Lenine lança novo disco com show programado para BH em julho, no Palácio das Artes

'Em trânsito' foiproduzido num momento em que a intolerância é 'essa senhora que agora é a rainha do pedaço' e em que ele enxerga o futuro 'com uma miopia muito grande'

por Kiko Ferreira 13/05/2018 11:30

FLORA PIMENTEL/DIVULGAÇÃO
O pernambucano Lenine compôs e gravou no novo disco Lua candeia, que define como sua "canção mineira", por traduzir a influência de Milton Nascimento e do Clube da Esquina em sua obra (foto: FLORA PIMENTEL/DIVULGAÇÃO)

Em trânsito, novo trabalho do pernambucano Lenine, é, como diz o filho João Cavalcanti no texto de apresentação, uma “ode ao processo”. Aqui, o compositor, cantor e violonista sai da trivial sequência de gravar um disco de estúdio, fazer o show e depois partir para o DVD, para tomar um caminho que subverte a ordem normal da carreira de um álbum.

Ele reuniu as músicas – um terço delas inéditas –, mostrou-as para os músicos e, aí sim, fez os arranjos e foi para o palco. Em fevereiro, fez uma apresentação na casa Imperator, no Rio, gravou e transformou em CD, LP e DVD. Tudo feito com equipamento analógico. Incluindo a capa, assinada por Bruno Tavares e Lisa Akerman, utilizando o cianótipo, um processo químico de impressão surgido na Inglaterra, no século 19.

No show/disco/DVD, ele comanda sua banda de muitos e bons tempos, com Jr. Tolstoi, Guila, Pantico Rocha e Bruno Giorgi. Durante a turnê, que passa por Belo Horizonte em julho, no Palácio das Artes, Lenine promete ir de quando em quando para o estúdio e gravar as canções, de duas em duas. No final, vai transformar o resultado num outro disco, em princípio batizado de Transitado.

Por skype, do Rio de janeiro, antes de sair para presenciar a apresentação do parceiro Lula Queiroga no histórico teatro Ipanema, na quarta-feira passada, ele falou ao Estado de Minas sobre os motivos de subverter o processo, o momento atual do país, seu método de compor e criar, a influência fundamental do Clube da Esquina em sua carreira e como (não) vê o futuro próximo. A seguir, os principais trechos da conversa:

DESCONFORTO E DISTOPIA
A gente é movida por estímulo. Toda vez que tenho uma sensação de repetição, eu me ponho a descobrir novas mecânicas, novos processos, novos caminhos, para burlar essa sensação de repetição. Quando a gente terminou, logo no final do Carbono, eu tinha que fazer um projeto novo. Começamos a pensar... E nós estamos nesse momento... É difícil arrumar um adjetivo para descrever esse momento que a gente está passando. Distópico, digamos assim. Essa distopia que vivemos é um desassossego muito grande que provoca. Um desconforto. Acho que está em todos. Todos estão sentindo isso. Eu não me conformo com essa dissimulação exacerbada em todos os setores da sociedade.

ATENTOS AO CAOS
Isso tudo me fez refletir sobre o que eu queria fazer. Tenho que mostrar esse caos que está aí. Em trânsito surge dessa sensação de urgência, de velocidade... de incompreensão de onde isso vai dar. Você não tem um futuro possível que consiga visualizar a curto prazo para melhorar o estado de coisas. Então, isso me levou a propor o Em trânsito.

INTOLERÂNCIA
Não por acaso, o primeiro single se chama Intolerância, essa senhora que agora é a rainha do pedaço. Todo mundo está intolerante com todo mundo. Então, vou indo por essas questões que me comovem, num momento em que vivo essa desesperança. E resolvi fazer um projeto diferente.

SUBVERTENDO A ORDEM
Ao longo dos anos, fiz meus discos, depois peguei minha turma, que são os mesmos músicos que tocam comigo no palco há muitos anos, e sempre me ajudaram a adaptar aquelas músicas que gravei no universo do CD para o universo do palco. No Em trânsito, resolvi fazer o contrário – botar o foco nessa assinatura coletiva. Portanto, a gente está falando num processo, não só de um CD, um LP, um DVD. Fiz um show com um terço de canções inéditas. Mostrei diretamente para os músicos, diferente do que fazia. Mostrei sem o violão, para que a gente criasse junto, porque tenho um violão muito característico, é quase uma extensão do meu corpo. Queria exorcizar isso. Aí escolhi o repertório com Brunio Giorgi, meu filho, que é o produtor. Fui compondo as canções com meus parceiros mais íntimos. E foi assim...”

CANÇÕES E MOMENTOS
A canção pode vir de diversas formas, não tenho um jeito só. Às vezes, é só uma frase melódica; às vezes, um groove, um riff. Às vezes, a melodia está na cabeça e, de repente, chega. Às vezes, acontece simultaneamente. É raro, mas acontece. Mas tem também a coisa cerebral, de você procurar. Muitas dessas coisas surgem numa passagem de som. Por isso gosto de passar som (risos). O importante de tudo é estar atento. É uma condição para quem quer criar: a atenção.

