A escrita e o gesto

Novo livro de Ruth Silviano Brandão surgiu de suas experiências nas redes sociais e do contato íntimo com a pintura. Cores, brilhos e a forma das letras inspiraram a autora

por Carlos Herculano Lopes 17/08/2013 00:13
Jair Amaral/EM/D.A Press
Ruth silviano não planeja escrever ou pintar. Diz que o bom é deixar virem as imagens e as palavras (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
A experiência relativamente nova para Ruth Silviano Brandão como usuária do Facebook foi a porta de entrada para Ventos e sóis alumbram o dia, livro de poesia que ela lança hoje, na Quixote, em BH. De uma hora para a outra – mas não sem certa resistência –, a autora passou a usar com mais assiduidade a rede social. Resolveu começar a escrever pequenos textos em forma de prosa poética no espaço do Face onde aparece esta pergunta: “Em que você está pensando?”.

O resultado, para a surpresa de Ruth, foi muito bom. O retorno veio imediatamente, com muita gente curtindo ou comentando seus escritos. Isso trouxe a oportunidade de diálogo instantâneo com poetas, artistas plásticos, leitores e psicanalistas de todo o país. Ruth passou a discutir os textos publicados a partir do ponto de vista de cada interlocutor.

“A experiência foi fantástica, fiquei animada com essa receptividade quase instantânea. Depois do teste inicial, resolvi usar a maioria dos escritos na primeira parte do meu novo livro”, conta. A segunda parte, “Breve vida no branco”, traz poemas publicados no volume lançado em 1999 pela Editora 2 Luas, de BH, então dirigida pelo escritor Paulinho Assunção.

Sem deixar de fazer incursões pela poesia e dedicada às aulas na Universidade Federal de Minas Gerais, Ruth Silviano Brandão, nos últimos 30 anos, concentrou-se nos ensaios: Lúcio Cardoso, a travessia da escrita, Mulher ao pé da letra e Machado de Assis leitor – Uma viagem à roda de livros (parceria com José Marcos Resende Oliveira) foram lançados pela Editora UFMG. Ultimamente, ela se voltou quase exclusivamente para a poesia e a pintura, outra paixão antiga.

Ruth conta que, se os poemas sempre trouxeram experiência completamente diferente da linguagem discursiva, à qual se dedicou durante anos, a pintura ensinou-lhe a prestar atenção nas cores, no brilho do mundo e no gesto da escrita – outra forma de letra, no sentido psicanalítico.

“A pintura e a escrita são uma forma de conseguir chegar com mais depuração ao elemento mais descarnado da linguagem, que, no caso, é a letra, em seu sentido lacaniano. Ou seja, o ponto necessário da linguagem, que nos amarra e nos livra da loucura”, diz a escritora.

Não é à toa que, cada vez com mais entusiasmo, ela vem frequentando como aluna os ateliês de pintura das professoras e artistas plásticas Selma Weissmann e Sandra Bianchi. Ruth chegou a expor alguns trabalhos em coletiva realizada em Contagem. Agora, começa a planejar novos voos, que futuramente podem se concretizar em sua primeira exposição individual.

A capa de Ventos e sóis alumbram o dia foi criada a partir de um quadro pintado por ela. “Achei que iam usar o trabalho só como detalhe, mas acabaram aproveitando tudo. Fiquei muito feliz”, conclui a poeta.


TRECHOS

“Quando entro no Facebook e leio essa pergunta – em que estás pensando – sinto-me estimulada a escrever. Sempre digo que preciso de um outro para escrever, ler, agir. Ficando só, fico inerte. É assim comigo. Entretanto, me espanta que esta pergunta anônima me produza um efeito de escrita. E fico esperando os retornos, que também me fazem escrever. Estranha maneira de entrar na escrita.”

“A experiência mais impressionante de escrever e/ou pintar é não planejar. Deixar virem imagens ou palavras. No último quadro não havia modelo. A tinta foi tintando sem projeto, sem saber de onde vêm as cores. As manchas vão fazendo imagens ambíguas, sem nitidez, e formam figuras que podem ser vistas de várias maneiras, dependendo do viés, da hora em que são vistas. A pintura surpreende
quem pinta. As cores não obedecem a quem pinta. Elas se misturam. Surgem. Espantam. Tem um sujeito pintando?”

VENTOS E SÓIS ALUMBRAM O DIA

• De Ruth Silviano Brandão
Poemas
Editora 7 Letras, 118 páginas
• Lançamento hoje, das 11h às 14h, na Quixote Livraria e Café, Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi.
• Informações: (31) 3227-3077.

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