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Criador do Rock in Rio, Roberto Medina prevê retomada forte em 2021


 A avó do produtor cultural Roberto Medina costumava contar sobre a gripe espanhola e todas as agonias que chegaram a abater um quarto da população mundial entre janeiro de 1918 e dezembro de 1920, infectando 500 milhões de pessoas e deixando um número estimado de 100 milhões de mortos.


 
Ruy Castro lembra em seu recente livro, Metrópole à beira mar, como o carnaval de 1919, quando o Rio já se sentia seguro para reabrir as avenidas depois de ver cenas de corpos pelas ruas sendo recolhidos por caminhões de lixo, acabou se tornando a festa da vida, o desbunde dos confinados, a desforra dos sobreviventes. Medina tem nas mãos a maior concentração de pessoas no calendário musical privado do país. O Rock in Rio, criado em 1985 em meio à epidemia de outro vírus de natureza tão devastadora, o HIV, reúne a cada edição bienal cerca de 700 mil pessoas em sete dias de espetáculos.
 
Se as experiências de contato humano não serão mais as mesmas, como afirma o biólogo guru dos novos tempos, Átila Iamarino, festivais como o Rock in Rio também não serão. Segundo algumas previsões do comportamento social pós-pandemia, as pessoas levarão um tempo para voltar a frequentar lugares com grandes concentrações e, mesmo aquelas que forem a shows, tomarão precauções, como o uso de máscaras e distanciamento físico, que podem aniquilar parte da entrega em massa da plateia que faz parte do show.

 Medina diz que o tempo joga a seu favor. A próxima edição do Rock in Rio no Brasil será em setembro de 2021. Assim como o carnaval de 1919, 2021 pode ser o ano de uma celebração especial da história do evento.


 
"Eu estou neste momento em minha fazenda, em um lugar maravilhoso. E mesmo assim, sem poder sair daqui, posso sentir como precisamos de liberdade", diz Medina, que segue em sua linha de raciocínio: "Quando eu fui sequestrado (em 1990), voltei iluminado. Eu estava vivo, queria fazer tudo acontecer." Em sua opinião, outros eventos devem sofrer mais com o trauma pós-pandemia, como o próximo réveillon e o carnaval de 2021. "Até setembro, as pessoas vão estar mais preparadas. Elas devem ter uma reação rápida, terão uma necessidade de comemorar. A minha aposta é de que essa sociedade vai estar com desejo de ir para a rua".
  
Um outro efeito poderia ajudar os eventos no país em meio à reconstrução de 2021, algo parecido com o que ocorreu com a crise mundial de 2008. "O turismo movimenta todos os anos cerca de R$ 75 bilhões. Como as pessoas estarão traumatizadas com as viagens, e ainda não saberemos como serão as viagens, há expectativa de que cerca de R$ 20 bilhões que iriam para o turismo ficarão no Brasil.
 
Medina diz que o grande problema é a ausência de política pública para o setor de turismo e entretenimento nacional. Ainda há uma ideia no Brasil, segundo diz, de que "festa é gasto". "Vemos muitas vezes notícias como 'a prefeitura gastou tanto com o show de Zeca Pagodinho'. Gastou p... nenhuma. Não é gasto, é investimento." Para ele, o pós-confinamento redefinará até o papel do Estado, forçado a abrir linhas de crédito sem burocracia. "Se o Estado não entrar, a roda não gira."