Crônica de Londres

O dia em que um grupo de teatro saído de Minas Gerais conquistou o santuário shakespeariano com uma montagem bela e original do clássico Romeu e Julieta

por 09/05/2015 00:13
João Santos/Divulgação
João Santos/Divulgação (foto: João Santos/Divulgação )
Arildo de Barros



Chovia intensamente em Londres no dia 5 de julho de 1996. Desde muito cedo, sob a lona de um circo úmido e frio, montado dentro do Battersea Park, a equipe do Grupo Galpão esperava pelo público que viria ali para a estreia de Romeu e Julieta. Depois do surpreendente sucesso da semana anterior, no festival Theater der Welt, realizado naquele ano em Dresden e em cidades vizinhas da Alemanha, nossa expectativa era grande. Foi, portanto, decepcionante iniciar o espetáculo com cerca de 60 espectadores, a maioria deles brasileiros.

Ainda não sabíamos, ouvindo os primeiros acordes de Você gosta de mim, ó maninha?, que no meio daqueles gatos pingados se encontrava um grupo de diretores do Shakespeare’s Globe Theatre, a centenária companhia comandada, na alvorada do século 17, pelo próprio bardo de Stratford-upon-Avon. Assim que cessaram os aplausos finais, aqueles circunspectos senhores e senhoras rodearam os atores, o diretor Gabriel Villela e nossa convidada, a crítica Bárbara Heliodora.

Entre atônitos e comovidos, manifestaram seu encantamento pelo frescor e pela qualidade do que acabavam de presenciar. Um deles chegou a afirmar que os ingleses haviam convertido o seu poeta em peça de museu, e que fora preciso aparecer ali um grupo da América Latina que resgatasse para eles o caráter festivo e popular do teatro de Shakespeare e que, enfim, lhes ensinasse de novo a encená-lo. As consequências desse encantamento não tardaram muito.

O New Globe Theatre foi inaugurado em 1997, na mesma Southwark onde se erguia o original seiscentista. Entre seus novos projetos, havia o Globe to Globe, que programava, para cada verão londrino, a apresentação de uma das peças de Shakespeare, produzida em algum país do mundo e cuja montagem envolvesse elementos da cultura desse país. Nos primeiros anos, foram exibidas ali três obras do bardo, provenientes da Índia, África do Sul e Cuba, todas ignoradas pelo público. Esse fracasso ameaçava a sobrevivência do projeto. E foi assim que o Grupo Galpão foi convidado a voltar a Londres, dessa vez para se apresentar no vaticano da fé Shakespeariana.

Em 11 de julho de 2000, estreamos Romeu e Julieta no Shakespeare’s Globe, sob a sombra do pavilhão nacional do Brasil hasteado na mais alta torre daquela arquitetura. O começo da noite estava ainda claro e, de novo, úmido e frio. O elenco entrou pontualmente às 20h, pela porta da frente do teatro a céu aberto, e abriu caminho para o palco no meio do público, executando a versão instrumental de Flor, minha flor.

É muito curioso observar, no DVD do espetáculo, a expressão tensa e desconfiada dos espectadores ingleses diante daquela trupe incomum, morena, maquiada como palhaços e vestindo coloridíssimas roupas puídas, entoando uma estranha canção de ritmo incompreensível, e depois comparar essa imagem com a dos mesmos espectadores ao final da apresentação, acompanhando a saída dos atores através do mesmo caminho pelo qual haviam entrado.

Sua expressão era, então, a de quem tivesse, durante hora e meia, experimentado o elixir da felicidade. Sorrisos abertos, olhos brilhantes, excitação à flor da pele. E mais: marcando com palmas o ritmo, agora familiar, daquela estranha canção do sul. Havia até quem tentasse cantar junto: “Flor, minha flor...”. A equipe do Globe nos recebeu no palco com champanhe. Estava salvo o Globe to Globe.

A temporada, de 14 récitas, se estendeu até 23 de julho, sempre recebendo a mesma calorosa acolhida do público, em que aos londrinos se misturavam turistas de toda a Europa e, obviamente, do Brasil. Compareceu até um casal de noivos com todos os padrinhos e convidados, para celebrar suas bodas diante do mesmo frade que abençoava a união dos protagonistas. Emoção e alegria povoavam os bastidores, onde cruzávamos com técnicos e funcionários da casa, igualmente eufóricos e tocados pelo espetáculo. Encontrávamo-nos também por ali com os elencos que dividiam conosco todos os espaços e camarins.

