A dor e a delícia de ser brasileira são temas do último livro de Mary del Priore

Em seu novo livro de ensaios, Mary del Priore convida mulheres e homens para uma boa conversa e defende que está mais do que na hora de aprender com a história e deixar de lado o machismo

por Ângela Faria 14/09/2013 00:13
Bel Pedrosa/Divulgação
Mary não quer saber de 'coitadismo' nem de mulheres que educam os homens como pequenos coronéis (foto: Bel Pedrosa/Divulgação)
Da imperatriz Leopoldina à cantora paraense Gaby Amarantos, do torturante espartilho à ditadura da magreza. Nada escapa a Mary del Priore. A dor e a delícia de ser brasileira são temas do último livro da historiadora, que põe seu ofício no centro de uma franca – e oportuna – conversa não só com as mulheres, mas com homens, GLTBs, simpatizantes e afins.
Com seu texto inteligente, descontraído e acessível, Mary mostra o caminho percorrido pela imbecilitas sexus do Brasil colonial – equiparada pelas leis ibéricas às crianças e aos doentes – rumo ao pós-feminismo do século 21. São 513 anos de história.

Mary del Priore chacoalha zonas de conforto. Lança mão de uma prosa ancorada em muitos anos de pesquisa, simpaticamente embalada em certo quê de revista Cláudia. Ela mesma admite: aprendeu a escrever ao publicar artigos no caderno feminino do jornal O Estado de S. Paulo.

Liberação sexual, pílula, feminismo, conquista do mercado de trabalho e de postos de comando na política, sem dúvida, representam avanço emblemático. Mas há controvérsias: onde, mesmo, foi parar a tão decantada revolução do batom?.

O Brasil bate a marca dos 200 milhões de cidadãos. Desde 2010, o censo demográfico registra que o ex-sexo frágil é maioria no país. Mary del Priore adverte: “Nos últimos 20 anos, um nó de contradições marcou o papel das mulheres na sociedade brasileira. Assim como as desigualdades sociais, as disparidades entre os sexos se acumulam, multiplicando os benefícios deles em detrimento das carências delas”. Em casa, tarefas continuam compartilhadas desigualmente, “embora surjam zonas de negociação como o fogão e as compras”, registra ela.

A historiadora está convicta de que, em tempos de crise, a ameaça de desemprego é maior para as trabalhadoras. “A superioridade feminina é apenas numérica: mais mulheres chefiam famílias monoparentais, aceitam situações de subordinação e correm atrás do modelo de perfeição estética imposto pela mídia”, constata.

É aí que entra Gaby Amarantos e sua crítica ao “coitadismo”. Reclamar, dar-se à melancolia (que tanto atormentou nossa deprimida imperatriz Leopoldina) e pôr sempre a culpa “neles” são hábitos que podem muito bem servir para encobrir contradições. “O problema está em casa”, provoca a historiadora. Mães e esposas reforçam a hierarquização dos sexos em pequenos atos do cotidiano. Não são poucas as que mal disfarçam sentimentos masculinizados, agridem outras mulheres.

Que garoto arruma a sua cama ou lava a louça do almoço? A famosa toalha molhada em cima da cama transcende os maus hábitos. Que, aliás, não são monopólio deles. Mary puxa a orelha de mulheres que incentivam estereótipos sobre a ‘burrice feminina’, daquelas coniventes com a propaganda sexista e com a vulgaridade da mídia. “E não se incomodam que esse modelo encha a cabeça das filhas”, repreende. O “título” de cachorra virou elogio...

Resumindo: as próprias mulheres contribuem – e muito – para a desvalorização grosseira das conquistas femininas. Podem até ser maioria no censo, “mas falta-lhes um projeto, uma agenda que as tire da mesmice e as arranque da apatia”, alerta a autora de Histórias e conversas.... Ela não se furta a esmiuçar as armadilhas do pós-feminismo: “E se, por trás das aparências das liberdades conquistadas, muitas delas graças ao feminismo, novas formas de servidão tenham se imposto?”. Lembra a submissão das liberadas e independentes a regimes drásticos para caber no modelito nº 38, a desfiguração intencional das cirurgias plásticas, que alimenta o lucrativo “body business”, e a recusa em envelhecer.

O “cárcere” – simbólico ou não – ainda está aí. No Brasil colônia, sinhás trancadas na casa-grande e escravas na senzala, quando não na cama do patrão. No século 21, “as ocidentais têm outra prisão: a imagem”, defende a historiadora. “Os homens olham as mulheres. E as mulheres se olham ser olhadas”, alerta Mary, citando a escritora e feminista americana Naomi Wolf, que associa o culto da magreza à perpetuação da obediência feminina.

Cabeça branca A autora de Histórias e conversas de mulher dedica parte de suas páginas ao envelhecimento e denuncia a invisibilidade das idosas. O país das cabeças brancas – cuja população envelhece cada vez mais – não tem política para as avós. Mas elas estão lá: mão de obra preciosa, boa parte encarregada de cuidar e até de criar netos, filhos de pais trabalhadores ou ausentes.
Mary del Priore não joga conversa fora. É do ramo. Autora de 37 livros, publicou História das crianças no Brasil, História das mulheres no Brasil, História do corpo no Brasil, Histórias íntimas (fascinante ensaio sobre nossa sexualidade, de 1500 ao século 21). Estudou figuras importantes como a condessa de Barral, a avançada amante de dom Pedro II, e a marquesa de Santos, o (até hoje) execrado amor de dom Pedro I. Pôs preconceitos no seu devido lugar diante da história, assim como fez com Dilermando de Assis, pivô do trágico triângulo envolvendo o escritor Euclides da Cunha e Ana, sua esposa adúltera.

Atenta observadora tanto do Brasil das alcovas, sobradões e senzalas quanto das academias de ginástica e consultórios de cirurgia plástica, Mary põe a história a serviço das mulheres. Cabe a elas optar entre o “coitadismo” e a independência – de verdade.


HISTÓRIAS E CONVERSAS DE MULHER
• De Mary del Priore
• Editora Planeta
• 312 páginas, R$ 34,90




Vez dos  homens

Mary Del Priori e Marcia Amantino Ao lado de Marcia Amantino, Mary del Priore lança em breve História dos homens, pela Editora Unesp. A obra recria a trajetória do sexo masculino no Brasil a partir de vários ângulos, desde a masculinidade em si até seus estereótipos. As autoras procuram trazer à tona as variações da ideia que se tem do homem brasileiro, como as mudanças frente ao seu papel na família, no trabalho, na paternidade e sexualidade.

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