Preta Gil completa 15 anos de carreira e lança o disco 'Todas as cores'

Álbum reafirma ecletismo e diversidade da cantora e conta com músicas gravadas com Gal Costa, Marília Mendonça e Pabllo Vittar

por Márcia Maria Cruz 31/10/2017 09:04

Alex Santana/Divulgação
'Vivemos um momento de luta para que cada indivíduo tenha o direito de ser feliz do jeito que é', defende Preta Gil. (foto: Alex Santana/Divulgação)

“Só um minuto. Vou dar um abraço no Magal.”. Na manhã de segunda, 30, a cantora Preta Gil conversou sobre o mais novo álbum, Todas as cores, trabalho que marca 15 anos de carreira e seu amadurecimento como intérprete. Ela assume, de vez, que não nasceu para ficar em caixinhas, rótulos ou formatos preestabelecidos. Quer se desligar de padrões não só quando o assunto se refere à beleza. Também quando o quesito é identidade musical, a escolha é pela liberdade.

A entrevista, por telefone, foi interrompida, rapidamente, por causa do encontro casual com Sidney Magal, uma de suas referências de sonoridade e atitude artística. “As pessoas me perguntam se, neste trabalho, estou flertando com o reggaeton. Digo que não. Estou indo na onda do Magal. Um homem fora da caixinha, que assume a sensualidade”, brinca.

Com a mesma destreza, no novo trabalho Preta canta com quem está no mais alto patamar da música popular brasileira, a madrinha de batismo Gal Costa, e com quem desponta na cena do pop nacional, como Pabllo Vittar e Marília Mendonça. Apesar de ser filha de Gil, sobrinha de Caetano e afilhada de Gal, Preta teve que enfrentar olhares tortos na cena musical, parecidos com aqueles que lhe foram lançados quando ganhou visibilidade nacional como mulher gorda orgulhosa do corpo.

 

Bem resolvida e com a autoestima em dia, posou nua para a capa do seu primeiro álbum, Prêt-à-porter. Alguns viam no ato uma afronta quando, na verdade, era Preta querendo ser o que é. Nada mais justo. Nesses 15 anos de música, também buscou a singularidade. E conquistou o direito de transitar por várias influências, seja cantando MPB ou funk, caso desejasse. “No meu primeiro show, cantei Novos Baianos e Kelly Key”, recorda-se.

 

 

A atitude conquistou um público fiel ao seu estilo e proposta, que prestigiou seus projetos – Bloco da Preta, que sai no carnaval – e as festas Baile da Preta e Noite Preta. Mas, nesse meio tempo, também recebeu críticas. “Não me enquadrei num estilo. Por um tempo foi complicado, porque muita gente não compreende o motivo de não seguir um estilo. Mas o meu público me fortaleceu e mostrou que posso ser múltipla.”

Para o novo trabalho, resolveu dar de ombros para quem pensa que se dedicar a vários estilos é não se aprofundar em nenhum. Assumiu o ecletismo como identidade musical e buscou parceiros nas mais variadas vertentes a música brasileira. “Todas as cores é mais maduro, mais consistente. É o resultado de um ano de dedicação”, afirma.

Preta está feliz com o corpo e a música, mas entende que pode contribuir com o debate público para que as pessoas possam se assumir, independentemente de padrões impostos. “Vivemos um momento de luta para que cada indivíduo tenha o direito de ser feliz do jeito que é. É uma luta que venci. Estou em momento de paz, plenitude, segurança e amor-próprio. Quero que as mulheres se libertem, gordinhas, negras. Sintam que não estão sós”, afirma.

Há 15 anos, ela pensou que não haveria problema em misturar rock, samba e funk. “Naquela época, não era muito comum misturar. Rock era rock e axé era axé. Sentia-me bem propondo a mistura de ritmos”, diz. Nessa caminhada teve o apoio da amiga Ivete Sangalo. No entanto, o interesse pela música do Brasil começou em casa. “Nasci e fui criada em uma família que ajudou a mudar a história deste país por meio da música popular brasileira. Mas, na minha casa, escutávamos de tudo. Tinha um vitrolinha em que ouvia Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Frenéticas e Rita Lee. Desde criança, tenho o ouvido aberto para a música”, conta. Isso faz com que ela esteja conectada com o que é produzido nos quatro cantos do país. “Estudo muito. Sei o que é novidade no Pará, Goiás, Manaus. A maior riqueza musical do Brasil é a diversidade.”

Para a cantora, olhar para a diversidade da música se tornou seu propósito como artista. “O maior sentido de fazer música é romper barreiras e preconceitos. A música é para todos. É uma conquista poder ligar o rádio e poder ouvir funk, rock, sertanejo. A música é para o público”, diz.

PERTO DO QUE HÁ DE BOM Preta denomina o encontro musical com Gal Costa de “remadrinhamento”. “É uma emoção única. Difícil de explicar. Ela é irmã de criação de minha mãe. Minha maior referência como cantora e artista. Uma das maiores cantoras de todos os tempos. E é minha madrinha, me batizou. Tenho laços afetivos e maternos com ela”, diz. As duas gravaram a faixa Vá se benzer, uma das 10 que compõem o álbum. “É uma música forte, que fala de ser o que a gente é. Não buscar a perfeição”, afirma.


Preta tira de letra as críticas que recebe, muitas delas pelas redes sociais. Mas defende a importância do diálogo diante do Brasil de hoje. “As pessoas agridem o outro que não pensa como elas. Em Vá se benzer, procuro falar do real valor da vida. E foi muito importante ter minha madrinha comigo, rebatizando, ‘remadrinhando’. Ela está comigo no début.” A cantora sente que este é o momento para cantar com Gal. Católica e devota de Nossa Senhora Aparecida, Preta diz que procura estar em conexão com o que é bom: tem interesse filosófico pela cabala e muito respeito aos orixás.

Preta canta com Pabllo a canção Decote. Os dois se tornaram amigos em abril deste ano. “É um garoto que está fazendo uma revolução. Sempre fui muito curiosa em relação a ele/ela. Nos encontramos a primeira vez no aeroporto e gritamos. Somos fãs uma da outra”, diz se referindo a Pabllo no gênero masculino e feminino (o cantor diz, em relação a isso, que tanto faz). Depois de ouvir algumas músicas enviadas por Rodrigo Goia, o produtor de Pabllo, Preta escolheu Decote, propôs arranjos e projetou a canção para o seu timbre.

A outra parceria é Não me testa, faixa em que canta com Marília Mendonça. “Não nos conhecemos pessoalmente. É uma amizade virtual”, diz Preta. Mesmo com a dificuldade de agenda, elas conseguiram gravar juntas com ajuda da tecnologia. “Marília é forte e traz essa questão do empoderamento feminino. Tenho uma admiração profunda por ela. Quando estava montando o repertório, recebi 10 músicas do compositor Juliano Tchula e Marília cantava em sete delas. Gostei de todas. Pensei que poderia gravar um álbum inteiro de sertanejo”, diz.

 

Abaixo, confira o single Decote:  


TODAS AS CORES
De Preta Gil
10 faixas
Sony Music
Disponível nas plataformas digitais

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