Diariamente, às duas da tarde, ocorria no mesmo palco uma sessão, em dias alternados, de Hamlet, protagonizado pelo grande ator Mark Rylance, então diretor artístico do Shakespeare’s Globe, e A tempestade, com o Próspero na pele de ninguém menos que Vanessa Redgrave. Pois a grande estrela se empenhou em assistir a Romeu e Julieta do Galpão. E quando lá esteve, Vanessa se fez acompanhar de sua irmã, a também atriz Lynn Redgrave, e de sua mãe, Rachel Kempson, que aos 90 anos rememorava suas atuações na obra de Shakespeare: quando menina, havia encarnado Julieta, mais tarde a sra. Capuleto e, já idosa, fora uma respeitável Ama. Numa noite especialmente fria, as três providenciaram bons cobertores, que as mantiveram quentinhas nas desconfortáveis poltronas de madeira de seu camarote.

Michael York foi mais um astro do teatro e do cinema que se entusiasmou com a apresentação do Galpão. Já nos camarins para saudar os atores, York, que fora o Teobaldo no célebre filme de Franco Zefirelli, entregou a Chico Peluccio, que ali fazia o mesmo papel, uma foto com a dedicatória: “De um Teobaldo para outro”. E indistinto no meio da massa, só o soubemos anos mais tarde, encontrava-se também o encenador canadense Robert Lepage. Em 2003, contratado para dirigir um megaespetáculo no Cirque Du Soleil, Lepage exigiu, para protagonizar sua obra, “uma atriz brasileira que vi em Londres, no papel da Ama de Romeu e Julieta, fazendo o público rir e chorar ao mesmo tempo”. E lá se foi Teuda Bara brilhar por três anos em Las Vegas.

Anos depois desses eventos, um amigo e sua mulher, passando por Londres em viagem de núpcias, foram conhecer o Globe Theatre, então fora de temporada. Incógnitos em meio a um grupo de turistas, foram guiados em sua visita por uma daquelas simpáticas senhorinhas que se dedicam como voluntárias a esse trabalho. A certa altura do trajeto, a guia comentou que muitas coisas espantosas já haviam ocorrido naquela casa, mas o mais extraordinário acontecimento dos últimos anos fora a passagem de um grupo brasileiro, com uma versão absolutamente bela e original de Romeu e Julieta. E, para orgulho e comoção do jovem casal mineiro, apontou na parede o cartaz de divulgação do Grupo Galpão.

Corte para 2012, ano das Olimpíadas de Londres. Mais um projeto do Globe envolve montagens das obras de Shakespeare pelo mundo. Na programação da maratona cultural pré-olímpica, a ideia era levar à casa do maior dramaturgo da história suas 37 peças, montadas em 37 países e em 37 línguas diferentes. Enquanto se pesquisavam as produções recentes que atendessem às exigências do projeto, um grupo de técnicos e funcionários do teatro trouxe uma sugestão à equipe curadora do evento: o Romeu e Julieta só poderia ser aquele do Brasil. Esse voto, espontâneo e rigorosamente democrático, foi acatado.

O Galpão fez de novo suas malas e mais uma vez partiu em direção a Londres, para mais uma vez conquistar londrinos, brasileiros que para ali convergiram de diversos pontos da Europa, turistas do mundo inteiro e todo um conclave de artistas e críticos de teatro oriundos dos cinco continentes. E assim se fez. Missão cumprida, o grupo volta para casa, para o trabalho, para o risco, para os desafios. Para a vida real.

Aos quase 33 anos de existência, o Galpão coleciona um vasto repertório de lembranças, recolhidas em sua passagem por palcos, ruas e praças de todo o Brasil e mais 16 países. Viagens curiosas, lugares insuspeitados, encontros insólitos, profundas emoções, afetos que permaneceram e até grandes aflições que o tempo cuidou de converter em divertimento. Lembranças todas boas, ótimas em sua maioria. Mas a vitoriosa conquista do santuário shakespeariano, considerados todos os seus significados, ocupa, na preciosa coroa dessas memórias, a posição central e única do mais esplêndido diamante.

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