O Tolstói do século 20

Vida e destino, romance do russo Vassili Grossman, chega ao Brasil com a marca de obra-prima da ficção moderna. A trajetória errática desse livro renderia uma novela de espionagem

por 28/02/2015 00:13
ALEXANDER ZEMLIANICHENKO/AP
ALEXANDER ZEMLIANICHENKO/AP (foto: ALEXANDER ZEMLIANICHENKO/AP)
Lourenço Cazarré

Você lerá na capa e na contracapa de Vida e destino, de Vassili Grossman, que se trata de uma das grandes obras-primas do século 20 e que seu autor “é o Tolstoi da URSS”. Acredite. Não se trata de propaganda enganosa. A errática trajetória desse livro, só publicado na Rússia quase três décadas depois de concluído, renderia uma movimentada novela de espionagem. Em 1960, o autor submeteu o original à leitura de um amigo e ouviu que as chances de impressão do calhamaço na Rússia, naquele momento, eram nulas. E o aconselhou a não enviar a obra ao editor de uma revista que pretendia publicá-la em capítulos.

Grossman não aceitou a dica. Aliás, irritou-se com o amigo e despachou o pacote. Meses depois, recebeu a visita de três agentes da KGB, que confiscaram o texto escrito, as fitas da máquina de escrever, as folhas de papel carbono e todas as anotações do autor. Grossman morreu em 1964, aos 58 anos. Em 1974, uma cópia do livro, guardada por um amigo do autor em uma cidadezinha nas proximidades de Moscou, foi enviada, em microfilme, para a França. Alguns capítulos foram então publicados pela mais importante revista russa dissidente editada na Europa.

Em 1978, outra cópia foi enviada, por meio da mala diplomática austríaca, para Viena. Baseada nela, saiu em 1980 uma edição incompleta do livro, em russo, publicada por um sérvio que morava na Suíça. A edição francesa surge em 1983 e a italiana, no ano seguinte. A primeira edição na Rússia veio em 1988, em uma revista, mas sem um capítulo – na verdade, ensaio — sobre o antissemitismo.

Com o degelo da União Soviética, em 1889, aparece uma outra cópia com observações e retificações feitas a mão pelo autor. Dizem que o único livro que Grossman leu, por duas vezes, durante a Segunda Guerra Mundial – enquanto trabalhava como correspondente do jornal do Exército Vermelho – foi Guerra e paz. O grande romance de Tolstói será o modelo em que Grossman se espelhará para escrever Vida e destino.

VILÕES O herói dos dois livros é o mesmo: o povo russo. O vilão de Tolstói é Napoleão. Os vilões de Grossman são dois: Hitler e Stálin. O conde Tolstói escolheu seus principais personagens em duas famílias aristocráticas: Bolkonski e Rostov. O engenheiro químico Vassili Grossman coloca no centro do palco duas famílias da intelligentsia: Chtrum e Chápochnicov. A edição brasileira traz uma relação de 150 personagens, divididos em 16 círculos. O livro é um amplo painel da sociedade russa em meados dos anos 1940, tendo como foco principal a batalha de Stalingrado, da qual Grossman foi observador privilegiado, como repórter do Estrela Vermelha.

Os dois lados em luta são retratados com a mesma acuidade. Há capítulos que descrevem a movimentação dos oficiais russos. Há capítulos protagonizados por oficiais soviéticos. Há capítulos que reproduzem cenas passadas num campo de concentração alemão. Há capítulos que se desenvolvem num campo de trabalho forçado russo. Um dos capítulos mais polêmicos, como reconheceu o próprio Grossman, é aquele que – relatando a conversa entre um oficial alemão e um velho bolchevique – apresenta “uma alarmante similaridade entre nazismo e stalinismo”.

Entre os capítulos mais densos, inesquecíveis, estão a caminhada de Sófia Óssipovna e do menino David em direção à câmara de gás e a carta de despedida da mãe de Viktor Chtrum, judia, presa pelos nazistas na Ucrânia. Horror e comédia misturam-se na história de Krimov, o comissário soviético que cai em desgraça. Um dia, subitamente, numa instalação militar, recebe um soco na cara. Compreende, num átimo, que a roda da fortuna se voltou contra ele depois de 25 anos de serviços prestados ao partido. É levado a uma prisão e jogado entre os criminosos comuns.

Mas logo alguém lembra: ele é prisioneiro político e merece a solitária. Vai à solitária, mas logo é desalojado quando chega outro prisioneiro político que havia “ressuscitado”. Era um desertor que fora fuzilado e enterrado, mas conseguira sair do túmulo e ali estava, nu e enlameado. Começa então uma discussão. O morto deveria receber um pouco de pão enquanto aguardava novo fuzilamento ou não? O carcereiro queria alimentá-lo, mas o intendente alegava que não. Afinal, o prisioneiro era, oficialmente, um morto.

Krimov é levado à tristemente famosa Lubianka, prisão onde eram encerrados os traidores do socialismo. Ali, espancado “de modo bem pensado, científico, de acordo com conhecimentos de fisiologia e anatomia”, ele vai se esforçar para descobrir quando e em que ponto traíra o partido ao qual dedicara toda a sua vida.



BATALHA Em sua luta para publicar Vida e destino, Grossman se encontrou com Mikhail Suslov, o ideólogo do Partido Comunista, que lhe disse que aquele livro não seria publicado na Rússia em menos de 200 ou 300 anos. O motivo mais provável eram os incontáveis trechos corrosivos sobre Stálin, como aquele em que o autor fala da importância da batalha de Stalingrado: “Estava se decidindo o destino dos prisioneiros de guerra alemães que iriam para a Sibéria. Estava se discutindo o destino dos prisioneiros de guerra soviéticos nos campos de Hitler, os quais, por vontade de Stálin, deveriam compartilhar do destino siberiano dos alemães depois da libertação.

Estava se decidindo o destino dos calmucos e tártaros da Crimeia, dos balcários e dos chechenos, que, por vontade de Stálin, seriam enviados para a Sibéria e o Cazaquistão, perdendo o direito de recordar sua história e ensinar aos filhos a língua materna”.

Um dos maiores romances do século 20, Vida e destino é, para o crítico George Steiner, uma obra que “eclipsa quase tudo o que se passa por ficção séria no Ocidente hoje”.

Lourenço Cazarré é escritor e jornalista

VIDA E DESTINO
• De Vassili Grossman
• Alfaguara,
• 920 páginas
• R$ 89,90

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