A turma da Savassi

por 04/01/2014 00:13
Arquivo EM
Arquivo EM (foto: Arquivo EM)
Ângela Faria

 

Roberto Drummond (1933-2002) fez de BH uma das musas de sua literatura pop. Hilda Furacão que o diga: o romance sobre a moça bem-nascida que trocou os bailes comportados e os salões do Minas Tênis Clube pela zona boêmia da Rua Guaicurus virou minissérie da Globo e faz sucesso até hoje. Onze anos depois de sua morte, Roberto continua a alimentar o mito da cidade-cenário de mistérios (e escândalos) por trás de cristaleiras da tradicional família mineira. Romance recém-lançado por Vladimir Kotilevsky, O cão (Editora Scriptum) é dedicado ao autor de Hilda Furacão. A história policial se passa nas ruas da Savassi e redondezas. Tem como cenário edifícios, bares, restaurantes e, sobretudo, aquele clima de point cult – cujo charme, hoje em dia, vai se esvaindo enquanto se multiplicam as placas de “passa-se o ponto”.

Kotilevsky conduz o leitor por uma trama que envolve drogas, assassinatos e Inconfidência Mineira. Seu protagonista é daquelas carimbadas figuras “savassianas”: um boa-vida meio “quebrado”, embora orgulhoso da cadeira Vassily de sua sala e do carro importado. Chegado num bom uísque e às voltas com o passado e o casamento desfeito, temos aqui um ex-cientista e ex-dono de barraca de praia no Sul da Bahia. Ex-“vapor”, o escolado Sherlock das Gerais sabe que a mítica Ipanema e seus cheiradores de cocaína levaram a fama, mas a Savassi também “brilha” à noite – e o branco não vem das luzes do outdoor...

Transitando entre gente do society e o submundo, o protagonista de O cão fareja pistas ao ser contratado para investigar um possível adultério. Vê-se obrigado a decifrar códigos do mundinho emergente que conhece tão bem. Um copeiro de madame dá plantão como cantora de boate gay; o famoso advogado, travado de pó, não perde a pose; infidelidades conjugais se resolvem em clínicas de aborto do Barro Preto; festas de arromba em mansões no Mangabeiras. Quando um casal é assassinado num prédio da Rua Pium-í, a coisa se complica. O edifício está lá, assim como são reais vários cenários de O cão. Até antigos outdoors, anunciando Mate-Couro e a Toulon, soam familiares a quem transitava pelo pedaço há alguns anos.

A história é policial, segue a tradição noir, mas não deixa de trazer certa crônica social de BH, com a Zona Sul e seu “apartheid” – explícito não em palavras, mas em pequenos gestos, olhares até. A tal turma da Savassi não se mistura, apenas se resigna a conviver com a “invasão dos bárbaros” – leia-se, gente vinda do Padre Eustáquio, do Barreiro, de Betim e do Bairro Planalto que frequenta seu território. “A Savassi é má”, resume o anti-herói de O cão.

A trama “vintage” não tem iPads, smartphones, raves, ecstasy e baratos afins. O Hotel Del Rey ainda funcionava, o protagonista fala de Sausalito e Buffet Ângela, redutos oitentistas da night de Belô. Volta e meia, Kotilevsky põe versos de Cazuza na jogada. O Bar do Lulu – palco de mil e uma histórias que viraram folclore – é cenário de conversas de nosso detetive, frequentador assíduo do finado Café Ideal. Promoter de fachada e vendedor de drogas, o personagem Toninho Playboy pilota um Gol GTS vermelho.

Aliás, vem também do passado uma boa sacada de Vladimir Kotilevsky: entrelaçar os misteriosos assassinatos da Pium-í ao drama de personagens históricos que batizam ruas que cortam aquela região de BH. Cláudio Manuel da Costa, por exemplo, faz parte dessa história. O autor, que pesquisou a Inconfidência Mineira e seus Autos da Devassa, usa a polêmica morte do poeta para intrigar seu leitor. Alguns capítulos descrevem as últimas horas do autor de Vila Rica na prisão – até hoje não se sabe com certeza se Cláudio se matou ou se foi assassinado por poderosos ligados à corte portuguesa, temerosos em ver descobertas suas ligações com Tiradentes.

Não vale estragar a surpresa, mas dá para contar que Ouro Preto, sua gente e seus preconceitos, além de recalques tão caros à “Minas profunda”, servem de matéria-prima para Kotilevsky. Lendas e fatos temperam a trama de O cão. Aliás, assim fez Roberto Drummond em várias de suas histórias: graças a ele, muita gente jura ter compartilhado experiências com a libertária Hilda Furacão...

Nascido em 1962, em Moscou, e radicado em Belo Horizonte, Vladimir Kotilevsky se formou em ciências biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais e é cônsul honorário da Rússia na capital mineira. Aos 12 anos, mostrou seu primeiro conto a Roberto Drummond, já escritor famoso. Unidos pela Savassi, mestre e pupilo têm por gosto arquitetar inconfidências.

Não vem de hoje o fascínio que mora na zona de sombra entre a realidade e a ficção. Que o diga Roberto: transformado em estátua, há quem converse com ele, enquanto outros vêm de longe só para tirar uma foto a seu lado. Graças à literatura, o “biógrafo” de Hilda Furacão continua flanando por sua querida Savassi – agora, ao lado do detetive inventado por Vladimir Kotilevsky.


O CÃO
. De Vladimir Kotilevsky
. Editora Scriptum, 265 páginas, R$ 45

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