Uai Entretenimento

De volta ao começo

Otto faz show em BH para celebrar os 20 anos de 'Samba pra burro'


“É como o filme De volta para o futuro”, diz Otto a respeito do disco Samba pra burro, lançado em 1998. Nessa metáfora, o cantor e compositor encontra a síntese das percepções condensadas no álbum que marcou sua estreia na carreira solo. Mesclando eletrônica e ritmos tradicionais, o projeto, marco da música brasileira contemporânea, surgiu na época em que o percussionista deixava as bandas Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, expoentes do manguebeat.


Nesta sexta-feira (23), Otto faz show em BH para celebrar os 20 anos de Samba pra burro, agora lançado em vinil. Cria do manguebeat, o pernambucano sempre apostou na fusão de ritmos regionais com eletrônica, entre outros gêneros. “Passei numa porta da música brasileira bem fechadinha, já tinham passado por ela o Mundo Livre S/A e a Nação Zumbi. Eu passei apertado. Hoje, faço parte da engrenagem da música brasileira”, diz, referindo-se às bandas pioneiras do movimento surgido no Recife.

Um dos primeiros shows da turnê Samba pra burro ocorreu em Minas Gerais, no fim da década de 1990. No palco estava o jovem Otto, “mais descabeçado”, segundo o próprio. Vinte anos depois, a discografia do cantor e compositor reúne Condom black (2001), Sem gravidade (2003), Certa manhã acordei de sonhos intranquilos (2009), The moon 1111 (2012) e Ottomatopeia (2017).

Garoto Ao revisitar o “primogênito”, Otto teve de retomar o antigo tom de voz. “É um retorno a meu começo, mas com novas técnicas e mais experiência. Penso: não é possível, tô cantando como um garoto”, diverte-se. O novo show tem duas partes. A primeira se baseia no álbum de estreia; a outra é dedicada a sucessos da carreira.


De 20 anos para cá, muita coisa mudou. O cenário da música brasileira ficou menos preconceituoso, diz Otto. Ele cita como exemplo o maracatu, resgatado pelo manguebeat nos anos 1990. O ritmo deixou de ser “exclusivamente pernambucano”, observa, lembrando que a transformação se deve ao avanço das mídias digitais.

“Naquela época, a percepção da música era outra. O mundo digital coloca as coisas no mesmo peso e na mesma balança”, avalia o cantor, que experimentou o híbrido de analógico e digital. “Antes, chegava com o pau e dizia: ‘Matei a cobra’. Aí respondiam: ‘Mas cadê a cobra?’. Então, trouxe o pau e a cobra. Diziam: ‘A cobra está morta’. Hoje, preciso chegar com a cobra viva e matá-la na frente de todo mundo”, brinca.

Otto gravou, produziu e cantou, além de tocar todos os instrumentos em Canícule, seu próximo disco, em formato “garage band”. A intenção é lançá-lo no ano que vem, mas o single chegará às plataformas ainda em 2018. Canícule, explica, é o momento em que “a chapa esquenta e o verão bate”.


BIKE Aos 50 anos, Otto substituiu a bicicleta pela cadeira do escritório. “Sou um homem maduro, sei que o caminho agora não é fazer teste no Atlético ou no Cruzeiro, mas sentar e escrever. A mente é o atleta infinito, onde vou me encontrar com meus raciocínios, minha visão”, diz.

A reinvenção se tornou marca registrada dele. “É a necessidade de morrer e ressuscitar, acabar com aquele para entrar em outro. As pessoas querem ver isso, o artista precisa ter essa ousadia”, defende.

Politizado, nas redes sociais ele deixa claro seu posicionamento, contrário ao do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).

Otto diz que “virou petista” sem ser. “Sou democrata e vou respeitar (Bolsonaro). Mas sei que o plano de voo desse governo e a tripulação são psicopatas”, critica, contando que já em Ottomatopeia previu o avanço da direita no Brasil e no mundo. “O disco tem fotos de tortura, falei do fascismo, sabia que essa coisa ia crescer. O golpe foi bem dado”, conclui.

* Estagiária sob supervisão da editora-assistente Ângela Faria
OTTO
Show Samba pra burro. Grande Teatro do Sesc Palladium. Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro, (31) 3270-8100. Nesta sexta-feira (23), às 21h. Plateia 1: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia). Plateia 2:
R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia). Plateia 3: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).