História dá samba

Livro de Maria Lucia Rangel e Tino Freitas mostra como a música popular apresenta personagens e reconta fatos marcantes do passado brasileiro

por 09/08/2014 00:13
Ziraldo/Reprodução
Ziraldo/Reprodução (foto: Ziraldo/Reprodução)
Ângela Faria



Ele foi escrito para crianças, mas os adultos vão adorar a novidade. Aula de samba, assinado por Maria Lucia Rangel e Tino Freitas, com ilustrações de Ziraldo, rememora fatos e personagens de nossa história por meio de versos que empolgaram desfiles de carnaval cariocas. É o tipo de livro que papais, mamães e titios terão prazer em “filar” dos baixinhos.

Onze sambas-enredo celebram a abolição da escravatura, a Inconfidência Mineira, a Guerra de Canudos, o Dia do Fico, o fim da monarquia e a Batalha de Guararapes, entre outros fatos históricos, além de personagens como Tiradentes, Getúlio Vargas, dom Pedro I, José Bonifácio, Castro Alves, Aleijadinho e José do Patrocínio. Dona Beja, uma espécie de “protofeminista” que virou lenda em Minas Gerais, ganhou um capítulo só para ela. Em 1968, muito antes de Maitê Proença conquistar o Brasil naquela série da TV Manchete, um samba composto por Aurinho da Vila empolgou o Salgueiro. Ana Jacinta, a musa de Araxá que não se dobrou ao machismo, brilhou na avenida.

Xica da Silva, outra mineira boa de folia, ficou de fora do livro. Uma pena: ela reinou na passarela em 1963, quando o mesmo Salgueiro mudou a história do carnaval carioca. O povo viu um desfile inovador – o primeiro realizado na Avenida Presidente Vargas. O cineasta Cacá Diegues estava lá. E se inspirou ali para fazer seu famoso filme, estrelado por Zezé Motta e Walmor Chagas.

Aula de samba não é daqueles livrinhos tatibitates para crianças. Bem avisa Martinho Filho, herdeiro de Martinho da Vila, no prefácio: ele e as irmãs davam show em história e geografia nos boletins graças ao LP organizado pelo pai, uma coletânea de clássicos carnavalescos povoada de heróis, datas e fatos históricos. Batucada sempre foi melhor do que decoreba...

O CD que acompanha Aula de samba traz regravações nas vozes de Chico Buarque, Dona Ivone Lara, Simone, Lenine e Maria Rita, entre outros. Coube a Chico interpretar Exaltação a Tiradentes (Estanislau Silva/Mano Décio/Penteado) – aquele do “foi traído e não traiu jamais/ a inconfidência de Minas Gerais” –, enquanto o livro traz informações e curiosidades sobre o mártir e seu cantor. Você sabia que Chico Buarque recebeu a Medalha Tiradentes, concedida pela Assembleia Legislativa fluminense, durante um torneio de futebol doméstico? E que Tiradentes foi enforcado com cabelos e barba raspados, porque assim se evitava o ataque de piolhos aos presos?

Samba-enredo defendido em 1953 pela Cartolinhas de Caxias, Benfeitores do universo (Hélio Cabral) é praticamente uma apostila de história do Brasil. A letra fala de Carlos Gomes, Rui Barbosa, Oswaldo Cruz, Santos Dumont, Castro Alves e João Caetano, entre outros. Atualmente, a Cartolinhas faz parte da Acadêmicos do Grande Rio. Em 1956, o polêmico Getúlio Vargas, ditador e pai dos pobres, que ainda desperta paixão e ódio, ganhou samba composto por Padeirinho para a Mangueira. Quase dois anos depois de se matar, Gegê deixou a vida para entrar no carnaval como estadista, idealista e realizador.

Fico


A garotada vai adorar saber que dom Pedro I não era um mauricinho bocó. O príncipe, na verdade, estava mais para pivete. Brincava na rua com as outras crianças e os escravos, adorava boemia e música, compôs o Hino da Independência. Em 1962, Sua Alteza ganhou de Cabana Dia do Fico, cuja letra exaltava a data da “marcante vitória deste povo varonil”. Detalhe: Pedro, o pivete, nasceu em pleno Dia das Crianças.

Aquarela brasileira, o clássico de Silas de Oliveira que fez o Império Serrano levantar a avenida em 1964, canta as maravilhas dos cenários da Amazônia, do Rio de Janeiro, de Pernambuco, de Brasília, do Ceará, da Bahia e até da Ilha do Marajó. Ziraldo não podia mesmo deixar passar batido: no capítulo dedicado a Silas, desenhou um capiau desconfiado, que reclama: “Uai... Num tem Minas...”. Detalhe: aquela beleza de samba era homenagem à Aquarela do Brasil (1939) composta por Ary Barroso, mineiro de Ubá!

Ao lado do cantor Tony Garrido, dona Ivone Lara gravou Os cinco bailes da história do Rio. Em 1965, a carioca simpática quebrou um tabu: foi a primeira mulher a ingressar na ala de compositores de uma escola de samba. Coube à Império Serrano defender a parceria dela com Silas de Oliveira e Bacalhau. O trio se inspirou em festas que marcaram a trajetória da Cidade Maravilhosa – da fundação ao Baile da Ilha Fiscal, o canto de cisne da monarquia.

“Faz escuro/ mas eu canto”, diz o verso de Thiago de Mello. E está aí a lição mais tocante de Aula de samba à moçada. Durante os 21 anos da ditadura civil-militar imposta em 1964, o carnaval deu voz ao povo. Pouco depois da decretação do Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968, chegou a hora da folia. Em 1969, a Império Serrano decidiu celebrar o fim da escravidão e a ousadia dos inconfidentes com Heróis da liberdade (Mano Décio/Silas de Oliveira/Manoel Ferreira). A letra dizia assim: “Já raiou a liberdade/ A liberdade já raiou/ Essa brisa que a juventude afaga/ Essa chama que o ódio não apaga pelo universo/ É a evolução em sua legítima razão”.

Acuada, a Império foi obrigada por censores a trocar a palavra revolução por evolução. Teve de desfilar sob o voo rasante – em plena avenida! – de um avião da Força Aérea Brasileira (FAB). A escola de Madureira ficou em quarto lugar, mas ninguém se lembra disso. Fato é que a corajosa verde-branco entrou para a história. E deu uma aula de samba.

AULA DE SAMBA – A história do Brasil em grandes sambas-enredo
. De Maria Lucia Rangel, Tino Freitas e Ziraldo (ilustrações)
. Edições de Janeiro, 78 páginas, R$ 48,90

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