talvez, sua melhor chance?
Não acho que esta seja a maior oportunidade. Os Jogos Olímpicos não são fomentadores de políticas públicas. Eles são apenas e tão somente um espetáculo, assim como um show do Paul McCartney. Aquilo que pode mudar efetivamente a história de um país é uma política pública efetiva para o esporte. Aí sim podemos começar a pensar em fazer um pouco melhor do que fazemos. Talento eu não tenho dúvida que temos neste país. Falta uma política para a gente ter técnicos bem formados, equipamentos bem utilizados, políticas de intercâmbio que favoreçam a carreira do atleta. Mas, infelizmente, a história mostra que esporte no Brasil é usado como toma lá da cá político. E a ponta frágil desta corda sempre foi o atleta. Quando a gente pensa que existe efetivamente uma pasta de Esporte só a partir da primeira gestão do Lula... Antes, era um ministério extraordinário, que não se sentava à mesa na reunião dos ministros. O que são 13 anos em uma história de 500?

Sobre o legado, a Olimpíada trará resultados a curto ou longo prazo?
Vai demorar muito para ver legado, se houver. Não há uma política de esportes no Brasil, não há relevância da educação física dentro da escola e isso impede o desenvolvimento como nós gostaríamos. Aí vamos continuar vendo a história dos atletas olímpicos brasileiros pontuada por esforços individuais, cercados de condições mínimas. A história de um atleta olímpico é sempre reportada por um esforço individual muito acima da média. É uma questão de sobrevivência. Quando você não tem o que comer, ou você vai à luta ou morre de fome. Com o tempo, a gente acha que é impossível o atleta ter passado por tudo aquilo, mas passou. O que frustra quem gosta de esporte no Brasil é ver o quanto de dinheiro se gasta para fazer um evento que dura 18 dias e que não há qualquer proporcionalidade com a formação de novas gerações de atletas. A gente vai fazer festa para os outros se divertirem.

MAIS SOBRE PENSAR