Ruy Castro lança livro de crônicas em que aparece como personagem principal

Escritor apresenta obra em clima de bate-papo sincero, sem a solenidade das autobiografias tradicionais

por Ângela Faria 15/06/2013 00:13
Fábio Motta/AE
Assim como fez com Carmem Miranda e Nelson Rodrigues, Ruy Castro não esconde o jogo ao falar da própria vida (foto: Fábio Motta/AE)


Morrer de prazer – Crônicas da vida por um fio
não é autobiografia, avisa de cara o jornalista Ruy Castro, autor dos 61 textos reunidos no volume de 184 páginas recém-lançado pela Editora Foz. Memórias em clima de bate-papo no boteco da esquina, o novo livro do mineiro de Caratinga – carioca praticamente honorário – celebra algo precioso: o gosto de botar reparo no mundo. Nisso Ruy é craque, assim como seu ídolo Nelson Rodrigues – outro militante das redações de jornal.

Nelson foi um baita personagem de si mesmo e Ruy Castro não fica muito atrás do mestre. Nos anos 1960, morou no Solar da Fossa, de onde Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Gal Costa e uma penca de gente talentosa decolaram para a história. O repórter experimentou os anos de chumbo, testemunhou o desbunde, bebeu todas – para valer – e parou aos 40, casou-se, descasou-se e encara o século 21, vá lá, um pouco assustado: afinal de contas, a neta Isabel, de apenas 14 anos, já está maior do que o avô. O tempo passou, a vida não é bolinho – Ruy toureou infarto, câncer na garganta, encefalite viral e um desmaio que lhe avariou o ombro. Tudo isso virou crônica.

O livro não é mera compilação dos textos publicados no diário Folha de S. Paulo. Reelaborados pelo autor, eles compõem uma espécie de “confesso que vivi”. A editora Isa Pessoa ajudou a “pautar” essa carinhosa memorabilia. A gente se sente conversando com Ruy numa tarde no Leblon. O Rio de Janeiro, aliás, é onipresente nesse bem-humorado “acerto de contas”. Nosso interlocutor, com suas crônicas da bossa nova, é um dos responsáveis pelo “riocentrismo” da cultura nacional...

Sob as teclas de Ruy, empada não só empada, mas uma vitória contra o câncer; sorvete vira quase epifania (não esses gelatos modernetes inventados por chefs e coisa e tal, mas a tradicional bola de baunilha); cigarro é veneno – mas cinzeiros se transformam em fetiche irresistível; a prosaica pipoca vira um atentado ao cinema, sobretudo quando “exércitos de maxilares em ação” trituram como britadeiras pobres grãos de milho.

O cronista – amparado por sua eterna companheira, a primeira pessoa – tem o requinte de ser voyeur de si próprio: seja em frente à TV no CTI depois de uma cirurgia, diante da surpresa causada pela morte do amigo Pery Ribeiro, seja diante do lento milagre operado nas sessões de fisioterapia. O braço esquerdo, aos poucos, volta a ensaboar a axila direita, a abrir e dobrar o jornal e – vitória! – levantar a mala e acomodá-la no compartimento do avião.

Ruy Castro tem lá suas musas protetoras. Carmen Miranda ficou ao lado dele na luta contra o câncer: graças às pesquisas, entrevistas, anotações e ao incansável pique da ilustre biografada, o jornalista pôde enfrentar a maratona de radioterapia, quimioterapia, consultas médicas, cirurgia e punções, fora as 61 sessões de fisioterapia.

A outra musa é a escritora Heloisa Seixas: ela acompanhou o calvário do marido com o mesmo desvelo que a tornou cúmplice de um (quase) desastrado roubo de cinzeiro em Budapeste. Explica-se: há oito anos, esse “chaminé” deixou de pitar. Mas nada se compara ao prazer de ter em casa um cinzeiro do Hotel Algonquin, de Nova York. Afinal de contas, Dorothy Parker, a mestra do ex-fumante, poderia ter esmagado algumas guimbas justamente ali naquele objeto do desejo...

Morrer de prazer... traz um pouco de cada paixão de seu autor: cinema, memórias do Rio de Janeiro que não existe mais, pequenas alegrias e graves perrengues de saúde, observações sobre o dia a dia de todos nós – da chupeta das crianças às imposições da tal “melhor idade”, em que o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale a uma modalidade olímpica.

Sem celular Ruy Castro faz graça, mas não tem meias palavras ao descrever sua chegada à clínica para se tratar do alcoolismo. Sem drama e com a verve elegante (mezzo mineira, mezzo carioca?) que fez dele um dos autores mais queridos do país, exibe a vida. O passado deixou saudades, assim como o toca-discos tratado como ET pelos funcionários do aeroporto, mas o avô da galalau Isabel está mesmo é de olho no mundo dos bytes e dos smartphones. Tira sarro das amigas viciadas em celular, ironiza a “língua-pátria” cheia de rsrsrs, e, aos 65 anos bem vividos, confessa ser um dos ETs que não carregam celular no bolso (assim como Caetano Veloso e Luis Fernando Verissimo). Gozador, viu-se no Twitter sem jamais ter dado uma tuitada. É que a tal “nuvem” tecnológica não lhe faz muito a cabeça. As coisas acontecem, mesmo, muito além das touch screens.

Aliás, nuvem, para valer, é aquela que passa sobre a praia do Leblon. Onde, finalmente, deve estar o rapazinho solitário que tanto preocupou o nosso voyeur durante dois anos, por ficar trancado diante da luz fantasmagórica de seu computador. De seu terraço, Ruy vibrou: o garoto sumiu daquele quarto. Caiu na vida – como ela é.

Morrer de prazer – Crônicas da vida por um fio

• De Ruy Castro
• Editora Foz
• 184 páginas, R$ 39,90

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