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A mestra

Luiz Carlos Mello e Roberto Berliner relembram a brilhante trajetória da psiquiatra alagoana Nise da Silveira. Na contramão da medicina de sua época, ela usou a arte para tratar doentes mentais

Antonio Gonçalves Filho

A psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999) acreditava que na atividade criadora existiam forças autocurativas que vinham do inconsciente. Acreditava tanto nisso que acabou por criar, em 1946, ateliês de pintura e de modelagem no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro, que teve como primeiro monitor Almir Mavigner, que se tornou um dos grandes nomes da arte abstrata brasileira. Seis anos mais tarde, em 1952, o Diário Oficial da União publicou a nomeação, pela primeira vez, de auxiliares de praxiterapia num hospital brasileiro, abrindo caminho para a salvação de doentes mentais até então tratados com métodos desumanos rejeitados pela médica. Quem conta essa história é Luiz Carlos Mello no recém-lançado Nise da Silveira – Caminhos de uma psiquiatra rebelde, ensaio biográfico que orientou o cineasta carioca Roberto Berliner, de 57 anos, na realização do filme Nise (título provisório), com Glória Pires no papel-título.

Em fase de mixagem, Nise ainda não tem data de estreia. É um longa com 100 minutos produzido pela TV Zero, que destaca justamente o momento de virada na carreira da profissional alagoana, quando decidiu não ceder aos selvagens métodos usados nos anos 1940 para “curar” portadores de doenças mentais, entre eles, o eletrochoque e a lobotomia. Bem antes da revolucionária abordagem de graves disfunções mentais pelo psiquiatra britânico Ronald Laing (1927-1989), que jogou nova luz sobre a esquizofrenia, Nise da Silveira já defendia um projeto de convivência entre terapeutas e pacientes, que ela gentilmente chamava de “clientes”.

O biógrafo, por muitos anos assistente da psiquiatra, é diretor do Museu das Imagens do Inconsciente, fundado por Nise da Silveira em 1952 para abrigar as obras de arte criadas por seus “clientes”. Objeto de documentário rodado por Leon Hirszman entre 1983 e 1985, esse acervo rodou mundo, ajudando a entender a arte produzida por excluídos sociais como os esquizofrênicos encarcerados em instituições públicas.

Antes dele, porém, o trabalho de Nise da Silveira foi reconhecido pelo psiquiatra suíço Carl Jung (1875-1961), discípulo de Freud que rompeu com o mestre por discordar de sua teoria do inconsciente e da libido, que não via como a única responsável pela formação da personalidade. Jung ficou tão entusiasmado com o trabalho da brasileira que a convidou para a abertura de uma exposição suíça daquela que depois seria chamada de art brut, em 1957.

Roberto Berliner trata de um momento específico da vida da psiquiatra. “O filme começa em 1944, quando Nise foi anistiada, depois de ficar afastada por oito anos do serviço público, e retoma seu trabalho como médica no Centro Psiquiátrico Nacional em Engenho de Dentro”, conta. Presa em 1936, denunciada por uma enfermeira como comunista (ela nem pertencia ao PC), a psiquiatra ficou presa na Casa de Detenção ao lado de Olga Benário Prestes, tornando-se também amiga de Graciliano Ramos.

Berliner quer mostrar como essa passagem pela prisão “foi uma experiência-chave para entender como o problema das pessoas encarceradas em manicômios é semelhante ao dos prisioneiros comuns, que enfrentam igualmente o sequestro da sua individualidade”. Justamente pessoas com problemas de identidade, acrescenta.

Além do ensaio de Mello, Berliner adotou como fonte inspiradora a biografia Nise: arqueóloga dos mares, de Bernardo Horta, lançada em 2008, que acompanha a vida da psiquiatra desde sua chegada ao Rio, em 1927, sua prisão durante o governo Getúlio Vargas, o encontro com Jung e seu reconhecimento como pioneira no tratamento alternativo da doença mental. (Estadão Conteúdo)

NISE DA SILVEIRA – CAMINHOS DE UMA PSIQUIATRA REBELDE


. De Luiz Carlos Mello
. Editora Automática
. 370 páginas, R$ 60