Livro de Bya Braga traz reflexões sobre trabalho do ator contemporâneo

Pesquisadora fala sobre obra de Étienne Decroux e coloca em cena reflexões sobre o trabalho do ator contemporâneo

por Carolina Braga 11/05/2013 00:13
Beto Novaes/EMDAPRess
Bya Braga buscou a teoria a partir do trabalho no palco e agora quer retornar ao seu lugar natural (foto: Beto Novaes/EMDAPRess)


Definido pelo teatrólogo Patrice Pavis como um pensador do corpo, o francês Étienne Decroux ainda é um nome relativamente desconhecido nos estudos de artes cênicas no Brasil. O fundador da Mímica corporal dramática, ao longo de mais de 60 anos, desenvolveu pesquisa ligada à arte do ator. Foram as ideias ligadas ao fazer teatral e sobretudo à postura do artista do palco que seduziram a atriz e pesquisadora Bya Braga. Além de terem sido postas em práticas em oficinas no Brasil e exterior, as teorias de Decroux foram esmiuçadas no doutorado que deu origem ao livro Étienne Decroux e a artesania de ator: caminhadas para sabedoria, lançamento da Editora UFMG, cujo prefácio é assinado por Pavis. Bya Braga lembra Manoel de Barros (“repetir, repetir, até ficar diferente”) ao descrever a Mímica corporal dramática. Segundo a autora, trata-se de uma prática sistemática de movimentos cênicos. “Esta arte é uma experiência artesã, cujo corpo é o material primordial a ser tocado, cuja vida do artista precisa estar disponível a ser metamorfoseada”, define. Leia trechos da entrevista de Bya Braga ao Pensar.


O que distanciou durante tanto tempo as ideias de Decroux e a Mímica corporal dramática dos estudos sobre artes cênicas no Brasil?

Existem muitas maneiras de fazer e pensar o teatro. Decroux propôs seu modo teatral distinto, que se sustenta em alguns pilares, que são, por exemplo: “o teatro é a arte de ator”, “o ator é o artista do desenho”, “o corpo do mimo-ator é o tronco”. Estas bases falam de seu pensamento artístico, que demanda um intenso compromisso do artista com o seu fazer, bem como um alto investimento em determinados procedimentos que não se aprendem da noite para o dia. Ser ator, para Decroux, significa fazer uma ação que também demanda uma compreensão ética deste fazer. Por outro lado, existe uma defesa de Decroux a favor de um modo teatral que não passe necessariamente pela atuação realista naturalista, ou seja, que possa ser, como ele mesmo diz, uma maneira diferente de atuar, cujo corpo do ator seja o centro da expressividade e da oferta de convívio com o público. Não é preciso contar uma história com o teatro proposto por ele, ainda que a ficção exista e que a realidade, as ações humanas, como um ato de lavar roupa ou de trabalhar numa carpintaria, possam ser o suporte inicial da criação. Um teatro que se apresente deste modo pode não ser entendido como teatro e sabemos que existem ainda muitas pessoas saudosas de poéticas de gênero... No entanto, Decroux nos lança questões importantíssimas que mexem com a própria cultura teatral, especialmente a dita profissional.

Qual a maior contribuição da Mímica corporal dramática para a prática da atuação teatral nos dias de hoje?

Um dos aspectos mais difíceis para viver a atuação teatral hoje talvez seja exercitar o convívio, seja entre os artistas, seja na relação dos artistas com o público, de modo a fazê-lo, inclusive, em bases menos competitivas, mais integradoras, solidárias, que possam mais partilhar uma experiência do que impor algo para ser visto. Decroux revelava alto compromisso com o seu trabalho e era respeitado por isso. As pessoas que conviviam com ele revelavam uma entrega artística e humana surpreendente ao trabalho que ele propunha. Havia um entendimento do investimento feito por Decroux em sua pesquisa artística e sua contínua experiência pedagógica, além de uma compreensão de que a escola de ator que ele propunha era algo diferente. Nela a arte estava em primeiro lugar, não o artista. As ambições profissionais de quem ali chegava eram profundamente questionadas, revelando uma visão do teatro de modo mais ampliado do que a constituição de uma empresa teatral. Havia uma ênfase forte na noção do teatro como um modo de existência, como maneira de ter uma atitude alternativa diante da vida. Este valor ético é, para mim, fundamental na proposta de Decroux, mas é inegável que sua proposta artística seja também inovadora. Decroux convida, por meio do que criou, a estabelecermos um trabalho teatral de grande disciplina e sem pressa. Hoje há muita pressa para fazer teatro, muita pressa para se tornar ator e já querer criar uma logomarca de seu grupo. Com pressa não se consegue autoconhecimento nem um aprimoramento na relação com os materiais de trabalho de modo a fazer algo realmente diferenciado do que o cinema e a TV apresentam como atuação.

