Primeiro livro de Mo Yan lançado no Brasil, 'Mudança' sintetiza qualidades do estilo do Nobel de 2012

Autor chinês chegou a ter obra contestada por não se aliar aos dissidentes de seu país

por João Paulo 06/07/2013 06:00
Fredrik Sandberg/Reuters - 9/12/12
(foto: Fredrik Sandberg/Reuters - 9/12/12)
Prêmio Nobel de Literatura, entre outras utilidades (políticas, estéticas, mercadológicas e ideológicas), tem o poder de revelar autores fora dos limites do cânone e até mesmo das literaturas mais prestigiadas. Foi assim em 2012 com a escolha do chinês Mo Yan, mais conhecido pelo filme Sorgo vermelho, de Zhang Ymou, baseado em seu romance. Não havia, até então, nenhum título do romancista traduzido no Brasil.

Além do ineditismo,a premiação de Mo Yan foi seguida de polêmica, vinda em grande parte de colegas de ofício de seu país, como Ai Weiwei e Liao Yiwu, que o acusaram de ligação pouco crítica com as diretrizes do Partido Comunista. A patrulha conquistou outros escritores, como o sempre atento Salman Rushdie, que censurou o comportamento de Mo Yan em não apoiar documentos que pediam a libertação do ativista Liu Xiaobo.

O lado político, sempre importante quando se trata de Nobel, deixou momentaneamente em segundo plano a literatura de Mo Yan, sobretudo pela falta de livros do autor em grande parte das línguas ocidentais. Como a obra não falava à consciência ocidental, ficou em destaque mais o cidadão que o autor. Os poucos que o conheciam faziam questão de celebrar suas qualidade se buscavam referência no americano William Faulkner ou no colombiano Gabriel García Márquez, passando ainda por Dickense até Rabelais. Do primeiro herdaria o experimentalismo, do segundo o realismo mágico,do romancista inglês o senso histórico e do clássico francês o humor tendendo para o grosseiro e escatológico.

Agora a situação começa a mudar para o leitor brasileiro com a edição da primeira obra de Mo Yane português, 'Mudança', com tradução de Amilton Reis. Não se trata de um painel faulkneriano, mas de uma pequena novela, com forte carga autobiográfica. Na verdade, o livro é resultado da encomenda de um editor italiano que,em 2005 (portanto bem antes da consagração do Nobel), pediu ao escritor que refletisse sobre as transformações pelas quais havia passado a China nos últimos 30 anos, no período pós-Revolução Cultural.

O próprio MoYan explica no prefácio que recusou a tarefa no primeiro momento, por julgá-la muito ambiciosa, e só aceitou depois que o editor deu a ele plena liberdade. O escritor parece ter tomado o livro como um compromisso com a memória e deu em troca uma espécie de autobiografia feita de pequenos momentos. Assim como no clássico I Ching, eventos aparentemente singulares e singelos se interligam adiante com propósitos mais amplos. Há uma intercessão entre o particular e universal que desloca a roda da história a cada momento.

REPETIÇÃO
Mudança começa como uma narrativa de juventude que tem personagens jovens como o garoto He Zhiwu e a bela e inatingível Lu Wenli. O que o leitor acompanha nas primeiras páginas é um típico conto escolar, com direito a professores rigorosos (Liu Boca Grande), castigos e perseguições cruéis. No entanto, com sutileza, Mo Yan vai incorporando elementos típicos da cultura de seu país, num contexto rural e obediente às convenções políticas do governo central.

Como a história atravessa três décadas, há momentos em que surge a relação com o Partido Comunista e sua estrutura capaz de se espalhar por todo o tecido social. Assim, ganham as páginas de 'Mudança' a morte de Mao Tsé-Tung e seu legado, a revolução cultural e o Exército, que surge como estratégia privilegiada de mobilidade social para parte da população.

