Encontros em torno da literatura

por 08/11/2014 00:13
Fabíola Farias, Dagmar Braga, Maria Esther Maciel e Renato Negrão

A exemplo do que já ocorre no mundo inteiro, especialmente nos países europeus e nos Estados Unidos, o Brasil aderiu aos festivais e grandes eventos culturais: teatro, dança, música, cinema e, mais recentemente, literatura. Distinta das outras linguagens, esta última se realiza por outras vias, já que suas formas de criação e de fruição são pouco viáveis e atraentes num ambiente festivo. Como, então, e por que realizar um festival, um circuito literário?

Em primeiro lugar, é preciso que pensemos um pouco sobre a natureza dos eventos literários. Excetuando-se as feiras e bienais, que, apesar de suas programações culturais, têm um caráter prioritariamente comercial, os eventos dessa natureza têm pouco do efetivamente literário. Nos festivais de música, por exemplo, as pessoas se reúnem para assistir a concertos ou shows, da mesma maneira que se juntam em torno de espetáculos teatrais e de dança ou de um conjunto de filmes, numa abordagem temática ou autoral. E os eventos literários, de que se constituem?

Pela dificuldade de se trazer a literatura para um ambiente festivo, os caminhos encontrados por curadores e organizadores têm sido os mais diversos. A aproximação e o diálogo quase sempre desigual com outras linguagens artísticas têm sido o mais frequente. Dessa maneira, uma linguagem dá lugar a outra e a literatura acaba, muitas vezes, como pretexto para atividades que pouco dizem dela mesma como forma e conteúdo.

O envolvimento dos autores com o público, quando os livros não bastam, também já não se configura como o centro dos eventos literários, uma vez que as novas tecnologias promovem, cada vez mais, o “encontro” entre escritores, ilustradores, tradutores, especialistas e leitores. Páginas eletrônicas e redes sociais, especialmente, permitem esse diálogo. Uma infinidade de blogs, muitas vezes propostos e geridos por leitores bastante jovens, trata, de maneira livre e despreocupada, de obras e gêneros literários muito específicos, normalmente o produto de um modismo editorial: vampiros, gnomos, adolescentes mágicos, mulheres em aventuras eróticas, entre tantos outros.

Um dos grandes prazeres dos leitores, dos jovens seduzidos por best-sellers aos apaixonados por clássicos, é falar sobre suas leituras, partilhar impressões e construir amizades literárias. Talvez esteja aí a razão dos encontros que reúnem, em torno do livro, sob o título de festival, evento ou circuito, pessoas tão distintas. Leitores e escritores-leitores dedicam-se amorosamente, naquele espaço e tempo, a tratar de romances, contos, poemas, crônicas, textos dramatúrgicos e ilustrações na tentativa de, nas palavras de María Teresa Andruetto (escritora argentina vencedora do Prêmio Hans Christian Andersen em 2012), “não nos contentarmos em viver uma única vida e, por isso, o desejo de suspender um pouco o transcurso monocórdio da própria existência para ter acesso a outras vidas e outros mundos possíveis, o que produz, por um lado, certo descanso ante a fadiga de viver e, por outro, o acesso a aspectos sutis do humano que até então nos haviam sido alheios”.

Os eventos literários são especialmente importantes porque aproximam leitores de outros leitores. É possível e desejável que também despertem o interesse ou digam às pessoas que há outras formas de se compreender a vida, ela mesma uma narrativa. E que há um mundo imenso guardado pela escrita, essa tarefa aberta à qual todos têm direito. Destacando a exigência de uma política pública que contemple questões educacionais, sociais, culturais e econômicas que promova a participação de toda a população na cultura escrita, para além do aspecto pragmático de ler e escrever, os eventos literários são importantes porque promovem encontros em torno da literatura. E isso é muito.

. Fabíola Farias, Dagmar Braga, Maria Esther Maciel e Renato Negrão são curadores do Circuito Literário Praça da Liberdade, evento que será realizado de 12 a 16 deste mês, em Belo Horizonte.

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