Sérgio Medeiros estreia com o livro de poesia 'Os quartos da casa'

Livro mescla versos de inspiração política com elementos do cotidiano

por Carlos Herculano Lopes 14/12/2013 00:13
Leandro Couri/EM/D.A Press
(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Funcionário público aposentado, mas sobretudo poeta, Sérgio C. Medeiros, ao contrário de iniciantes ansiosos, não teve nenhuma pressa para publicar o seu primeiro livro. Com o passar dos anos, foi ruminando palavras, transformando-as em versos, até ver que estava na hora de mostrar seu trabalho.

Mas como fazê-lo, se alguém soprou aos seus ouvidos que as editoras, de uns tempos para cá, estão se recusando a publicar poesia, ou pelo menos a produzida por autores desconhecidos? Sem se dar ao luxo de procurá-las, por achar que poderia ser tempo perdido, não pensou duas vezes: reuniu algumas economias, selecionou os textos e, por conta própria, lançou recentemente Os quartos da casa.

A princípio, como confessa o autor, o nome original do livro seria Os nove quartos da casa, mas com a evolução da escrita foram surgindo “outros cômodos” e os quartos chegaram a 11. Mas com um detalhe: um deles é vazio, como costuma ser a própria vida. Os outros, em compensação, estão recheados de poesia, que trazem o olhar sobre o mundo e as coisas que o rodeiam. São: O quarto da construção, O quarto dos elementos, O quarto de Solange, O quarto da minha namorada, O quarto do povo, entre outros.

Um dos melhores momentos do livro, onde o texto brilha com mais intensidade, está em O quarto de Sandino, no qual Sérgio Medeiros faz evocações ao líder político e guerrilheiro nicaraguense Augusto César Sandino, em cujo nome e ideologia alguns de seus conterrâneos se inspiraram para criar a Frente Sandinista de Libertação Nacional. No fim da década de 1970, muitos anos depois da morte do general, eles conseguiram libertar a Nicarágua das garras da sangrenta ditadura dos Somozas. “Não tenho intenção de mando/sendo general civil/ feito em preito pela luta/ na coronha do fuzil/ luto pelas garantias/ liberdade que se digna/ na terra onde se nasce/ é que deve ter-se a vida”, escreveu o poeta.

Nascido em Virgolândia, no Vale do Rio Doce, e vivendo em Belo Horizonte desde 1975, Medeiros, que é formado em letras pela UFMG, conta ter publicado seus primeiros poemas na universidade, na Revista literária, na época editada pelos professores Plínio Carneiro e Ronald Claver. “Aquela foi uma publicação importante para os escritores da minha geração. Cheguei a ser premiado algumas vezes nos concursos literários promovidos pela revista e eles me deram ânimo para não parar de escrever”, diz.

Inéditos

eitor contumaz de Fernando Pessoa, Cecília Meireles e João Cabral de Melo Neto, para ele um dos poetas mais completos do Brasil, “principalmente pelo rigor técnico e sensibilidade apurada”, Sérgio Medeiros confessa ter mais dois livros inéditos de poemas já prontos para a edição: Pedra de Minas, cuja temática gira em torno da Inconfidência Mineira, e Pedra sabão, no qual enfoca a obra de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Em paralelo, trabalha também em outro texto, com o nome ainda provisório de Três barras, conhecidas em Minas como barra de ouro, barra de rio e barra da saia, em torno das quais, segundo o poeta, os maiores desmandos costumam ser cometidos por estas terras.

Entusiasmado com o trabalho de Sérgio Medeiros, que acompanha há anos, desde os tempos da UFMG, o poeta e professor de literatura Ronald Claver afirma no prefácio que em Os quartos da casa estão concentrados vários livros em um só. “Os primeiros quartos são medidos, cabralinos, exatos. À medida que entramos nos outros quartos, a poesia de Sérgio torna-se mais cotidiana, mais lírica, mais dócil. Mas em momento algum faz concessão. O rigor e a arquitetura da linguagem continuam intactos”, atesta Claver.

Os quartos da casa

. De Sérgio C. Medeiros
. Editora Ophicina de Arte & Prosa, 252 páginas.
. Informações: sergiocmedeiros@yahoo.com.br

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