CLUBE DA ESQUINA
Há muito falo da importância na minha vida de Milton e o Clube da Esquina. Eles foram o estopim, o trampolim para eu me reaproximar da música brasileira. Naquela época, eu ouvia muito rock’n’roll. Não ouvia música brasileira. Durante muito tempo, eu ficava esperando os discos saírem para ser o primeiro a comprar. E como eles brincavam muito com o stereo, eu podia colocar o Toninho Horta num canal, o Nelson Ângelo no outro e tirar as harmonias.Tinha uma turma ali cabeluda. Mas, como disse Braúlio Tavares, tudo que é cabeludo cabe lindo. Foi uma escola para mim.

MASCATE ANALÓGICO
Sou um ser analógico. Vi esses veículos físicos mudarem tantas vezes: LP, CD, MDF... Tinha videolaser. Os formatos mudam muito, mas continuo sendo um ser analógico. Em se tratando do Em trânsito, o fazer, o manufaturar é muito importante. Com a pulverização da rede, descobri que sobrevive melhor quem for mascate, indo de feira em feira. Esse espírito ambulante está presente na minha vida toda. Foi lindo ver a turma lidando com os periféricos, os equipamentos analógicos. O resultado sai sempre diferente por causa do calor que a gente tem.

LEMBRANDO O FUTURO
Enxergo o futuro com uma miopia muito grande. Precisaria de uns óculos muito grandes, porque não tenho a mínima ideia. E me constrange muito saber que a dissimulação está enraizada em todos os setores da sociedade. Como resolver isso? Cada um. Faça sua revolução você. Tente melhorar você mesmo.

FAIXA A FAIXA
Lenine comenta as 10 canções de Em trânsito

 

1- Leve e suave (Lenine)
Escolhi para a música de abertura do show. Dá a falsa impressão de que o show vai transitar por leveza e suavidade. Mas não... isso é um contraponto. Essa canção está ali para tirar o show de todo mundo. Essa leveza e suavidade são uma procura.
2- Sublinhe e revele (Lenine)
Tem um jogo de palavras que é muito revelador. E esse revelar revela sim. Aí é o disco. O caos sonoro, a confusão de coisas. Muitas informações ao mesmo tempo, a urgência. Tudo acontecendo com muita avidez. Muita aridez.
Muita secura.
3- Virou areia (Lenine e Bráulio Tavares)
Virou areia eu tinha gravado só no acústico, de uma maneira muito diferente. Ela reafirma que tudo é passado, tudo é momentâneo, tudo é passageiro. Mais do que passado, tudo é passageiro.
4- Bicho saudade (Lenine e João Cavalcanti)
Funciona para dar uma certa leveza. Como muitos dizem, a saudade não tem muito como traduzir. Saudade pode ser ruim, pode ser boa. Pode ser duradoura, pode ser momentânea. A saudade pode ser muita coisa. Tem essa leveza na palavra, na condução.
5- Intolerância (Lenine e Ivan Santos)
É o primeiro single. Essa senhora chamada intolerância está transitando em todos os lugares. No universo da rede, ela manda. As pessoas estão acostumadas a viver seus avatares na rede. E a exercitarem uma intolerância, uma insolência. É difícil você entender. Por isso é tema fundamental do disco.
6- Lua candeia (Lenine e Paulo César Pinheiro)
Fiz com o Paulo César Pinheiro há uns 30 anos. Milton Nascimento e o Clube da Esquina me influenciaram muito.
É minha canção mineira. E me impressiona a participação do Amaro Freitas e a desconstrução que ele fez com a harmonia dessa canção miltoniana.
7- Ogan Erê (Lenine e Lula Queiroga)
Essa parceria com Lula Queiroga se deu de forma diferente. Ela estava no meu coração, porque eu já havia conhecido o terreiro Xambá e o Grupo Bongar, lá de Peixinhos de Olinda. Eles tinham participado de um show que  fiz em Recife e depois no PercPan, e ele me contou uma história – de um sobrinho dele que, um dia, com 6 para 7 anos, acordou, entrou no terreiro, ficou em cima do tambor e começou a fazer todos os toques de todos os orixás. Uma coisa linda e maravilhosa. E aquilo ficou martelando.
8- De onde vem a canção (Lenine)
É uma canção do disco Chão que eu revisitei agora.
9- Lá vem a cidade (Lenine e Bráulio Tavares)
Uma parceria com Braúlio Tavares que fala da ferocidade das cidades. É o baque da metrópole que atropela.
10- Umbigo (Lenine e Bráulio Tavares)
Aqui quem tiver paciência, se for insistente, vai descobrir outras coisas no CD físico.

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