O Rio de Janeiro é cenário de dois livros de fotos, um em preto e branco e outro em infravermelho

Artistas propõem novos ângulos e estéticas sobre a cidade, que ainda é capaz de surpreender

por Ângela Faria 11/01/2014 00:13
Renan Cepeda/divulgação
Fotografia infravermelha de Renan Cepeda conduz a viagens oníricas pelo Rio de Janeiro (foto: Renan Cepeda/divulgação)
A luz é soberana em 'Rio pictoresco', de Cesar Barreto, e 'Rio infravermelho', de Renan Cepeda. Os dois fotógrafos vencem – com louvor – o desafio de reinventar a Cidade Maravilhosa, musa (e objeto de desejo) de tantos colegas. Pão de Açúcar, Ipanema, Copacabana, Cristo Redentor, Jardim Botânico, Aterro do Flamengo e outros cartões-postais cariocas ressurgem sob estéticas diferentes, mas convergindo para deslumbrantes paisagens do olhar.


Morador da Urca, o carioca Cesar Barreto, de 55 anos, honra a tradição de paisagistas do Rio de Janeiro: é discípulo de Victor Frond (o título remete a seu Brazil pittoresco), Marc Ferrez e Augusto Malta, entre outros fotógrafos que nos deixaram imagens da cidade nos anos 1800 e início dos 1900. Com quase quatro décadas de ofício, “rato” de laboratório, adepto de câmeras de grande formato (a tralha pode somar 20kg, devidamente carregados no “lombo”), ele é defensor do mágico quarto escuro de revelação, mesmo nestes tempos digitais. Mas Barreto, homem do século 21, brinda os “tempos modernos” quando se trata de processar imagens para impressão gráfica.

Fotógrafo, curador e autor da introdução de Rio pictoresco, Pedro Kapp Vasquez avisa: “mestre contemporâneo da fotografia brasileira”, Cesar Barreto é dono de algumas das mais belas nuvens registradas no mundo.

Rio pictoresco é poesia em branco e preto. Prédios, espuma das ondas, morros monumentais e até minúsculos barcos ou pranchas de surfistas compõem paisagens construídas de luz, contraluz e sombra. As nuvens merecem batismo, sim: são nuvens barretianas. Nadador, Cesar nos oferece imagens inusitadas da megaexplorada paisagem carioca – várias delas vêm “de dentro” do mar. Além disso, ele recria a arrasadora skyline do Rio de Janeiro vista de Niterói.

Folheando as 118 páginas do livro, a gente até se esquece do azul do céu e do mar, do verde das montanhas, dos tons dourados do pôr do sol. Cor para quê? – e olhe que estamos falando de Rio de Janeiro...

Onírico

Por sua vez, Renan Cepeda, de 47, usa as cores para subverter a nossa maneira de “decodificar” o Rio de Janeiro – “uma cidade feia encravada num dos mais belos sítios do mundo”, segundo ele. Sua fotografia infravermelha inventa paisagens oníricas – e reais. Renan não manipula imagens. Sabe captar outras luzes: invisíveis para nós, mas poeticamente concretas.

A Pedra da Catacumba, vista da Lagoa Rodrigo de Freitas, mais parece uma pintura em tom laranja e azul. Pão de Açúcar e o Parque do Flamengo ganham cores e ângulos surpreendentes, para não dizer inacreditáveis. O azul do Corcovado, o contraste da curva do Aterro do Flamengo com o mar, a skyline do Rio de Janeiro a partir de Niterói – cadê a “cidade feia”?

Cepeda revela portais para outra dimensão, observa o jornalista Artur Dapieve em texto escrito para Rio infravermelho. E o faz tanto em cores quanto em preto e branco. O cineasta Carlos Saldanha, diretor da animação Rio e responsável pela trilogia A era do gelo, ressalta que o fotógrafo descobre perspectivas impossíveis dentro de um cenário familiar.

Se há nuvens barretianas, há também montanhas cepedianas. O Cristo Redentor é testemunha disso. “Devassado” de todos os ângulos por craques das lentes, o Corcovado ganha retrato impressionantemente autoral sob o radar de Cepeda.

Sim, é possível reinventar a Cidade Maravilhosa. Renan Cepeda se propõe a revelar uma cidade invisível em sua busca pela luz invisível. Cesar Barreto, com sua fotografia clássica, dispensa as cores para nos oferecer um Rio de luz.

RIO PICTORESCO

. De Cesar Barreto
. Editora Casa da Palavra, 118 páginas, R$ 120

RIO INFRAVERMELHO

. De Renan Cepeda
. Editora Casa da Palavra, 138 páginas, R$ 95




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