Cantora portuguesa Raquel Tavares lança álbum em que interpreta canções de Roberto Carlos com a dramaticidade do fado

Artista declara que é a realização de um sonho de criança

A fadista Raquel Tavares é “alfacinha da gema”, gíria usada em Portugal para definir quem nasce em Lisboa, capital do país. Mas é com uma expressão bem brasileira que ela descreve sua reação ao saber que gravaria um disco de canções de Roberto Carlos, seu maior ídolo. “Estão zoando de mim. Só pode!”, pensou a moça na ocasião.

Sony Music/Divulgação
A fadista Raquel Tavares começou a ouvir o Rei aos 3 anos, antes de conhecer o gênero que a tornaria famosa (foto: Sony Music/Divulgação)

Não era brincadeira. Em julho do ano passado, o empresário de Raquel, João Pedro Ruela, lhe deu o aviso: “A Sony Music quer fazer uma homenagem a Roberto Carlos e citaram seu nome. Mas ainda não tem nada certo. Não vamos nos animar muito, ok?”, alertou o agente. Poucos meses depois, lá estava a moça em estúdio, gravando Roberto Carlos por Raquel Tavares, álbum com 14 faixas do rei. Em novembro, o projeto chegava às plataformas digitais. E em 23 de fevereiro estará nas prateleiras de todo o Brasil.

Bela história produzida pelo acaso? Nem tanto. Raquel, assim como Roberto, integra o casting da Sony. Não que o fato, por si, seja motivo suficiente para convencer o zeloso compositor a liberar seu repertório a terceiros. Ocorre que o showbiz é seara de raposas. O último disco de Tavares, intitulado Raquel (2016), está há sete semanas consecutivas no topo dos mais vendidos de Portugal – mercado que o pioneiro da jovem guarda bem conhece. Vendeu por lá, afinal, nada menos que 1,5 milhão de discos. Não demorou muito para que o produtor Max Pierre e o presidente da empresa fonográfica, Paulo Junqueiro, logo enxergassem o potencial lucrativo da junção dos dois artistas.

O toque de fado, como era de se esperar, caiu bem ao romantismo do capixaba. O setlist do CD é basicamente formado pelas maiores pérolas do cantor, como Detalhes, Emoções, Fera ferida, Cavalgada e Sua estupidez. E conta com duas participações especiais, de Ana Carolina em De tanto amor, e de Caetano Veloso em Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, que Roberto compôs em homenagem ao baiano.

Enquanto a voz do rei empresta a essas músicas um tom de “comédia romântica”, a de Raquel derramou sobre elas uma boa dose de dramaticidade. “O Max quis que eu cantasse em português de Portugal. E essa foi uma das coisas que mais me deram trabalho. Foi difícil manter uma coerência com o meu dialeto durante o canto. É que eu morei no Rio por três anos e acabei criando o hábito de falar português brasileiro. Então tive que tomar cuidado para não misturar as duas coisas. De qualquer forma, respeitei o ‘dengo’ do Brasil ao falar. Esse jeito mais informal de conversar. Em Portugal, a gente chama de dengo!”, brinca.

A escolha das composições sim, é que se pode chamar de grata surpresa do destino. Conta a portuguesa que Max enviou a ela uma lista com 20 sucessos. Ela fez a mesma coisa. No final, coincidiram 12. A portuguesa insistiu para incluir mais duas no conjunto – Olha e Do fundo do meu coração – e foi prontamente atendida. “Até me arrepio quando falo disso. Mais ainda quando penso o processo de gravação. Fizemos tudo em duas tardes, você acredita? Ainda quero ter o privilégio de me apresentar ao lado do rei. Não tenho coragem de pedir. Imagina, ele gravou com a Jennifer Lopes! Mas se acontecesse, me deixaria muito, muito feliz”, diz a fadista de 33 anos.

INFÂNCIA A admiração de Raquel por Roberto Carlos vem desde a infância. O romântico, segundo ela, entrou na sua vida antes mesmo do fado. “É uma paixão que surgiu em 1988, quando tinha 3 anos. Eu me recordo de brincar debaixo da tábua em que minha mãe passava roupa botando as bonecas pra escorregar na perna do móvel enquanto cantava Roberto Carlos. Minha mãe tinha vários vinis dele. O disco que ele lançou em 1988, especificamente, e fez o maior sucesso em Portugal. Um dos grandes hits era Se o amor se vai. O fado mesmo eu só fui escutar já maiorzinha, aos 5. Juro que é verdade. Minha mãe está viva para confirmar!”, diz Tavares, que coleciona toda a discografia do compositor e, como boa fã, acompanha sua vida pessoal.

Na lista de músicos da moça há muitos brasileiros. “Sempre depois do Roberto, claro, que, para mim, é de um nível inalcançável. Mas adoro Noel Rosa, Clara Nunes, Cartola, Pixinguinha. Sou totalmente apaixonada, inclusive, pelo samba de raiz”, enumera. E explica o motivo. “Engraçado, vocês brasileiros veem o samba como uma música alegre. Amo esse estilo justamente porque acho triste, assim como o fado. Dá pra ver claramente esse traço quando a gente ouve a maioria das letras, seja de Cartola, seja de Noel, até as do Caetano. A diferença é que a nós, portugueses, cantamos nossa tristeza de forma dramática. Já vocês fazem isso de maneira mais serena. Mas o samba é triste sim. Lindamente triste.”

ROBERTO CARLOS POR RAQUEL TAVARES
Sony Music
14 faixas
Disponível nas lojas a partir de 23 de fevereiro.
Ouça on-line: http://bit.ly/RobertoPorRaquel

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