Gatilhos mentais

Em tempos de crise, equipe enxuta e profissional multifuncional, a criatividade no ambiente de trabalho é uma exigência, mas esse é um dom que pode ser treinado e desenvolvido

por Lilian Monteiro 12/05/2018 22:03
Jair Amaral/EM/D.A Press
Jair Amaral/EM/D.A Press (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Ainda há quem pense que para ser criativo só nascendo. Um dom. Não é. Ou melhor, tanto pode ser uma característica nata quanto é possível desenvolver a criatividade para aplicá-la, não só em sua atividade laboral, como na vida. É o que o mercado denominou de mindset, ou seja, conjunto de atitudes mentais que influencia diretamente o comportamento e o pensamento de cada um e que podem ser adquiridas e treinadas. Para pensar fora da caixa é necessário base, repertório e conhecimento, não só da área de formação e atuação, quanto informações gerais que ajudam a ampliar a visão.

Jacqueline Rezende, CEO da Sias Educação e Consultoria, consultora em RH, planejamento estratégico, personal coach e mestre em administração, afirma que a criatividade tem se tornado uma disciplina discutida com mais frequência seja nas salas de reunião das empresas ou nas mesas de refeições em casa. “Cada vez mais pensamos, no nosso dia a dia, como podemos ser mais criativos em um mundo competitivo e extremamente mutável.”

Para Jacqueline Rezende, a cultura da criatividade ainda é limitada porque achamos que ser criativo é reinventar a roda, e não é. “Você pode ser uma pessoa criativa buscando e ampliando horizontes cada vez mais intensos e com resultados na melhoria dos processos, das ideias dos trabalhos executados pelas pessoas e nas rotinas das tarefas diárias. Muitas vezes, o que precisamos são gatilhos mentais que cabem, por exemplo, dentro das empresas em qualquer lugar.”

A consultora destaca que o método Scamper de criatividade é uma ferramenta para estimular e usar esses tais gatilhos mentais. Jacqueline Rezende explica que ele foi desenvolvido pelo americano Bob Eberle para melhorar a criatividade e o desenvolvimento de ideias criativas. “O método foi elaborado pelo autor em meados do século 20, publicado em seu livro de mesmo nome. Basicamente, é uma lista de verificação de perguntas onde novas ideias são criadas. Ele é muito usado para repensar o problema ou criar nova oportunidade de negócio. Também podemos aplicar o método para modificar o projeto de um produto, serviço ou processo ou mesmo usá-lo para área do pensamento.”

Jacqueline Rezende diz que, conforme o autor, o método Scamper é aplicado, principalmente, para melhorar um processo de produto, no desenvolvimento de um serviço novo ou existente, seja ele próprio ou concorrente. “O método é muito útil para abrir a mente para novas maneiras de se concentrar no problema e, com isso, mudar toda a nossa capacidade criativa ou pelo menos dar asas a ela.”

Cultura

Para Jacqueline Rezende, cada vez mais é necessário mudar e construir uma cultura criativa nas empresas para acompanharmos os processos de globalização: “Uma cultura criativa é mais do que simplesmente se divertir no local de trabalho, trazer ideias ou decorar uma mesa. Essas coisas podem contribuir, mas o verdadeiro poder para restaurar o processo criativo está na mente. É uma questão de mudar como você pensa e de trabalhar para remover obstáculos que estão no caminho de sua criatividade natural”.

Jacqueline Rezende lembra que trabalhar a criatividade não é fácil. É trabalhoso para uma pessoa e ainda mais se ela trabalha em grupo ou em uma empresa com colegas criativos: “Mentalidades são difíceis de mudar e é complicado se desfazer de hábitos. Mas, com o tempo, mudanças positivas podem ocorrer. O ideal é exercitar e seguir a intuição”.

Para a consultora de RH, a criatividade é um recurso precioso que precisa ser estimulado. “Isso significa que não se pode simplesmente deixar pra lá e esperar que não acabe. É necessário um cultivo cuidadoso e o ambiente certo para que continue a fluir, assim como um esforço concentrado para ter a certeza de que nada fique no caminho do processo criativo. Se não tiver essa atenção, correrá o risco de deixar sua criatividade à demanda do acaso, situação preocupante para qualquer profissional criativo.”