O que define, na prática, a Mímica corporal dramática?
Lembro aqui o poeta Manoel de Barros: “Repetir, repetir, até ficar diferente”. Trata-se de uma arte que demanda muito treinamento físico e intelectual, pois você pratica uma sistematização de movimentos cênicos, estuda ações humanas que podem ser oriundas do fazer cotidiano, podendo transformá-las ao ponto de elas não mais serem totalmente reconhecidas assim. A mímica corporal é um modo de treinamento sofisticado de atuação, que convida o ator não a ser somente “profissional”, a ser uma logomarca, mas a existir. A mímica corporal utilizou bases da cultura cênica ocidental como a pantomima e o balé e criou outra perspectiva de trabalho e de expressão cênica.

Por que falar em artesania do ator?
 A atitude artesã, para mim, no sentido em que trato artesania, é uma ação que visa à emancipação do indivíduo e não está focada ou restrita na ação para a fabricação de um produto. O ator contemporâneo merece pensar na possibilidade de seu fazer ser um ato emancipatório, com radical experiência criadora, para a qual ele revela coragem de trabalhar sobre si mesmo e promover transformações de sua existência. Fazer algo benfeito deveria ser uma atitude primordial ao ator contemporâneo. Não se distanciar da cultura material, ter prazer na relação com o material (corpo-pensamento-emoção), colocar em segundo plano a disputa de poder, o dinheiro e a profissionalização em razão disso, bem, é que desejo ao ator contemporâneo. Mas existem atores contemporâneos que não são senhores de si, que possuem muita pressa e ambição pautadas na ideologia do sucesso, cujas habilidades artísticas são questionáveis, mesmo que a arte hoje tenha rompido fronteiras e territórios. Falo de artesania de ator, portanto, para dizer da qualidade de atenção que o ator empresta à sua ação, podendo, sim, se divertir com ela, ter prazer nesta lida cheia de nódoas.

Acredita que a Mímica corporal dramática e outras ideias presentes na obra de Étiene Decroux podem contribuir para o desenvolvimento de outras áreas artísticas?

 É claro que sim. Mas prefiro ouvir as outras artes sobre este assunto... Por isso também compus um livro que conversa com a mímica corporal, que caminha com ela, sendo este um outro modo de fazer teatro, ou seja, praticando uma arte cênica e escrevendo. O livro lança informações, reflexões e também desejos, apresenta alguns aspectos históricos da mímica corporal e também testemunha vivências com ela. Da prática cênica surge o livro e agora ele quer voltar à prática. A atriz que sou quer colaborar para que traços da mímica corporal possam ser compartilhados, seja diretamente por meio dela, seja por meio de outros atores. As outras artes, se quiserem se aproximar, são bem-vindas. E no convívio outras "criaturas" poderão surgir... outras artes... Alguns poderão dizer: isso não é teatro, você não faz teatro. Mas isso não mais importa. Não se deve assustar. Se for preciso afirmar, bem, é teatro. Mas o mais instigante é viver.


Lançamento

Étienne Decroux e a artesania de ator: caminhadas para a sabedoria será lançado dia 18, a partir das 11h, no Espaço Mari’Stella Tristão, do Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro). Na ocasião, haverá performance do ator Alexandre Brum Corea e desenhistas que trabalharão nas paredes da galeria durante a apresentação.


Étienne Decroux e a artesania de ator: caminhadas para a soberania

• De Bya Braga
• Editora UFMG, 516 páginas, R$ 76

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