Livro estuda a presença de São Miguel e almas do purgatório na iconografia mineira do século 18

Publicação foi escrita pela especialista em barroco e arte sacra Adalgisa Arantes Campos

por Ângela Faria 22/02/2014 00:13
Reprodução internet
(foto: Reprodução internet)
Nas ruas, caveiras enfeitam camisetas. Nos palcos, bandas de rock gótico celebram o romantismo macabro. Frequentemente, somos tomados por vago terror diante de cruzes fincadas às margens de nossas perigosas estradas. Em pleno século 21, almas penadas não metem medo apenas nas crianças: a bordo de iPads e smartphones, o cidadão high tech carrega a herança do imaginário da Idade Média. A morte e seus mistérios inquietam – desde sempre – a humanidade.

Respeitada especialista em barroco e arte sacra, Adalgisa Arantes Campos, professora do Departamento de História da UFMG, vasculhou o universo das irmandades de São Miguel em seu novo livro, mostrando como se criaram cultos às almas do purgatório no Brasil, sobretudo na Minas colonial. Nesse profundo mergulho na mentalidade católica, Adalgisa não deixa de conduzir o leitor por algo que, de alguma forma, soa familiar.

Miguel lutou contra Lúcifer e o expulsou do céu. Herói do combate entre o bem e o mal, o arcanjo se tornou titular de cemitérios, capelas funerárias e santuários. Nas Minas Gerais setecentistas, um novo mundo foi forjado durante o Ciclo do Ouro. Fortunas geradas nas lavras, instabilidade social, revoltas contra a voracidade fiscal da coroa portuguesa e a violência marcaram aquelas vilas. São Miguel era uma espécie de padrinho de almas fadadas ao purgatório, esperançosas de escapar da condenação final. Era “juiz” das culpas de homens que trocaram a virtude pela avareza e a ganância.

Adalgisa Campos explica detalhadamente as transformações da iconografia miguelina. À espada e às palmas do santo se incorporaram a cruz – remetendo à Paixão de Cristo – e a balança, símbolo da avaliação das almas de justos ou pecadores. Elas ainda “penam” em antigas igrejas de Monsenhor Horta, São João del-Rei, Cachoeira do Campo e Ouro Preto, enfeitando mesas de altar, medalhões e retábulos.

Não há biboca mineira sem o seu cruzeiro. Mais que herança da Antiguidade – proteção de povoados ou indício de morte violenta –, a cruz das almas convoca ao respeito e à prece. Por outro lado, a bacia das almas existiu mesmo: é antigo símbolo de caridade. Diferentemente das irmandades ocupadas em rezar pela salvação apenas de confrades ou doadores abonados, devotos do Glorioso São Miguel encomendavam missas mais “democráticas”. Pediam por defuntos em geral e, para financiar os cultos, recolhiam esmolas nas famosas bacias.

Marcantes tanto na iconografia católica quanto em imagens contemporâneas, esqueletos, crânios e tíbias cruzadas remetiam à sabedoria, à transitoriedade da vida. Em 1735, a Freguesia do Pilar, em Vila Rica, foi testemunha de uma Procissão dos Ossos que ficou na história: o cortejo se iniciou dentro da matriz, recolheu esqueletos no cemitério e percorreu as ruas com seus esquifes. Em 1781, em São João del-Rei, procissões levavam bandejas com caveiras e cinzas. O marketing do macabro é certeiro: a lição da transitoriedade está ali, bem debaixo da janela do pecador.

Em Ouro Preto, pode-se visitar a bela capela destinada a São Miguel, cuja singular portada traz a representação do purgatório. “Essa grande obra materializa e documenta, em pedra-sabão, o culto às almas”, destaca Adalgisa Campos. Erguida em 1778, ela atravessou 235 anos, mas a devoção à Paixão de Cristo “derrotou” as almas. Chegaram imagens do Senhor do Sepulcro, do Senhor do Bom Jesus, de Nossa Senhora das Dores e de São João Evangelista, além da via-crúcis encomendada a Manoel da Costa Ataíde. Coube ao Glorioso Arcanjo se resignar: virou inquilino de seu próprio templo – hoje, mais conhecido como Igreja de Bom Jesus do Matosinhos. Na matriz de Santa Bárbara, Miguel teve também de ceder sua tribuna para São Francisco da Penitência....

Mais que perder devotos, o arcanjo se vê diante de um pecado mortal, banalizado neste século consumista. Adalgisa Campos denuncia: “Imagens antigas de São Miguel, das requintadas às populares, vêm sendo deslocadas para museus e, por meio de roubos vergonhosos e transações ilícitas, para coleções particulares”. Alvo de comerciantes, o enorme acervo setecentista vai se pulverizando. Na bacia das almas.


Lançamento

AS IRMANDADES DE SÃO MIGUEL E AS ALMAS DO PURGATÓRIO
De Adalgisa Arantes Campos
Editora C/Arte, 248 páginas

PAISAGEM SONORA DE VILA RICA
De Fábio Henrique Viana
Editora C/Arte, 232 páginas
• Museu Mineiro, Avenida João Pinheiro, 342, Funcionários. Informações: (31) 3491-2001. Os autores farão palestra hoje, das 9h às 11h, e autografarão livros das 11h às 13h.

MAIS SOBRE PENSAR