MPB 'fofa' conquista o Brasil

Movimento, que surgiu nas redes sociais com melodias suaves e letras bem-comportadas, trouxe nomes como Tiago Iorc, Ana Vilela e a dupla Anavitória para o cenário atual

por Pedro Galvão 13/04/2018 09:30

Facebook Anavitória/Reprodução
Dupla Anavitória atrai pais e filhos a seus shows (foto: Facebook Anavitória/Reprodução)
Entre os estilos musicais mais populares do Brasil, há quem ame as letras debochadas e erotizadas do funk ou do sertanejo. Outros se identificam com a mensagem séria e direta do rap e de algumas vertentes do rock. Porém, no meio dessa salada rítmica, artistas que se destacam entre os hitmakers do país trilham um caminho radicalmente diferente, com letras e melodias amenas. Chamado de MPB Fofa, Folk Pop ou Nova MPB, o movimento encabeçado por Tiago Iorc, Ana Vilela e Anavitória, entre outros, pôs a voz e o violão no topo das paradas.

A jovem paranaense Ana Vilela trocou o anonimato pelo sucesso na velocidade de seu Trem-bala. Essa canção foi gravada no segundo semestre de 2016, quando ela tinha apenas 18 anos, e lançada em seu canal no YouTube. Menos de um ano depois, era uma das músicas mais tocadas no país. No ranking Hot 100 Brasil da Billboard, a versão com participação de Luan Santana ficou várias semanas entre as 10 primeiras.

O produtor musical Fernando Lobo, ex-diretor artístico da Som Livre, procurou Ana Vilela tão logo a música virou sucesso. “A ideia era lançar um EP com cinco ou seis faixas, mas ao longo do processo ela criou outras canções de muita qualidade. Então, gravamos um álbum completo, com 13”, lembra Lobo, que produziu o disco Ana Vilela (2017) em parceria com Juliano Cortuah. “A gente sempre buscou não tirar a verdade e a simplicidade dela. Não tem grandes arranjos, é tudo canção, muito orgânico e nada sofisticado. Não queríamos colocar a artista acima do que ela é, com produção megapop, muitos elementos e recursos eletrônicos”, explica.

Antes de deixar a Som Livre, onde trabalhou por 11 anos, Lobo viu artistas do gênero darem os primeiros passos rumo ao sucesso. “Na Folk MPB, temos Anavitória, Tiago Iorc e o Nando Reis, a grande referência de muitos deles. Há um movimento vindo aí, com canções menos densas. O Brasil e o mundo precisam de músicas com mais leveza, que ajudem a gente a levar melhor as situações complicadas pels quais passamos. Não é questão de alienação, como alguns dizem. É só um ‘rivotril cultural’ para a pessoa ter forças e encarar o dia a dia. A música tem essa magia”, defende o produtor.

Formada por Ana Caetano e Vitória Falcão, a dupla Anavitória se destaca na lista dos mais ouvidos nos últimos 12 meses no país. O álbum de estreia delas foi o sexto mais executado no Spotify em 2017. As jovens do Tocantins estouraram graças ao vídeo enviado ao ídolo Tiago Iorc. Ele gostou e assumiu a produção do trabalho delas.

Aos 35 anos, o brasiliense Iorc é uma das vanguardas da MPB Fofa. Em 2008, lançou o primeiro álbum, Let yourself in, em inglês. Emplacou hits em novelas da Globo e parcerias com Maria Gadú, Sandy e Milton Nascimento. Em 2017, ganhou dois prêmios Grammy Latino com o álbum Troco likes ao vivo e a canção Trevo, cantada em parceria com as “afilhadas” do Anavitória.

A trajetória dessa turma é parecida com a de Mallu Magalhães. Em 2008, aos 16 anos, ela estourou no YouTube cantando Tchubaruba. Referência da Nova MPB, lançou quatro álbuns solo e outro com a Banda do Mar. Ela será uma das atrações do festival PopLoad, em São Paulo, dividindo o palco com Tim Bernardes, vocalista da banda O Terno. Ano passado, Tim lançou o disco solo Recomeçar, sucesso de crítica, com as mesmas características de Iorc, Mallu, Ana Vilela e Anavitória.

O jovem Tiago Iorc virou parceiro do veterano Milton Nascimento
Rafael Trindade/Divulgação (foto: O jovem Tiago Iorc virou parceiro do veterano Milton Nascimento)
INTERNET
Esta geração não se limita à bela voz e ao violão no colo. Conseguiu usar muito bem as redes sociais para mostrar o próprio talento. O tom suave das melodias e o teor “permitido para menores” das letras sobre amor e trivialidades garantem a aceitação do público infantojuvenil. Acompanhada dos pais, a garotada garante plateias expressivas em shows e festivais.

Com 30 anos de experiência na indústria fonográfica, Marcelo Castello Branco, diretor-executivo da União Brasileira de Compositores (UBC), saúda esse movimento. “É sempre bem-vindo um certo resgate, pois a gente viveu e continua vivendo a cultura do mercado consumidor, do mainstream, com o monopólio do sertanejo e o crescimento do funk. Agora há o ressurgimento da MPB, com muito mérito. Essa música de qualidade conversa com um público bastante jovem. É muito bom a música brasileira ser representada em toda a sua vivacidade, com público enorme e diverso. Vejo com entusiasmo o que Tiago Iorc, Ana Vilela e muito mais gente estão fazendo. Não acho que seja algo momentâneo. Eles vão influenciar outros artistas, isso vai crescer”, prevê.

Ex-presidente da Universal Music Brasil, Cone Sul e Península Ibérica e da EMI Music Brasil/América do Sul e Central, além de vice-chairman do conselho do Grammy Latino, Castello Branco aposta: “Do ponto de vista da MPB, é fantástico ter uma nova geração liderando esse movimento e se reinventando. Essa garotada jovem, que se relaciona com outros ritmos sem preconceitos, é sinal da força e da vitalidade da música brasileira.”

No cenário internacional, as chamadas “baladas fofinhas” também são tendência. O inglês Ed Sheeran, artista mais ouvido do mundo em 2017 no Spotify, é outro adepto das canções suaves. “Com a globalização, há pouca exclusividade de cada país, pois temos referências do mundo inteiro. Mesmo com 75% da música consumida aqui sendo nacional, o Brasil também tem referências estrangeiras e todos se alimentam disso”, conclui Marcelo Castello Branco.

 

Ouça alguns "sucessos fofos" da nova MPB:

 

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