Congonhas passa por profundas transformações sociais, culturais e econômicas

Cidade convive com um processo de descaracterização brutal de seu casario

02/11/2013 00:13
Antônio Maria Reis

Euler Júnior/EM/D.A Press
(foto: Euler Júnior/EM/D.A Press)
Há dois séculos os profetas do Aleijadinho contemplam, lá embaixo, a cidade de Congonhas. Ao fundo, o anfiteatro das montanhas resiste bravamente às frentes de extração de minério de ferro, que vão abastecer o mercado nacional e o de inúmeros países. A natureza bucólica de outrora, com o verde antes intocado cobrindo os montes e as montanhas, vai pouco a pouco dando lugar a uma terra desgastada e estéril, invadida dia e noite pela poeira de minério.

Os profetas que antigamente apenas exultavam o povo ao arrependimento e à equidade, agora, parecem lançar seus olhares severos advertindo a cidade de Congonhas: Quo vadis? Para onde vais? Vencerás a poluição, o avanço impiedoso das máquinas que destroem as campinas, derrubando montes e montanhas? A poesia e a beleza estética do berço natural em que nos colocou o grande Mestre e criador subsistirão para a posteridade ou restarão, em um dado momento de nossa história, apenas uma lembrança deste cenário espetacular, patrimônio da humanidade?

Congonhas passa, atualmente, por profundas transformações sociais, culturais e econômicas. A vida pacata de outrora, em vários aspectos, se altera aceleradamente. O município passou a lutar contra o tempo, tentando adequar sua infraestrutura às crescentes necessidades atuais. Para agravar o problema, calcula-se que quase a metade da população atual, se origina de outras localidades. A maioria não possui laços afetivos, sentimentais e de origens com a cidade.

Congonhas convive ainda com um processo de descaracterização brutal de seu casario. Substituiu-se, gradualmente, o Barroco pela arquitetura contemporânea, tirando do município o seu formato original, quando era visto como um grande presépio a céu aberto. E é neste cenário que ostenta o título de patrimônio mundial. Neste momento, entretanto, em que se lembra o aniversário do bicentenário da morte do grande mestre, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, vale a pena refletir sobre sua passagem por Congonhas, bem como o significado de sua obra grandiosa.

Antônio Francisco Lisboa já estava na casa dos 66 anos, quando foi contratado para esculpir as imagens dos Passos e os profetas do adro da basílica. Vivendo no lugar por quase uma década, já bastante debilitado pela enfermidade que se manifestou aos 47 anos, o artista realizou por aqui sua obra-prima, inspirada nos santuários portugueses do Bom Jesus de Matosinhos e do Bom Jesus de Braga.

Por aqui, do alto da montanha, os profetas do Aleijadinho gesticulam solenes. Numa grandiosidade teatral, apontam e mostram a cidade. Parece que conspiram, que tramam segredos e advertem. Lá embaixo, as pessoas permanecem em seu labor diário. Há sempre um olhar de fé atiçado em direção ao alto do morro Maranhão. Religiosidade, arte e trabalho se mesclam. Se entrelaçam, proporcionando o clima exato da espiritualidade que transpira no entorno da basílica. Realmente, há algo de mágico na colina do santuário do Bom Jesus de Matosinhos. A tocante sensação de paz, que envolve o local, parece resultar de um suave encantamento.

Vozes do tempo

A música que apareceu no período parece ter sido feita para enriquecer e dar voz ao patrimônio. Elemento artístico e cultural da história de nosso estado, a música colonial alcançou o seu apogeu em Minas, na segunda metade do século 18. Sua organização e profissionalização acontecem durante a formação de nossas primeiras vilas e arraiais, e no apogeu do ciclo do ouro. Estima-se que na região mineradora havia 15 mil pessoas dedicando-se às atividades musicais, dentre as quais 5 mil eram profissionais.

As irmandades ligadas à Igreja Católica disputavam entre si o mérito de possuírem magníficas igrejas e de promoverem os mais concorridos eventos religiosos. Este procedimento fazia com que contratassem renomados compositores da época, os melhores músicos, arranjadores e maestros para abrilhantarem os eventos. Era preciso proclamar a fé in hynnis et canticis”(com Hinos e cânticos), fazendo vibrar os espaços das igrejas, do chão até o teto. Dessa maneira, a música entoada nas igrejas no período colonial, acrescentava uma beleza toda especial às cerimônias religiosas.

Entre os mestres normalmente convocados pelas irmandades, destacam-se: Manoel Dias de Oliveira, Marcos Coelho Neto, Padre João de Deus de Castro Lobo, José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita, entre outros. A música colonial mineira, em vários momentos da história de nosso estado, alcançou enorme notoriedade e uma grande beleza. Com o final do ciclo de ouro, as cidades mineradoras se empobreceram, havendo um reflexo natural na música, que passou a ser cantada mais pelo prazer, pelo amor a arte e o desejo de se manter a tradição. Os músicos tiveram que procurar outras atividades. E isto ocorreu em praticamente toda a região histórica do estado.

O trabalho do Coral Cidade dos Profetas surgiu justamente para divulgar este legado musical do passado. Fundado em 1988, por um grupo de pessoas interessadas em aprender o repertório, o coral teve, desde o início, a preocupação em aliar a arte musical à arte arquitetônica barroca, grande patrimônio de Congonhas. Ao se especializar na interpretação de música sacra antiga, notadamente a colonial mineira, o grupo se tornou um dos principais protagonistas da divulgação deste patrimônio. É reconhecido como uma das mais belas manifestações culturais do interior.

O coral participa, rotineiramente, de diversas atividades culturais e religiosas, sempre divulgando a música sacra do período. No dia 9, inicia uma nova série, os Concertos coloniais, em homenagem ao bicentenário da morte de Aleijadinho. A proposta é fazer entoar o repertório colonial para a atual geração e inaugurar uma nova opção turística na região, com a realização mensal de grandes concertos nas igrejas barrocas de Congonhas. De agora em diante, sempre no segundo sábado de cada mês, às 11h, num dos cenários históricos mais belos do país, os sons antigos de Minas estarão de volta.

. Antônio Maria Reis é pesquisador e membro do Coral Cidade dos Profetas.


O Brasil-Colônia nos arquivos históricos de Portugal: roteiro sumário
. De Caio C. Boschi
. Editora Alameda, 254 páginas

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