Entre celebridades e cadáveres

por 06/12/2014 00:13
Julia Moraes/Divulgação
Julia Moraes/Divulgação (foto: Julia Moraes/Divulgação)
Marcel Singer


A escritora Patrícia Melo começou na literatura apadrinhada por Rubem Fonseca. O que era para abrir portas, por muito tempo se tornou uma espécie de comprometimento. Afinal, não se esperava uma literatura tão forte das mãos de uma mulher jovem, bonita e delicada. Do mestre do brutalismo, a escritora herdou algumas qualidades: o uso equilibrado dos diálogos incisivos, o senso de mistério, a linhagem americana do romance duro e de personagens implacáveis. Além de venenos e matadores de aluguel.

Hoje consagrada, com obras lançadas em vários idiomas e algumas adaptações para o cinema, Patrícia Melo está de volta, com o romance Fogo-fátuo, e, pela primeira vez, adota a forma canônica do policial, com cadáver, investigador e um mistério a ser desvendado. Pode parecer, para uma escritora de suspenses mais elaborados e com peso político, como O homem do ano e Inferno, que se trata de um passo atrás. Não é verdade. Fogo-fátuo é um policial bem construído, com narrativa madura e que se lê com prazer. O que não é pouco para o gênero.

O primeiro acerto é a escolha do cenário moral da trama: o mundo das celebridades. Com a cidade de São Paulo como pano de fundo, Patrícia conta a história de um ator com mais fama que talento, Fábbio Cassio, que morre numa cena de suicídio no palco. O revólver que deveria estar carregado com bala de festim estoura seus miolos, que se esparramam pela primeiras filas do teatro. Artista em busca de afirmação profissional, em torno de Fábbio circulam afetos conflitantes. Entre eles, o de uma alpinista social, Cayenne (que participa de um reality show), com quem é casado, e o da mãe, Olga, uma mulher superprotetora que carrega um segredo que será revelado ao fim da narrativa.

O segundo ponto a favor de Fogo-fátuo (o nome é retirado da peça de Drieu La Rochelle que acaba sendo o último momento do ator) é a investigadora, a perita Azucena, na verdade chefe do Setor de Perícias da Central Paulista de Homicídios. Metida em meio a corrupção policial, ela vive seu inferno pessoal, com a traição do marido e a doença degenerativa do pai, um apaixonado por óperas (daí o nome da personagem). O maior talento da narradora é colocar em andamento esses elementos, mantendo a surpresa do desenlace. Quando tudo parecia conduzir para uma narrativa derrisória de um mundo vazio, o crime ganha outra motivação, mais torpe e violenta, que ajuda a segurar o ritmo.

Como é próprio das novelas policiais, a autora deixa algumas dicas que apontam para a continuidade da história. Fios soltos que indicam tramas futuras. Azucena chega ao fim como uma personagem bem desenhada, mas com conflitos pessoais que merecem ser retomados. A perita deve se tornar protagonista de novos romances de Patrícia Melo. Elas merecem.

Fogo-fátuo
De Patrícia Melo
Editora Rocco, 304 páginas, R$ 29,50

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