Sem fronteiras

por 27/07/2013 00:13
JULIE REMY/MÉDICOS SEM FRONTEIRAS/DIVULGAÇÃO
Mais de 3% das crianças nigerianas menores de 5 anos apresentam desnutrição aguda grave. Na foto, Sani Fridoussi, de 5 meses, é examinada por um pediatra da MSF. Sani está pronta para ser transferida para a primeira fase do programa de desnutrição, após recuperar-se de uma infecção respiratória aguda grave (foto: JULIE REMY/MÉDICOS SEM FRONTEIRAS/DIVULGAÇÃO)

Os médicos que pertencem à ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) atuam em condições muito mais precárias do que as encontradas nos municípios brasileiros mais pobres, onde não há médicos. Eles atendem às pessoas vítimas de guerras, terremotos, enchentes ou mesmo acidentes de grandes proporções, como o recente incêndio ocorrido na Boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. A MSF está presente em 70 países, entre os quais o Brasil, onde mantém uma base para  captação de recursos financeiros e recrutamento de profissionais, cuja remuneração para quem faz o trabalho no exterior (de R$ 2 mil a R$ 3 mil mensais) é inferior à que é paga pelo Programa de Saúde da Família (PSF), do governo federal, da ordem de R$ 10 mil mensais. Até 2009, a instituição desenvolvia projetos de ajuda humanitária no país. Porém, hoje não atua mais em campo aqui porque considera que a situação do país evoluiu e esse trabalho não é mais necessário, como explica Susana de Deus, diretora-executiva da organização no Brasil. "No Brasil, não identificamos mais situações que justificassem nossa presença rotineira", explicou Susana.

Como surgiu a ONG Médicos Sem Fronteiras?

A organização foi criada em 1971 por um grupo de jovens médicos e jornalistas franceses, com o objetivo de levar cuidados de saúde para quem mais precisava, sem discriminação de raça, religião ou convicções políticas. A organização manifesta-se publicamente sobre o sofrimento de seus pacientes, trazendo à luz aspectos de realidades que não podem permanecer negligenciadas. Hoje, a Médicos Sem Fronteiras  trabalha em 70 países, levando cuidados médicos a populações vítimas de desastres naturais, conflitos armados, epidemias, doenças negligenciadas e processos de exclusão do acesso à saúde.

Que projetos vocês desenvolvem no Brasil?

Hoje, mantemos um escritório no Rio de Janeiro, que concentra esforços no recrutamento de profissionais brasileiros e na captação de recursos financeiros para apoiar projetos da Médicos Sem Fronteiras pelo mundo. O escritório trabalha também na informação e sensibilização da sociedade para crises humanitárias internacionais e na representação da organização junto a instituições brasileiras. Atualmente, a Médicos Sem Fronteiras não desenvolve projetos no Brasil, mas está pronta para responder a emergências pontuais, dependendo da avaliação das nossas equipes, como foi o caso das enchentes em Alagoas, em 2010, e na Região Serrana do Rio de Janeiro, em 2011, além do projeto de ajuda aos haitianos em Tabatinga, no Amazonas, realizado entre dezembro de 2011 e fevereiro de 2012. Lá, levamos ajuda humanitária a mais de mil haitianos, além de sensibilizar as autoridades para a urgência da situação.
 
Mas a Médicos Sem Fronteiras já desenvolveu projetos de campo no Brasil?

Sim. Entre 1991 e 2009, nós desenvolvemos projetos que envolveram o combate a uma epidemia de cólera na Amazônia, a oferta de cuidados a pessoas sem acesso a serviços de saúde na Favela de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, e a vítimas da violência no Complexo do Alemão, também no Rio. Desde então, nossa opção foi a de atuar apenas pontualmente.

Por que a decisão de trabalhar apenas pontualmente no Brasil? Teria ocorrido uma melhora da situação brasileira?

Essa decisão veio depois de um estudo bem aprofundado que fizemos das condições brasileiras. Sempre que tomamos uma decisão de nos retirar de um país ou encerrar um determinado projeto, fazemos, antes, uma análise detalhada. Na ocasião, fizemos isso em vários estados brasileiros e concluímos que a situação aqui estava melhorando do ponto de vista da necessidade de fornecimento de ajuda humanitária de caráter emergencial. Nós somos uma organização que trabalha com questões emergenciais. E, no Brasil, não identificamos mais situações que justificassem nossa presença rotineira. Assim, em 2009, fechamos nosso último projeto, no Complexo do Alemão.

Vocês atuaram também no episódio do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

Sim. Isso não significa que não existam situações pontuais. O da Boate Kiss foi uma delas. Se houver necessidade, as portas estão abertas. Mas não é esse mais o foco de nossa intervenção. Em Santa Maria, enviamos uma equipe para atuar no apoio às equipes médicas. Depois, fizemos algumas visitas de monitoramento e vimos que a coisa estava indo bem. Com isso, encerramos aquela intervenção.

