O inconsciente e os números

Matemático argentino ministra seminário sobre Lacan em Belo Horizonte. Pesquisador aborda a importância da lógica na obra do psicanalista francês

por 14/03/2015 00:13
Arquivo Pessoal/Divulgação
Arquivo Pessoal/Divulgação (foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)
Maria Augusta Friche, Monica Belisário e Regina Teixeira da Costa

Dias 20 e 21, a Aleph – Escola de Psicanálise recebe o matemático argentino Pablo Amster para o seminário “Lacan e as matemáticas: da lógica à topologia”, a ser ministrado na Sala Multimídia do Estado de Minas. Após o seminário, o professor fará uma breve conversa musical, a chamada charla de matemática e tango. Pablo Amster é doutor em matemáticas pela Universidade de Buenos Aires (UBA), onde é diretor e professor do Departamento de Matemática da Facultad de Ciencias Exatas y Naturales e pesquisador do Consejo Nacional de Investigaciones Cientificas y Técnicas (Conicet). Autor de numerosos trabalhos de pesquisa científica na área de equações diferenciais, ele colabora em diferentes projetos nas universidades argentinas e estrangeiras. Além disso, ministra conferências e seminários de divulgação e escreve textos destinados a um público amplo. Entre seus livros destacam-se La matemática como una de las bellas artes (Siglo XXI, 2004), Mucho, poquito, nada. Un pequeño paseo matemático (Editorial Norma, 2007), Fragmentos de un discurso matemático (Fondo de Cultura Económica, 2007), ¡Matemática maestro! Un concierto para números y orquestra (Siglo XXI, 2013), Apuntes matemáticos para leer a Lacan – 1 e 2 (Letra Viva, 2010), Teoria dos juegos. Una introducción matemática a la toma de decisiones, em coautoria com J. P. Pinasco (Fondo de Cultura Económica, 2014), entre outros publicados e alguns ainda “no forno”. Músico estudioso do tango, ele ressalta a beleza da matemática pela via da música, da arte, da escrita, da poesia e, enfim, da psicanálise.

Em um de seus livros você afirma que a matemática produz beleza. Como podemos entender isso?

Nós, que nos dedicamos a essa atividade, podemos fazer nossas as palavras do grande matemático francês Henri Poincaré: mais que a lógica, é a estética o elemento dominante na criatividade matemática. Um teorema é, antes de tudo, um fato estético e esse é o principal anseio que nos guia e provoca o desejo de gerar mais matemática. Mais além da importância das aplicações, o que nós matemáticos perseguimos em última instância é a busca da beleza. É importante diferenciar essa busca de uma outra, também valiosa, de aspectos matemáticos presentes nas diferentes artes. Creio que há na matemática uma beleza intrínseca, que constitui seu aspecto mais íntimo e permite, de alguma forma, apreciá-la também como arte.

Incluir música, arte, literatura e poesia em livros de matemática é surpreendente. Como você faz essa aproximação?

A princípio, podemos pensá-la como um bom recurso de transmissão. Uma vez assumido o fato de que a matemática é uma experiência estética, encontramo-nos diante de um problema: como fazemos para transmiti-la àqueles – a maioria – que não desfrutam dela, ou melhor, padecem com ela? Porém, as mesmas pessoas que sofrem com a matemática amam a música, a literatura ou a pintura. Trata-se então de dizer a elas: ‘Vejam, tudo isso está cheio de matemática’. No entanto, com o tempo fui me convencendo de que se trata de algo mais que um recurso, e que a matemática está profundamente enraizada em todas essas disciplinas.

No seu último seminário em Belo Horizonte, você disse algo poético e que se aproxima do trabalho analítico: a forma de escrever muda a visão do mundo. Isso nos interessa sobremaneira no trabalho clínico.

Com efeito, na matemática esse fenômeno manifesta-se de um modo notável. Às vezes, um problema difícil se torna muito simples quando encontramos uma notação apropriada. Ao contrário, pode ocorrer que, por não encontrar uma boa maneira de escrever, cria-se obstáculo na compreensão das coisas. Algo assim aconteceu com os pitagóricos, a quem a falta de uma boa escritura, como o sistema decimal, impediu que fossem capazes de conceber a existência dos números irracionais.

Você demonstra ser um grande leitor de Lacan. Como foi esse encontro com a psicanálise?

