Os homens merecem amor

Sucesso com suas tirinhas também na internet, o quadrinista e escritor carioca André Dahmer acaba de lançar o livro de poemas A coragem do primeiro pássaro

por 16/05/2015 00:13
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YouTube/Reprodução (foto: YouTube/Reprodução)


Como uma espécie de manifesto, o quadrinista e escritor carioca André Dahmer abre seu terceiro livro de poemas com o seguinte verso: “Vocês não me conhecem”. Fenômeno nas redes sociais com tiras como Malvados, Vida e obra de Terêncio Horto e Quadrinhos dos anos 10 – espécies de um apanhado geral, que transita com facilidade entre o lirismo, o pessimismo e o humor –, Dahmer leva suas tiradas certeiras e as expande nos poemas de A coragem do primeiro pássaro, lançado pela editora Lote 42.

Mas o autor não concorda com essa leitura. “Esse não é um livro autobiográfico, procuro falar mais de coisas universais”, diz, por telefone. “Esse verso não é um grito, porque o livro é sobre raiva, sim, mas também sobre amor.” Aliás, o amor, pode-se dizer, é o tema mais presente nos 37 poemas breves que compõem o livro – todos sem título, sem pontuação, sem maiúsculas.

“Há uma questão formal para mim em relação ao verso livre”, afirma Dahmer. Dentro desse guarda-chuva, o divórcio aparece com frequência: “amor é assim/quem nunca perdeu/não sabe o que está perdendo”, diz um dos poemas. “É mais uma projeção do que outra coisa”, comenta Dahmer, citando Manoel de Barros (“invento para me conhecer”) e Fernando Pessoa como inspirações. Os versos se movem como aforismos: “os chefes/os que matam pássaros por diversão/os que arrastam corpos pelas ruas/ e os que salvam as vidas de outros homens em hospitais/todos/os homens merecem amor”.

Os poemas são para Dahmer uma espécie de folga do mundo político cotidiano, que ele aborda com frequência nas tiras, publicadas diariamente nos jornais Folha de S. Paulo e O Globo – embora não deixem totalmente de lado essas questões: “um general/com chumbo na nuca/me disse/fofinho/a vida é assim/a maioria nasce e morre/gritando”, ressalta um deles, que abre o capítulo “Agora é guerra”.

“Faço quatro ou cinco quadrinhos por dia, tenho que entregar, não tem jeito”, comenta Dahmer – “não tem nada de processo de artista, eu acordo e faço”. Com os poemas, é diferente. “É outro ritmo, tenho tempo de fazer, reler e sem prazo para entregar”, compara. Para este livro, foram pelo menos dois anos de releituras e revisões.

A edição cuidadosa da editora paulistana Lote 42 também fez sucesso na web, na época da Copa do Mundo, ano passado, ao prometer 10% de desconto a cada gol levado pela Seleção Brasileira. Lembre-se dos 7 a 1. Esse é o 11ª livro da editora, que dedica um espaço especial para publicações independentes.

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