Tartarugas telepáticas

Braulio Tavares seleciona 40 contos fantásticos e de ficção científica escritos para jornais e lança o livro Histórias para lembrar dormindo

por 28/09/2013 00:13
André Teixeira/AG
André Teixeira/AG (foto: André Teixeira/AG)
Ângela Faria


Histórias para lembrar dormindo (Casa da Palavra) é livro, mas parece festival de curtas. Compositor e escritor, o paraibano Braulio Tavares – colunista do Jornal da Paraíba – reúne 40 contos “amordaçados” aos 3 mil caracteres que a redação lhe exige. Tamanho – aqui – é documento.

Na década de 1970, Braulio Tavares estudou em BH. Foi aluno da antiga Universidade Católica de Minas Gerais, atual PUC Minas, que mantinha sua Escola Superior de Cinema na Avenida Brasil, a um pulo da Praça da Liberdade. O ex-futuro cineasta se transmutou em escritor: nesse Histórias para lembrar dormindo, páginas quase funcionam como tela. Quase se vê a Doralúcia de “O escoteiro e a meretriz”, com sua pose de valquíria disposta a tudo, topar com o virgem Valberto, enquanto os ônibus passam, fluorescentes, sacolejantes. Chica Dondon, “a tal”, a sujeita do Vazante, lembra-nos suaves moças da vida de Fellini – Cabíria brasuca, branca, redonda e cheirando a alfazema.

Nas 173 páginas do livro, divididas nas categorias “matéria-prima” (mais perto do real) e “antimatéria” (acredite se quiser...), há um pouco de tudo. De esposa às raias do desespero quando o marido sai para comprar cigarros na hora do jantar, à viagem filosófico sinistra no enorme táxi preto guiado por Caronte. O resignado passageiro passeia por cenas de seus muitos carnavais, dobra a esquina e se vê em Londres e no Marrocos das lembranças. Desta vez, o condutor de almas o traz de volta para casa. Mas da próxima...

Nesse “festival de contos”, o fantástico não chega, propriamente, a invadir a realidade. Vidrado em ficção científica, Braulio acredita, lá no fundo, que não há como separar uma coisa da outra. E seu leitor-espectador embarca – sem muita resistência. “Grande sertão: the game” traz o novo videogame da Tutamídia para 2034, em que a travessia do Liso do Sussuarão remete a Duna e a Lawrence da Arábia! “Uma decisão polêmica dos designers foi permitir a opção de considerar Diadorim homem ou mulher desde o início, mas, conforme eles declararam, ‘o leitor que quiser ser fiel ao livro tem essa opção’”, registra o bem-humorado “resenhista” sci-fi.

Braulio Tavares conhece bem essa praia: escreveu o ótimo O que é ficção científica, um dos volumes da saudosa coleção da Editora Brasiliense, e se destaca entre autores da literatura fantástica nacional. Seu premiado livro de contos A espinha dorsal da memória (1989) surpreende até hoje. Se na coletânea Contos obscuros de Edgar Allan Poe (2010) selecionou textos do mestre, em Contos fantásticos no labirinto de Borges (2005) o paraibano revela tanto autores que influenciaram o ícone argentino quanto aqueles poderiam ter feito a cabeça dele – de H. G. Wells a Franz Kafka, passando por Ray Bradbury. O pai da psicanálise, claro, não poderia faltar na galeria: em 2007, Tavares mandou para as prateleiras Freud e o estranho: contos fantásticos do inconsciente.

De onde vem tanta imaginação? Uma pista: o moço nasceu em Campina Grande, em 1950. Foi criado no Nordeste – terra de gente fiel às raízes da cultura popular, herdeira do rico legado dos mouros, do mundo mítico da Península Ibérica e do Mediterrâneo. É de Tavares um dos perfis mais bacanas de um senhor desse universo: ABC de Ariano Suassuna, lançado em comemoração aos 80 anos do “paraibano do Recife”, em 2007.

Amendoados Aliás, por falar em perfil, um dos textos mais bonitos de Histórias para lembrar dormindo lembra a “dona do rosto que era mistério de olhos amendoados e malares salientes, cercado por penteados e roupas dos anos 1950”. Surge em “Claríssimo espectro” a mulher de palavras dispersadas em várias direções por um terremoto silencioso. Clarice Lispector, resume Braulio em seus 3 mil caracteres – se é que isso é possível –, criava a loucura como quem cria um cachorro num apartamento. “Aceitava o fato de que crescemos como uma árvore ao contrário, onde cada galho ramifica-se em outros galhos mais grossos, e estes em outros mais grossos ainda. Aceitava o gigantesco desperdício que é viver”.

Clarice bem poderia criar, no seu apê no Leme, as tartarugas telepáticas do novo livro de Braulio. Acompanharia, compreensiva, o sujeito do outro conto planejando se jogar do Empire State (mas só depois de escalar o arranha-céu, tipo Homem-Aranha). Sem se grilar, a dona dos olhos amendoados certamente toparia embarcar em Klax, a instalação pós-modernista capaz de engolir gente, exposta na Bienal de Arte Contemporânea. Não é maluquice à la Oiticica, não. O sci-fi Braulio Tavares explica: tudo é real, graças a fendas no espaço-tempo. Ou seja, a partícula física entra, e sai, quase instantaneamente, noutro local, a milhões de anos-luz...

Daria um curta bacana: Clarice Lispector estrelando Perdidos na Bienal, com trilha sonora de Braulio Tavares e Lenine. O tema, aliás, já está gravado no disco Olho de peixe, do cantautor pernambucano. A letra diz assim: “Estranho!/ Bizarro!/ Tudo isso aconteceu./ Acredite ou não... inesperado!/ Normal só tem você e eu.”

HISTÓRIAS PARA LEMBRAR DORMINDO
• De Braulio Tavares
• Casa da Palavra
• 173 páginas, R$ 35

MAIS SOBRE PENSAR