Criatividade, portanto, precisa ser alimentada, aguçada, desafiada. Jacqueline Rezende enfatiza que “tenha sucesso e descobrirá que sua imaginação não tem limites. O cérebro é um espaço pouco explorado e lá mora nossa criatividade”. Para os gestores, a mestre em administração deixa um recado: “Não podemos ocultar que muitos minam a criatividade dos profissionais em vez de estimular e isso é um prejuízo e uma torneira do desperdício para sua empresa. Portanto, deve ser um compromisso do gestor proteger a criatividade de cada funcionário. Desde o que senta em uma mesa para trabalhar, aquele que está na linha de produção, nos serviços gerais, na gestão, na estratégia... Não existe limite nem cargo, criatividade se encaixa em qualquer cenário”.

Mente criativa

Os sete gatilhos mentais, conforme Bob Eberle e o método Scamper, que pode e deve ser usado sempre que a mente criativa não surgir de forma efetiva:

Substituir: é o processo com a intenção de determinar o que é que pode ser usado como substituto daquele pensamento. Essa questão a equipe precisa analisar no sentido de que deverão ser colocados alguns pontos, de modo a averiguar que produto ou serviço pode ser substituto de um produto ou serviços já existente. A ideia consiste na substituição.

Combinar: investiga como é que a ideia pode ser combinada com outro fato para gerar algo novo, pois ao combinar objetos e ideias, podemos desenvolver novos produtos ou serviços.

Adaptar: saber como se pode adaptar uma ideia existente ou a ideia de outra pessoa. Nesse sentido, é importante questionar “que outra ideia isto sugere?” ou “o que posso copiar para adaptar à minha ideia?”.

Minimizar, tornar maior, modificar: foca na hipótese da ideia poder ser modificada, minimizada ou maximizada. Assim, a partir de uma ideia já existente, tenta-se atribuir uma nova utilização, efetuando uma modificação a qualquer nível (forma, dimensão, peso, tempo, frequência, velocidade, entre outros). A questão a ser colocada nesta fase é “de que forma o produto ou serviço pode ser modificado, aumentado e/ou reduzindo?”

Pensar em outros usos: nesta etapa, pretende-se encontrar usos alternativos para ideias existentes, isto é, “a ideia pode ser usada em outros mercados?” De que forma? Por vezes é necessário reutilizar o produto, dando-lhe outra utilidade completamente diferente.

Eliminar: é o processo da eliminação, redução ou adição de novos ingredientes, componentes, partes  de produção ou serviços, de modo a alterar uma ideia. Pensamento na eliminação de várias partes ou características do produto ou serviço, de forma a solucionar alguns problemas.

Reverter, rearranjar: consiste em reverter o produto ou o serviço de modo a criar uma outra ideia. A inversão da sequência em que as tarefas estão sendo executadas ou a conversão do espaço na possibilidade de criação de um novo conceito ou a chamada de exploração de novas possibilidades no tempo e no espaço.

Palavra de especialista
Ana Lisboa, master coach para alta performance e consultora de RH


“A criatividade pode ser sim um diferencial competitivo no mercado de trabalho. Pessoas são contratadas normalmente por seus diferenciais e a criatividade ou a capacidade de resolver problemas é um grande ponto a favor de quem consegue utilizar essa característica e principalmente expô-la em um processo seletivo. As grandes ferramentas detectoras de criatividade são as temidas dinâmicas de grupo. Segundo a vasta literatura sobre o tema, a criatividade é sim, para todos. Algumas pessoas se desenvolvem em ambientes naturalmente criativos e, por isso, têm mais facilidade em lidar com essa característica. Mas é possível para todas as pessoas usar o lado criativo do cérebro para encontrar saídas inusitadas e eficientes. Se você, leitor, considera-se pouco criativo, passe a estimular, mesmo que por brincadeira, essa sua habilidade. Pode ser pensando em saídas diferentes para os mesmos problemas, fazendo as mesmas coisas de forma diferente e principalmente (e essa pode ser a mais difícil), deixando de criticar aquelas respostas estúpidas que normalmente ilustram as conversas entre amigos. Lá pode estar uma fonte inesgotável de criatividade que precisa contar apenas com um pouco menos de censura para se manifestar.”

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