Montagem da Cia. Luna Lunera, 'Prazer' apresenta personagens que vivem o presente inevitável

Espetáculo retrata angústias e busca de satisfação frente à inevitabilidade da morte

30/11/2013 00:13
Adriano Bastos/Divulgação
(foto: Adriano Bastos/Divulgação)
Douglas Alves Júnior


Há um fragmento da Dialética do esclarecimento, de Adorno e Horkheimer, chamado “Marcados”. Ele se encontra na parte final da obra, na seção “Notas e esboços”. Transcrevo-o integralmente:

“Ao atingir a década dos 40 anos, as pessoas costumam fazer uma estranha experiência. Elas descobrem que a maioria das pessoas com que cresceram e mantiveram contatos começa a demonstrar distúrbios em seus costumes e em sua consciência. Um torna-se tão negligente em seu trabalho que seus negócios começam a periclitar, outro destrói o casamento sem a menor culpa da mulher, um terceiro vem a cometer desfalques. Mas também os que não passaram por acontecimentos marcantes apresentam indícios de decomposição. A conversação com eles torna-se insípida, fanfarrona, desconexa. Outrora, o quarentão ainda recebia dos outros um élan intelectual, mas agora ele tem a impressão de ser quase o único a demonstrar espontaneamente um interesse objetivo.

A princípio, ele se inclina a considerar a evolução das pessoas de sua idade como um infeliz acaso. Justamente eles mudaram para pior. Talvez isso tenha a ver com a geração e seu destino exterior particular. Finalmente, descobre que essa experiência é familiar, só que numa perspectiva diferente: a da juventude frente aos adultos. Pois ele não se convencera então de que algo não estava certo com este ou aquele professor do colégio, com os tios e as tias, os amigos dos pais e depois com os professores da universidade ou com o mestre dos aprendizes! Seja porque exibiam algum traço maluco e ridículo, seja porque sua presença era particularmente maçante, incômoda, decepcionante.

Nessa época, ele não pensava nisso, aceitava a inferioridade dos adultos como um simples fato natural. Agora, ele tem a confirmação disso: nas condições atuais, o simples transcurso da vida, ainda que se conservem certas habilidades técnicas ou intelectuais, é suficiente para levar, já na força da idade, ao cretinismo. Nem mesmo as pessoas experimentadas no trato dos homens e das coisas estão excluídas. É como se as pessoas, como castigo de terem traído as esperanças de sua juventude e terem se ajustado ao mundo, fossem marcadas por uma precoce decadência (tradução de Guido de Almeida)

Acredito que Prazer, peça da Cia. Luna Lunera, retrata um momento antes desta condição, quando as “máscaras sociais” – para usar uma expressão que é dita na peça – ainda não se fixaram, com toda a “cretinice” que isso traz – como o texto acima descreve. Se essa suposição estiver certa, trata-se de expor a experiência, ainda rica de potencialidades, da hesitação entre aceitar o peso do “aqui e agora”, com toda a gravidade (o confronto com a morte, a solidão) e a graça (a alegria dos encontros) que ele traz, por um lado, e, como outra opção, fugir para outra dimensão do tempo, seja o paraíso perdido da infância, seja a morte – imitando o gesto do peixe que, de repente, pula do aquário.

É por isso que as personagens de Prazer são intensas, animadas por uma força que, a cada instante corre o risco de se esvair e que, por isso mesmo, impõe o movimento e a ânsia. É por isso, também, que a dança ocupa um sentido importante na peça. Ela surge em momentos – como também as ocasiões em que os amigos se reúnem para comer – em que um pacto entre a gravidade e a graça é conseguido, e se torna possível habitar o presente. Uma ação com o outro e para além das palavras, que retoma o banho de mangueira da infância.

A morte e mais ainda o medo da morte são o baixo-contínuo de Prazer. Trata-se da luta do prazer contra a morte. Todos sabem que, no final, a morte vencerá. Ela não precisa vencer antes da hora, é disso que se trata. A morte que vence antes do tempo é a morte em vida, e seu representante maior, o “medo que esteriliza os abraços”, como disse uma vez Drummond. Por que “prazer” e não “angústia” como nome da peça? Quero chamar de angústia a condição humana fundamental de fragilidade diante do corpo, da dúvida face ao sentido dos próprios projetos de vida e da incerteza quanto aos afetos dos outros.

As crianças, os jovens, os idosos, todos sentem angústia.

Em uma cultura em que o prazer se tornou uma obrigação, a angústia não é bem-vinda.

Segundo essa visão de mundo, ninguém deveria se mostrar triste. Seria um desperdício de tempo, seria um desperdício de prazer.

Porém... como lembra o subtítulo de um filme de Fassbinder, “a felicidade nem sempre é divertida”.

A graça é inseparável da gravidade. A dança é a expressão visível disso.

A repressão social da angústia e da tristeza gera nas pessoas obrigadas a se mostrarem sempre felizes uma infelicidade adicional, que talvez seja mais dura hoje em dia do que em qualquer outra época.

Os personagens de Prazer parecem existir no momento presente (ou muito recente) da nossa história, um tempo que veio depois do tempo em que quase tudo no país era visivelmente muito infeliz e as pessoas não precisavam esconder isso de si mesmas e dos outros. Eles espelham a dificuldade do momento presente, em que as infelicidades se acumulam de um modo difuso, se espalham, mas são entendidas como defeito individual ou circunstância disfuncional a ser resolvida tecnicamente (com remédios, ou com mais prisões) e desligadas da corrente da vida.

Talvez a aposta do título por Prazer e não Angústia seja porque a vida é “disfuncional”, ou melhor, que ela não se esgota na função. E o prazer não se desliga da angústia. A aposta no prazer é uma aposta estética, ética e política. O prazer recusa a obrigação do prazer. O prazer recusa a obrigação de formas de satisfação definidas previamente. O prazer recusa a ordem que se legitima não por ser a mais justa, mas a mais antiga.

Prazer propõe ao espectador um pacto com o presente: não se desligar da corrente da vida. Sentir o gosto, mastigar e comer o medo e a tristeza. Antes que estejamos todos sozinhos, sufocados por poderes estranhos a nós e mortos em vida.

Douglas Garcia Alves Júnior é doutor em filosofia pela UFMG, professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto e autor de Depois de Auschwitz: a questão do anti-semitismo em Theodor W. Adorno.

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