Álbum de Paulo Serau ganha tratamento de orquestra

Músico e arranjador produz álbum que exalta em 11 canções Garoto, esse multi-instrumentista, ícone entre os anos 1930 e 50. Vocal é do mineiro Sérgio Santos

Augusto Pio 21/10/2019 06:00
KrizKnack/Divulgação
O trabalho de Serau está disponível em plataformas digitais: "Tento colocar uma visão minha sobre as músicas, com o intuito de mostrar que as canções de Garoto (D) são atemporais" (foto: KrizKnack/Divulgação)
O desafio era tratar de minimizar uma lacuna histórica em torno da obra do compositor e violonista paulista Aníbal Augusto Sardinha (1915-1955). E o resultado está no álbum As canções de Garoto, produzido pelo músico e arranjador Paulo Serau. O trabalho está disponível apenas nas plataformas digitais. Assim, esse recorte da trajetória do artista e seus parceiros ganhou um tratamento orquestral com a sonoridade da Grande Banda, dirigida por Serau, com a voz do cantor e compositor mineiro Sérgio Santos e participação especial do maestro, saxofonista e flautista Roberto Sion.

Serau explica que este é um disco com um olhar sobre o cancioneiro de Garoto, celebrado multi-instrumentista de cordas, que gravou discos e programas de rádio entre as décadas de 1930 e 1950 e que também figurou em filmes hollywoodianos ao lado de Carmen Miranda e do Bando da Lua. “O vanguardismo do trabalho de Garoto o fez um dos pilares da moderna música popular brasileira, influenciando nomes como Tom Jobim, por exemplo.”

Ele conta que, em 2015, ano do centenário de nascimento de Garoto, muito se falou da sua obra instrumental, porém, pouco das suas canções, produzidas em menor escala. “Diante disso, fiquei muito preocupado com o assunto, uma vez que sou arranjador e muito ligado nas canções em si. Assim, escolhi pegar o cancioneiro dele. Gravamos esse material em 2015 e só depois de muitos anos é que conseguimos lançar, em virtude de uma série de burocracias, como liberação de direitos.”

Mas Serau ressalta que nesse período houve também o nascimento de seu filho, hoje com 3 anos, o que fez com que se dedicasse mais à família e deixasse o álbum um pouco de lado. “Temos uma história legal deste disco com relação a Minas, uma vez que o Sérgio Santos, mineiro de Varginha, participa. Um supercompositor, cantor, violonista. O trabalho ficou muito legal com a participação dele. Sérgio não chegou a tocar algum instrumento na gravação, apenas cantou acompanhado da orquestra, que é uma big band, ampliada com trombones, trompetes, saxofones, flauta e clarinete.”

O arranjador acrescenta que incluiu uma percussão melódica, com xilofone, vibrafone e glockenspiel. “Realmente, foi uma superbanda acompanhando Sérgio, que interpretou as canções de uma maneira ímpar, muito bom.” Serau lembra que seu primeiro instrumento foi o violão e garante que todo estudante passa pela obra de Garoto, pelo estudo das peças dele. “Eu sempre fui curioso e fã. Fui pesquisando, descobrindo os parceiros dele nas letras. Foi um trabalho apaixonante, mas também senti essa missão de mostrar coisas dele que as pessoas não conhecem.”

Na realidade, muito se conhece da obra instrumental de Garoto, mas pouco de suas canções. “Então, fizemos uma seleção e chegamos a 11 canções. Inclusive a música Gente humilde, superconhecida com a letra do Vinícius de Moraes e Chico Buarque, tem uma outra versão anterior a esta e que foi gravada ao vivo na Rádio Nacional, na década de 1950. Era uma letra mais singela, não tinha nada a ver com a posterior. A melodia é a mesma. Porém, Garoto recebeu a letra de um músico amigo dele, que não queria ter seu nome divulgado. Quem relatou a existência desta outra letra foi a cantora mineira Zezé Gonzaga (1926-2008), radicada no Rio de Janeiro.”