Como são definidas as prioridades de atuação da Médicos Sem Fronteiras no mundo?


Antes de enviarmos uma equipe para qualquer país, fazemos um diagnóstico no qual é analisada a capacidade do Estado de intervir naquela situação e identificados quais os outros atores que lá atuam, bem como as reais necessidades da população. O primeiro passo é enviar uma equipe pequena, em geral de duas ou três pessoas, para fazer um levantamento das condições de saúde da população em questão e da ajuda oferecida por outras instituições, organizações ou governos. Com base nesses dados, avaliamos se o nosso trabalho é realmente necessário. Em caso positivo, as informações coletadas são utilizadas para traçar um plano de atuação, que inclui as atividades que serão realizadas, a equipe, os suprimentos médicos necessários, etc. Só depois disso é que tomamos uma decisão quanto a intervir ou não na região. Um detalhe importante: a decisão sobre os locais onde teremos projetos é sempre baseada nas necessidades de saúde da população; não em opiniões políticas, ideológicas ou religiosas quaisquer.

O que mais pesa nessa definição?

O que mais pesa são as necessidades da população e a segurança dos profissionais que para lá vão ser deslocados. A segurança tem um peso grande porque em qualquer projeto que desenvolvemos há toda uma parafernália de segurança envolvida. Temos grande zelo pelos profissionais que enviamos, pois sempre atuamos em situações bastante complicadas do ponto de vista da segurança. Fazemos também uma análise de risco, para que ele seja o menor possível. Nessa análise, levamos também em conta a segurança da população que atendemos. Não vamos colocar nossa estrutura de saúde em um local onde a população, para ter acesso aos nossos serviços, vai se ver em uma situação de perigo. Não fazemos isso. Tudo tem que estar devidamente balanceado, pois queremos que a população também possa chegar em segurança aos locais onde nós vamos atendê-la.

Qual a região prioritária para o MSF hoje no mundo?

Temos hoje uma presença muito grande na África e também no Oriente Médio. Estamos bem espalhados, geograficamente, pelo mundo.

Os problemas para atuar na Síria continuam?

Neste momento, nossa grande preocupação é a Síria. Lá, já são mais de 100 mil os mortos e mais de 1,6 milhão o número de refugiados, além de 6,5 milhões de pessoas que, de uma forma ou de outra, precisam de ajuda humanitária na região.

O Médicos Sem Fronteiras está na Síria desde quando?

Estamos desde junho de 2012, ainda que sem autorização do governo. Atuamos no Norte do país, em regiões sob o controle das forças de oposição. Nossas equipes oferecem cuidados de emergência à população afetada pela guerra. Mas não sem grande esforço logístico e atenção às questões de segurança, pois a atuação da organização deve  beneficiar a população, mas sem atrair à atenção, para que ela também não se torne alvo de violência.

Que tipo de estrutura vocês têm na Síria?

Atualmente, mantemos cinco hospitais na Região Norte da Síria. A região de Idlib, alvo de ataques aéreos por meses, concentra grande número de pessoas em acampamentos para deslocados e é ali que estão localizadas duas das instalações: uma voltada para cuidados de emergência e atendimento a doenças crônicas e infecciosas; e outra que, além das emergências, atende vítimas de queimaduras. Na província de Aleppo, temos uma clínica geral, com sala de emergência, sala de parto, centro cirúrgico e ambulatório. Desde o início de março, a clínica em Al Hasaka trata casos de trauma e oferece serviços pós-operatórios. No distrito de Tal Abyad, uma clínica voltada para saúde primária foi inaugurada em abril. Ali, estamos estruturando também uma clínica pediátrica.

Em outros conflitos, a intervenção da comunidade internacional se deu de forma muito mais rápida. Por que isso não está ocorrendo em relação à Síria?

Acho que a comunidade internacional não está compreendendo bem as necessidades prementes do povo sírio. Não é permitido o acesso ao interior da Síria para que seja prestada ajuda humanitária internacional. É muito difícil entrar lá. Além disso, a comunidade internacional não apoia com fundos (recursos financeiros) para tentar minimizar o sofrimento tanto da população que está na Síria quanto a que está fora, que também é refém da situação.

Quanto a Médicos Sem Fronteiras conseguir até agora para atuar na Síria?

O orçamento de nossas operações na Síria é equivalente, em moeda brasileira, a R$ 116 milhões, dos quais conseguimos angariar R$ 45 milhões. Desse total, R$ 1,5 milhão veio de brasileiros.

Quais são as principais fontes de recursos de vocês?


Nosso trabalho depende quase que exclusivamente de doações privadas. Essa é uma condição fundamental para que possamos garantir a independência de nossa atuação e levar cuidados de saúde às pessoas que mais precisam sem discriminação de raça, religião, nacionalidade ou convicções políticas. Esses princípios – independência, neutralidade e imparcialidade – são fundamentais para o trabalho da nossa organização.