Mo Yan escreve com singeleza, com muitas repetições–o que se torna quase a dicção juvenil de um escritor em busca de expressão própria – e ironia. Há várias referências históricas, que se mesclam a situações banais, como a importância que o caminhão Gaz 51 ganha na narrativa, se tornando um personagem quase humano. Ser motorista, ainda mais de um obsoleto caminhão soviético, é visto como sinal  de prosperidade para os garotos da escola.

A China que o autor dispõe em suas reminiscências é cada vez menos marcada pela ideologia e mais vinculada a certo pragmatismo, com os companheiros de juventude se encaixando em vários lugares sociais, até mesmo o de escritor, que o narrador assume com contido orgulho, quase com o quem se desculpa. E é no jogo entre o individual e o coletivo, num tempo de profundas transformações sociais, que 'Mudança' ganha sua dimensão de obra de arte.

Fica no leitor, além da descoberta de um autor poderoso no tom menor e pessoal, a curiosidade em ler os romances-painéis de Mo Yan. Como assinalam os críticos,mesmo com forte perspectiva histórica que unifica sua obra, o escritor tem mostrado uma técnica própria a cada livro, como se o tema convocasse o estilo. Como definiu Martin Walser: “Mo Yan descreve tudo que é histórico em detalhe sensível, não como declaração, mas como expressão”. Vale um Nobel

A política, sempre

Quando foi anunciado como Nobel de Literatura, Mo Yan surgiu como o primeiro chinês a receber o prêmio. No entanto, como se sabe, em 2000 o Nobel de Literatura havia sido concedido a Gao Xingjian. A razão da dissonância está, mais uma vez, na política. Gao é dissidente e se apresenta como cidadão francês, e, o que é mais importante, não quer ser identificado com o regime de Pequim.

Mo Yan não é apenas chinês como mora na China e foi ligado ao Exército até passar a se dedicar
à literatura, como conta em 'Mudança.'.  Sem ser propriamente um defensor do governo – chegou a ter seu romance 'Peito grande, ancas largas' censurado na China –, sempre se moveu dentro dele. Não fosse assim, dificilmente chegaria a publicar um livro, dado o controle ainda poderoso do governo sobre a produção cultural.

Há sutilezas que precisam ser consideradas na obra dos artistas da geração que começa a divulgar seus trabalhos nos anos 1980. Na China, em processo de abertura, é aceitável certo olhar crítico mais genérico, como a condenação ao patriarcalismo presente na obra de Mo Yan. No entanto, quando se avança para o terreno das transformações políticas, cruza- se uma fronteira perigosa, que tem sido ultrapassada por dissidentes, como o mais conhecido deles,o artista plástico Ai Weiwei.

Não é o caso de Mo Yan, que fala pouco de política e diz mais em seus romances. Curiosamente, o escritor adotou o pseudônimo Mo Yan, que pode ser traduzido como “não fale”. No discurso na Academia Sueca, fez questão de reiterar sua condição de contador de histórias e pediu que ouvissem seus livros, não sua voz.

Talvez por isso, para mostrar certa abertura cultural, o governo chinês tenha se apressado em celebrar o Nobel do romancista, em atitude inversa ao que fez como Nobel da Paz dado a Liu Xiaobo, em 2010, cujo anúncio demorou a ser divulgado no país.

TRECHO DE MUDANÇA

“Fomos primeiro à praça e entramos na fila para tirar uma foto no Portão da Paz Celestial. Depois entramos na fila do Mausoléu do Presidente Mao para prestar nossas reverências. Enquanto contemplava o presidente deitado em seu sarcófago de vidro, lembrei de quanto chegara a notícia de sua morte, dois anos antes. A sensação fora de que o mundo desmoronava e o chão se abria sob nossos pés. Acordamos para o fato de que não há imortais neste mundo. Nem em sonho imaginávamos que o presidente Mao morreria um dia, mas acontecera. Acreditamos, naquele momento, que a morte dele seria o fim da China. Dois anos mais tarde, o país não apenas vivera como melhorava a cada dia.”

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