Vivo em Buenos Aires, uma cidade na qual tudo está atravessado pela psicanálise. Mesmo que isso não queira dizer que todos leiam Lacan. Pessoalmente, minhas leituras começaram muito antes de dedicar-me à matemática. Pouco a pouco o âmbito psicanalítico se converteu para mim em um espaço onde eu posso falar não tanto de matemática (pelo menos não na forma como faço com meus colegas), mas especialmente de seus cruzamentos com diferentes discursos: a filosofia, a linguística, a literatura, a religião. E a psicanálise, claro.

Lacan precisou da topologia e da lógica para sair da proliferação imaginária que produziu desvios no campo da psicanálise. Nesse sentido, é importante sustentar essa interlocução. Como os matemáticos percebem essa demanda?

Talvez seja arriscado responder em nome ‘dos matemáticos’, pois a comunidade matemática não costuma ver com bons olhos o emprego que Lacan fez de certos conceitos. E creio que ninguém entende muito bem o que Lacan quis fazer. É um equívoco pensar nesse emprego como uma tentativa de aplicação da matemática, como se faz por exemplo na física. Uma leitura literal de certas afirmações lacanianas levaria a concluir que tudo se trata de um grande disparate. No entanto, me parece que não é o modo correto de lê-lo. Prefiro situar-me em um lugar muito mais humilde e retomar a ideia de interlocução. O fato de que os psicanalistas busquem entender e aprofundar alguns conceitos matemáticos é para celebrar. O desafio para mim, em todo caso, consiste em facilitar-lhes o caminho. O que pretendo é muito simples: se o leitor de Lacan encontrar dificuldades, que não seja por causa da matemática. Já existem muitos problemas com a própria psicanálise.

No ¡Matemática maestro!, você menciona que muito se canta na Argentina um popular tango que diz “verás que todo es mentira”, sem suspeitar que a frase remete ao Paradoxo de Epimênides. Fale-nos mais um pouco sobre isso.


Conta-se que Epimênides, poeta do século 6 a.C., disse: Todos os cretenses são mentirosos. O problema é que Epimênides era cretense e, consequentemente, deveria mentir. Assim colocado, o enunciado na realidade não é um paradoxo, ainda que facilmente possamos transformá-lo em um se propusermos outra formulação mais simples: ‘Minto’. Se digo a verdade, minto, enquanto que se minto digo a verdade. No tango, por essência paradoxal, aparece essa mesma ideia expressa de diferentes modos. Em especial no tango Yira, yira, cujo estribilho começa com a frase que vocês mencionam. Se tudo é mentira, também o é a frase que afirma tal coisa, e estamos com um problema. O notável é que Discépolo escreveu esse tango em 1930, o mesmo ano em que um lógico chamado Gödel fazia uso do mesmo paradoxo para introduzir um dos mais gloriosos teoremas do século 20.

Você sempre faz uma aproximação do campo da matemática com a Torá e o Antigo Testamento, para além da crença. Como você mescla campos tão distintos?

Poderia voltar a dizer que as referências à Torá e ao Talmude em meus textos e conferências têm em primeiro lugar um fim didático, de transmissão. Porém, como referi anteriormente, creio que aqui também há uma conexão profunda e, no fundo, não se trata de campos tão distintos. Como na matemática, a religião repousa na ideia de um sistema de axiomas e o que diferencia uma da outra é a posição filosófica em torno da verdade. O religioso crê (ou, segundo afirma, sabe) que há verdades absolutas; na matemática, a verdade é sempre relativa a um universo determinado. Pode-se mudar um axioma da geometria por outro e o que resta é uma geometria diferente, porém não menos verdadeira. Com um pouco de boa sorte essa geometria se adaptará melhor aos fenômenos do mundo que pretendemos explicar, porém, a matemática não nos diz, em última instância, como é esse mundo.

Quando teremos a tradução para o português de algum de seus livros?


Segundo me confirmaram há poucos dias, o lançamento da versão em português dos Apuntes matemáticos para ler a Lacan está previsto para setembro, pela Editora Scriptum. Esses textos estão destinados, especialmente, ao público psicanalítico, que cresceu muito no Brasil. Espero que pouco a pouco possam chegar também alguns de meus outros livros direcionados para um público ainda mais amplo.

LACAN E AS MATEMÁTICAS:DA LÓGICA À TOPOLOGIA
Dias 20, das 16h às 20h; e 21, das 9h às 13h.
Sala Multimídia do Estado de Minas
(Av. Getúlio Vargas 291, Funcionários). Informações e inscrições: (31) 3281-9605.
E-mail: aleph.psicanalise@terra.com.br

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