Vanessa da Mata reage ao machismo e à 'podridão do Brasil'

Em suas novas canções, cantora fala do Brasil e do machismo, mas tem fé na mudança

por Márcia Maria Cruz 25/11/2017 07:00
Marcos Hermes/Divulgação
Marcos Hermes/Divulgação (foto: Marcos Hermes/Divulgação)

O eu lírico feminino está evidenciado em Caixinha de música, novo trabalho da cantora e compositora Vanessa da Mata. A turnê chega neste sábado (25) ao KM de Vantagens Hall, em Belo Horizonte. É a primeira vez que Vanessa faz show para divulgar o projeto que une som e imagem. Embora outras apresentações tenham sido gravadas, trata-se do primeiro DVD dela.

Gravado em maio, em São Paulo, com direção musical do guitarrista Maurício Pacheco, o projeto traz três inéditas (Caixinha de música, Orgulho e nada mais e Gente feliz) compostas pela própria Vanessa, que também interpreta canções de Orlando Silva, da dupla Milionário e José Rico e de Márcio Greyck.

“A caixinha de música remete a muita coisa: caixas de som, memórias afetivas, à própria jukebox antiga. Todos somos caixa de música, no sentido de soar música e sair por aí cantando”, afirma Vanessa.

Com o uso de espelhos, a cenografia foi construída a partir dessa ideia. “Caixinha de música mostra o momento em que estou encantada comigo mesma, percebendo as coisas delicadas e me reconstituindo para me curar. É um momento aberto às coisas mais bonitas da vida”, diz.

MACHISMO Em Orgulho e nada mais, Vanessa mira no machismo. A canção se inspira numa amiga, que, mesmo depois de descobrir que o companheiro a roubava, manteve a relação. “Falo do machista, do psicopata que faz da mulher uma presas nas mãos dele. Não se importa com o sofrimento que causam para que a conquista esteja a serviço do ego. Num país machista como o Brasil, é a coisa mais comum do mundo”, pontua. Embora a amiga tenha mantido o relacionamento abusivo, Vanessa acredita que ela deve, na intimidade, cantarolar sua canção.

Em Gente feliz, os versos fazem referência a Nelson Mandela (1918-2013), ícone da luta contra o apartheid na África do Sul, e Fela Kuti (1960-1997), multi-instrumentista nigeriano e ativista que lutou pelos direitos humanos. “A canção fala deste momento em que o Brasil está descobrindo a podridão. Estamos saindo da infantilidade, deixando de ser ‘homens cordiais’, como o pai de Chico Buarque escreveu. Temos que reagir. Temos que continuar felizes. Esse é o elixir natural da nossa cultura, mas temos que agir.” Ela se refere ao conceito apresentado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) no livro Raízes do Brasil.

Ao entoar a mandinga que livra dos males, Gente feliz também é uma oração. “As canções são orações, mesmo as mais tristes. Ainda bem”, diz ela. Essa música é fruto das reflexões que Vanessa faz a respeito do país, que, em sua opinião, está mudando. “Na década de 1980, gente rica jamais era presa. Políticos e coronéis jamais, somente pobres. A mudança é nítida, mas temos que administrar. Isso faz parte do crescimento. Nenhum presidente é pai. Ele é político e pode acabar conosco”, adverte. Para a cantora, a sociedade brasileira passa pela “adolescência”, momento em que se descobre a “podridão do pai”.

O eclético repertório traz ainda Love will tear us apart, do grupo inglês Joy Division; Mágoas de caboclo, de Orlando Silva; e Vá pro inferno com seu amor, de Milionário e José Rico. “Esses músicos têm um recado a dar. Busquei essas composições e as trouxe para o meu estilo”, resume. O show não vai deixar de fora hits da carreira de Vanessa, como Ai, ai, ai, Amado, Boa sorte/Good luck, Não me deixe só e Ainda bem.

VANESSA DA MATA
Show Caixinha de música. Sábado (25), às 22h. KM de Vantagens Hall. Avenida Nossa Senhora do Carmo, 230, São Pedro, (31) 3209-8989. Inteira/arquibancada e pista: R$ 80 (1º lote), R$ 90 (2º lote) e R$ 100 (3º lote). Poltrona/inteira: R$ 100. Meia-entrada na forma da lei. Mesa: R$ 130 (setor 1) e R$ 110 (setor 2).
 

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