Um cara e tanto

Biografia e documentário cinematográfico sobre Salinger, autor de O apanhador no campo de centeio, mergulham em um dos mais persistentes mitos literários do século 20, com revelações bombásticas

por 18/01/2014 00:13
Antony Di Gesu/ Intríseca/Reprodução
Antony Di Gesu/ Intríseca/Reprodução (foto: Antony Di Gesu/ Intríseca/Reprodução)
João Paulo

 

J. D. Salinger não tem sossego. O escritor americano, nascido em 1919, fez de tudo para se fingir de morto em vida, até ser enterrado de vez em 2010, aos 91 anos. Mas não lhe deram descanso. Chega hoje às livrarias brasileiras mais uma biografia do autor de O apanhador no campo de centeio, um dos romances mais lidos do século 20. O livro Salinger, de David Shields e Shane Salerno (Editora Intrínseca), faz par com o documentário de mesmo nome, dirigido por Salerno (roteirista de Alien versus Predador e Armageddon), que estreia no Brasil em 14 de fevereiro. Está aberta a temporada Salinger.

A biografia chega embalada com promessas de revelações pessoais e literárias. Além disso, se apresenta como a mais ampla pesquisa sobre o autor, com depoimentos e entrevistas de mais de 200 pessoas, sem contar a recuperação cuidadosa da bibliografia sobre o criador da família Glass. Em outras palavras, Salinger seria uma espécie de obra definitiva, capaz de esclarecer os enigmas em torno de um dos maiores mitos literários do século 20. Sem querer desanimar o leitor, o livro passa longe disso.

A existência e a criação artística de Salinger são dignas do mito. O autor, depois de se firmar como contista de revistas de prestígio, sobretudo a The New Yorker, lança em 1951 um romance que marcaria época, O apanhador no campo de centeio. A ele se seguiriam apenas mais três livros, de contos e novelas, tendo como personagens integrantes da família Glass: Nove estórias; Para cima com a viga moçada e Seymour, uma introdução; e Franny e Zooey. Em 1965, Salinger publica seu último conto, “Hapworth 16, 1924”, retira-se para uma fazenda em Cornish, não faz mais aparições públicas nem dá entrevistas ou se deixa fotografar de livre e espontânea vontade – é claro que os paparazzi não perdoaram.

ara dar ainda mais molho ao mistério, as obras de Salinger exibem um misto de coloquialismo e senso de mistério, cotidiano e metafísica, infância intocada e maturidade, dissecação do mundo material e recolhimento no espírito. Como seu adolescente Holden Caulfield, que não encontra seu lugar no mundo, os leitores de Salinger parecem ter descoberto um parceiro profundo para seu desajustamento. Ele recusa o mundo material para afirmar um universo diferente, melhor e menos conspurcado. Sua sabedoria, nutrida em filosofia oriental e na mística do Ocidente, se revela nas coisas mais singelas. Além disso, com uma voz literária única, fica sempre a um passo do virtuosismo, que ele sabiamente desmancha com uma sinceridade tocante, embora vicária.

Shields e Salerno não chegam ao campo de centeio sem predecessores. Outros autores, melhor dotados que eles em matéria de literatura e historiografia, já haviam se debruçado sobre a vida de Salinger, entre eles Peter Alexander, Ian Hamilton e, mais recentemente, Kenneth Slawenski. O que o novo projeto traz, infelizmente, é certo senso mecanicista de ligar vida e obra. Sem sutileza ou respeito às inconstâncias do sujeito em sua vida psíquica, os biógrafos parecem ler a obra de Salinger pela chave de sua vida. A causa B. Por isso, em vez da síntese trabalhada, que é o que se espera de uma boa biografia, eles se esmeram na coleção de informações e no mero jogo da livre associação.

O método dos autores é o da justaposição. Assim, depois de definidos os parâmetros de julgamento, eles dividem a obra em capítulos que nada mais são que a colagem dos depoimentos dos tais 200 entrevistados, intercalados com reflexões e transcrições de outras obras sobre Salinger, num amplo tabuleiro autorizado de citações justificadoras e, na maioria das vezes, descontextualizadas. Em poucas palavras, o trabalho fica em grande parte para o leitor, que precisa ainda se familiarizar com as dezenas de vozes, inclusive hierarquizar sua importância para dar a elas o peso devido.

Um dos grandes atrativos do livro são as fotografias, cerca de 180, com imagens inéditas de Salinger, de sua família, namoradas e companheiras, além de personagens e episódios importantes em sua vida. Como o escritor foi sempre excessivamente cioso de sua privacidade, as imagens, além de dar mais naturalidade ao homem Salinger, revelam um tipo charmoso, sempre cuidadoso na forma de se vestir, em poses ensaiadas e com o eterno cigarro entre os dedos. Quase um galã bonitão, um dos tipos que ele mais escarnece em suas histórias.

GUERRA E RELIGIÃO A tese dos autores é que a Segunda Guerra destruiu o homem Salinger e deu origem ao artista. Em seguida, a religião vedanta salvou o homem para dar cabo do artista. Entre os dois polos, a guerra e a religião, a vida e obra do escritor foi sendo tecida em meio à solidão, sofrimento e poucos momentos de redenção. A primeira parte da biografia põe Salinger no teatro da guerra, onde servia como agente de contrainformação, em meio a muitas mortes e destruição. Sem deixar nunca de escrever, o jovem e sofisticado Jerome David acaba tendo um colapso nervoso grave, é internado e volta outro para seu país.

A partir daí, os biógrafos seguem a vida do homem e do artista, sempre com o senso determinista. Assim, entra em cena a paixão por Oona O’Neill, a linda jovem, filha do dramaturgo Eugene O’Neill, que deixará Salinger para se casar com Charles Chaplin, muito mais velho que ela, com quem teria oito filhos e viveria até a morte do marido. Salinger, para seus biógrafos, teria adquirido uma fixação em moças jovens, que o atrairiam e em seguida ele se apressaria em abandonar, para se antecipar à rejeição que poderia vir a sofrer. As sucessivas paixões por adolescentes teriam sido todas elas heranças do trauma causado por Oona.

Sempre em busca de certo sensacionalismo que brote da vida – Shields e Salerno certamente não são analistas literários muito refinados – os autores anunciam então a raiz biológica do comportamento evasivo do escritor: uma anomalia anatômica. De acordo com os autores (a partir de depoimentos confirmados por duas mulheres que conheceram o escritor intimamente), Salinger tinha apenas um testículo. O exagero dos autores é dar a um fato pouco traumático o condão de explicar o comportamento esquisitão de Salinger, que teria se retirado do mundo para evitar que as pessoas soubessem que um de seus testículos não teria descido.

Os autores tinham em mãos um personagem e tanto, complexo, às vezes genial, identificado com milhões de jovens (só O apanhador no campo de centeio vendeu 65 milhões de exemplares e segue com quase 1 milhão por ano até nossos dias), atravessando um período de grandes transformações na sociedade americana e de transformação na arte literária. Sem esquecer que ele colaborou para todas essas mudanças, na cultura e no comportamento. Para completar, ao se isolar por 55 anos, Salinger criou um modelo anticelebridade que destoa do cenário contemporâneo, que o torna ainda mais atraente.


Salinger
De David Shields e Shane Salerno
Editora Intrínseca, 704 páginas, R$ 49,90

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