Ponte a reunir pessoas

por 22/02/2014 00:13
Mauro Passos e Claudio Guerra

Para chegarmos a algum lugar, temos de caminhar. Para caminhar, é preciso traçar metas, critérios e, sobretudo, fazer escolha e mostrar vontade; implica saber aonde queremos chegar e, para tanto, que meios usar. Só assim nos colocamos em movimento e avançamos com sabedoria, alcançando objetivos para o “bem comum”. Assumir o caminho percorrido é a forma de garantir a eficiência do trabalho a ser feito. Observar as curvas, os desníveis, com seus acertos e desacertos, isso ajuda a entender o movimento, a valorizar o caminho a ser percorrido.

A Paróquia do Carmo teve frei Cláudio à sua frente, pároco durante mais de 30 anos, pastor, amigo, mestre, poeta e profeta. Esse seu caráter unitário na pluralidade é/foi sempre fecundo e se inspirou na rica fecundidade dos paroquianos, criando-se uma “comunidade” benfeitora, muito além de suas fronteiras. Tão rica tem sido essa fecundidade que muitas outras comunidades, perto e longe, aproveitaram dessa riqueza humanitária, espiritual e profissional, multiplicando-a no tempo e no espaço.

Muitas abelhas, com o mesmo objetivo, comprometidas em uma unidade dinâmica, formaram pastorais, movimentos, grupos e serviços múltiplos, beneficiando milhares de pessoas e famílias. Com maestria, a comunidade do Carmo foi construindo uma colmeia de comunidades – povo de Deus, nos passos do Concílio Vaticano II, e agora – finalmente – sob a liderança do papa Francisco.

O serviço pastoral, enriquecido por cursos de atualização, reflexão e espiritualidade, formou leigos adultos e participantes que encontraram espaço para pensar, desenvolver suas capacidades de liderança, de organização e de criatividade. À frente da Paróquia do Carmo, frei Cláudio soube confiar na dinâmica de um projeto que só podia dar resultados, caso os leigos e as diversas pastorais ocupassem seus espaços, sem ter de perguntar, a toda hora, ao pároco o que e como fazer.

Dessa forma, se alcançou, no Carmo-Sion, a maioridade do leigo no âmbito eclesial. Isso lembra o tema da 1ª Assembleia do Povo de Deus em Belo Horizonte, realizada em 12 e 13 de outubro de 1996, que procurou recuperar, atualizar e reconstruir o desenho eclesial da Arquidiocese de Belo Horizonte com maior participação dos leigos. O livro Artesão de fé narra a história da Paróquia do Carmo e conta seus passos, iniciativas e de sua militância, sob a orientação entusiasta de frei Cláudio. Essa caminhada foi uma verdadeira, rica e transformadora travessia de fé.

O mundo atual exige mudanças na forma de anunciar e de viver a mensagem cristã, sem o confinamento nos limites de uma tradição fechada em si mesma e a partir de normas, leis e decretos, em clima de verticalismo. Nosso mundo carece de uma agenda que socialize as relações. O cristianismo não é só um conjunto de práticas, crenças e ritos, mas principalmente um modo de vida, um estilo libertador de convivência transformadora. Mais que uma hierarquia de normas, doutrinas e saberes, o cristianismo evoca uma ponte a reunir pessoas e grupos que se cruzam e se beneficiam. É, dessa forma, espaço fecundo para cultivar o diálogo que movimenta fronteiras – “Já não vos chamo servos, chamo-vos amigos” (João 15, 15).

Hoje está ocorrendo uma mudança fundamental na vida de fé; por isso, as pessoas estão mais interessadas em princípios éticos e valores espirituais do que em doutrinas, dogmas e normas. O apelo é para uma experiência de fé que comporte uma significação mística e solidária, como está no evangelho de João: “O vento (o espírito) sopra onde quer” (João 3,8). Uma espiritualidade que vai além da religião formal. A ação pastoral há de mudar segundo os tempos e os lugares, inscrevendo e instituindo novos matizes. Este é o desafio para as religiões, particularmente, para o catolicismo em Belo Horizonte: ser uma religião do futuro. O futuro é a importância maior, pois não desmonta projetos; a partir deles avança e descortina novos horizontes.

Carlos Drummond de Andrade em um de seus poemas escreve: “O presente é tão grande, não nos afastemos, vamos de mãos dadas”. O poeta nos convida a modelar os gestos e a instituir urgências de partilha que humanizem as relações. Mais que nunca, há lugar para a criatividade solidária, pois o futuro pertence a quem se deixa impelir pela esperança. O contorno de uma paróquia é traçado por sua história; congrega as pessoas com estratégias que postulam bom senso, discrição, consciência de provisoriedade e dos limites. Implica, principalmente, capacidade de diálogo que avança e abre perspectivas para caminhos novos na travessia da fé. “Vim para que tenham vida e vida em abundância” (João 10,10).

. Mauro Passos é padre, professor e pesquisador do Centro de Estudos da Religião Pierre Sanchis da UFMG. Claudio Guerra é engenheiro ambiental.

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