Qual o perfil dos profissionais da Médicos Sem Fronteiras?

As pessoas que atuam têm perfis profissionais bem distintos. Além dos profissionais de saúde, como médicos, enfermeiros, psicólogos, ginecologistas, farmacêuticos, entre outros, temos administradores, economistas e logísticos. Os requisitos básicos para trabalhar na Médicos Sem Fronteiras são: formação superior; dois anos de experiência profissional; domínio de um segundo idioma (inglês e/ou francês) e disponibilidade para trabalhar em outros países por longos períodos.

Quantos brasileiros trabalham hoje em projetos da organização?


Atualmente, cerca de 100 brasileiros.

Como é o processo de seleção?

O processo de recrutamento começa no nosso site. A pessoa interessada em trabalhar com a MSF deve acessar nosso site e responder a um pequeno teste para ver se ela tem um perfil profissional adequado à nossa necessidade. Aquelas que se enquadram no perfil são convidadas a enviar o currículo. Os candidatos selecionados são, então, chamados para uma nova etapa do processo de recrutamento, na qual recebem informações sobre a organização, participam de entrevistas, fazem testes de idiomas e dinâmicas para avaliar seu potencial para trabalhar nas situações em que a organização atua. Todas as pessoas que participam desse processo e não se enquadram no perfil da Médicos Sem Fronteiras, mesmo aquelas que só fazem o teste do site, recebem um retorno da organização, que é importante para que os interessados se preparem e tentem novamente no futuro.

Como é o modo de vida dos profissionais da Médicos Sem Fronteiras?

Nos projetos, eles dividem casas com profissionais de outros países. A questão da alimentação também varia de acordo com o projeto e do país em que os profissionais estejam; muitas vezes, eles comem na própria casa, onde geralmente há alguém para  cozinhar para todos. Eles recebem uma ajuda de custo para se manterem no país e uma remuneração pelo trabalho prestado no período em que estão no projeto.

Qual o valor da remuneração?

A remuneração não é a motivação principal para trabalhar na Médicos Sem Fronteiras. As pessoas que trabalham conosco fazem isso porque querem levar ajuda humanitária a pessoas que sofrem em situações de conflitos, epidemias, etc. Um profissional que vai trabalhar pela primeira vez recebe entre 700 e 1.040 euros por mês (algo em torno de R$ 2 mil a R$ 3 mil mensais, pela cotação da moeda europeia). Além de a remuneração muitas vezes não ser competitiva se comparada com o mercado de trabalho, a escolha por atuar em locais inóspitos, longe de casa e da família, por longos períodos não é fácil. A pessoa tem mesmo que estar interessada em trabalhar com ajuda humanitária para fazer essa opção.

Existe alguma característica que distingue o médico brasileiro dos profissionais de outros países?


Uma característica importante é que a maioria dos profissionais brasileiros tem uma formação muito sólida e com uma grande experiência no atendimento de comunidades, não apenas experiência clínica. O trabalho com comunidades indígenas, rurais e urbanas torna os médicos brasileiros profissionais com um perfil diferenciado e de grande valor, o que é muito importante para a ação da Médicos Sem Fronteiras.

Há pessoas que desistem do trabalho por não suportarem as condições muitas vezes difíceis do lugar?

Há, mas não são muitas. Pode acontecer de o médico ter uma doença na família que deixou no país de origem e ter que regressar. Isso pode acontecer. Se esse profissional não tiver princípios humanitários muito enraizados, ele dificilmente será feliz trabalhando na Médicos Sem Fronteiras. Isso é detectado quando analisamos o currículo dos interessados. A vida desses profissionais, de alguma forma, pode ser considerada dura. Por outro lado, há compensações porque, muito além da satisfação pessoal, um diferencial importante é que, mesmo atuando em locais com grandes dificuldades, damos aos médicos todas as condições de que eles precisam para exercerem suas atividades. Garantimos toda a medicação e equipamentos de que o médico necessita para dar um atendimento de qualidade à população. Por outro lado, esse mesmo médico pode chegar em casa e não ter luz para ler. Por isso, o primado do humanitarismo é o principal.

Médicos Sem Fronteiras em números

» Profissionais no mundo: cerca de 35 mil

» Países onde atua: mais de 70

» Escritórios pelo mundo: 28

» Eixos de atuação: desastres naturais, fome, conflitos, epidemias e combate a doenças negligenciadas

» Doadores no mundo: cerca de 5 milhões

» Doadores no Brasil: cerca de 100 mil

Presença dos brasileiros

» Trabalham com MSF: cerca de 100


Perfil

» Formação: 44% médicos, 37% outros profissionais de saúde e 19% outras formações

» Mulheres: 61%

» Idade média: 38 anos

Doações podem ser feitas pelo site www.msf.org.br ou pelo telefone (21) 2215-8688.

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