Ele conta que foi o responsável pelos arranjos do álbum todo, mas procurando fazer algo diferente em algumas canções. “No caso de Duas contas, que, em princípio, é um samba-canção, a transformei em uma valsa com suingue de jazz e a orquestra toda tocando. Em Gente humilde, fiz um acompanhamento com vibrafone e quarteto e flautas e clarone. Interessante que Falsa promessa teve somente um registro na Rádio Nacional, feita com Emilinha Borba e o próprio Garoto ao violão”, observa.

O músico conseguiu o áudio, gravado ao vivo em um programa de rádio da época, e elaborou um arranjo numa fusão que diz remeter aos maestros Moacir Santos e Henry Mancini. “Confesso que tento colocar uma visão minha sobre as músicas, com o intuito de mostrar que as canções de Garoto são atemporais, porém, buscando dar uma linguagem sofisticada, aliando a sonoridade da big band.”

Ele ressalta que, ao longo dos anos, o que consta são poucas gravações que registraram esse recorte da obra de Garoto. João Gilberto, Sylvia Telles, Gal Costa, Maria Bethânia e Luciana Souza foram alguns dos seus intérpretes.
IMS/RIO/REPRODUÇÃO
(foto: IMS/RIO/REPRODUÇÃO)

Um estudioso, um virtuoso

Paulo Serau é pesquisador e historiador da arte. Coordena, ao lado de Gilberto Inácio Gonçalves, o projeto Pixinguinha e Radamés em 78rpm, trabalho de escuta, análise e transcrição de arranjos desses dois mestres, e já foi responsável por direção musical e arranjos para projetos como Samba na Formosa, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo (2018). Entre suas produções figuram ainda Canta, Inezita! (shows e CD) com Maria Alcina, As Galvão, Consuelo de Paula, Claudio Lacerda (2019/2018), e Grande Banda convida Cristóvão Bastos (2017).

Cuidou também de Orfeu da Conceição, com Mônica Salmaso, Sérgio Santos e a Grande Banda (2016); Bandinha Popular e As Galvão no Circuito Municipal de Cultural (2016); Duas noites para Dolores Duran (CD e DVD), com Ângela Maria, Cauby Peixoto, Claudette Soares, Doris Monteiro, Leny Andrade, João Donato, Elba Ramalho e Carlos Lyra, entre outros artistas (Canal Brasil/2015). Respondeu, além dessas produções, por Choro para Big Band, com Derico Sciotti e Roberto Sion (2014); DVD em comemoração aos 60 anos de carreira de Inezita Barroso, Cabocla eu sou (TV Cultura/2013); CD Um canto de cá, do Grupo Cantadeira

Em 2012, foi agraciado com o prêmio Funarte Centenário de Luiz Gonzaga pelo projeto de transcrição de melodias e arranjos dos discos de 78 rotações do pernambucano – com partituras e CD –, lançado pela Editora Choro Music. Além disso, escreveu arranjos para projetos como Jazzmin’s Big Band, Guri Santa Marcelina (grupos de choro, coral e big band) e para homenagens a Carlinhos Vergueiro e a Eduardo Gudin, respectivamente, das cantoras Hilda Maria e Carla Casarim.

Sérgio Santos, que empresta sua voz a esse As canções de Garoto, iniciou a carreira no espetáculo e disco Missa dos Quilombos, de Milton Nascimento. É também parceiro de Paulo César Pinheiro e tem suas canções gravadas por Dori Caymmi, Joyce, Lenine, Francis Hime, entre outros. É contratado da gravadora Biscoito Fino desde 2002. Tem indicação ao Grammy Latino, título no Prêmio Visa e já se apresentou no Hollywoodbowl (Los Angeles/EUA) e Blue Note (Tokyo/Japão).

O REPERTÓRIO

1. Duas contas (Garoto)
2. Sorriu para mim (Garoto e Cecy)
3. Amor indiferença (Garoto e Mário Albanese)
4. Lembras-te de mim? (Garoto e Laurindo de Almeida)
5. Nick bar (Garoto e José Vasconcelos)
6. Gente humilde (Garoto e letrista anônimo)
7. Felicidade (Garoto e Haroldo Barbosa)
8. Você é tormento (Garoto e Nilo Sérgio)
9. Mariazinha (Garoto e Alberto Ribeiro)
10. Falsa promessa (Garoto)
11. Teu olhar (Garoto e Valzinho).

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