Bob Dylan lança disco triplo Triplicate

Novo trabalho tem 10 canções, 32 minutos de duração em cada volume e um repertório de hits de Sinatra, aos quais o cantor e Nobel de Literatura dá roupagem distinta

por Mariana Peixoto 02/05/2017 08:00
FRED TANNEAU
(foto: FRED TANNEAU)
“Essas canções são para o homem da rua, o homem comum, a pessoa comum. Talvez seja um fã de Bob Dylan, talvez não.”

Este é Bob Dylan, 75 anos, o maior compositor vivo da música popular, em rara entrevista (concedida ao jornalista Bill Flanagan, exclusiva para o site bobdylan.com).

As canções de que fala são três dezenas, nenhuma delas de lavra própria. Compõem o recém-lançado Triplicate, álbum triplo que dialoga diretamente com seus dois discos anteriores, Shadows in the night (2015) e Fallen angels (2016). No trabalho, Dylan promove nova incursão às canções populares das décadas de 1930 a 1950, que integram o chamado Grande Songbook Americano.

Cada álbum tem 10 faixas e seu próprio título (‘Till the sun goes down; Devil dolls e Comin’ home late). E também cada um tem a mesma duração: exatos 32 minutos, tal qual velhos long plays (como destaca o projeto gráfico dos disquinhos, que remontam a outra era).

Com os mesmos músicos acompanhando-o em toda a gravação – Charlie Sexton e Dean Parks (guitarras), Donnie Herron (guitarra steel), Tony Garnier (baixo) e George Receli (bateria) – Dylan percorre uma trajetória realizada por Frank Sinatra (algo que havia feito em Shadows in the night, que muitos consideram um tributo ao cantor).

O produtor é Jack Frost, na verdade, o próprio Dylan, que criou o alterego no início dos anos 2000 para assinar a produção de suas gravações.

SINATRA De Triplicate, uma única canção, Braggin (Duke Ellington), não foi gravada por Sinatra. Algo improvável imaginar – o repertório daquele conhecido como A Voz sendo registrado por Dylan, que é reconhecidamente um mau cantor.

Na mesma entrevista, ele se sai com esta: “Quando gravei essas músicas, tive que fazer acreditar que nunca havia ouvido falar de Sinatra, que ele não existia”. Dylan analisa Sinatra como um guia, mas afirma que a partir de determinado momento você tem que seguir por conta própria.

E é o que ele, inteligentemente, faz. A sonoridade, sempre crua, passeia entre o folk e o blues, domínios de Dylan. À sua própria maneira, Dylan registra standards como Stormy weather, The best is yet to come, Sentimental journey, The foolish things e, até mesmo, As time goes bye.

Dylan consegue fazer com que seus limites (para não dizer defeitos) soem a seu favor. A emoção guia a interpretação, com sua voz áspera, muito rouca, anasalada e de pouco alcance. Mas funciona.

A tal ponto que Flanagan pergunta para ele: “Você tem grandes interpretações no disco. Se você consegue cantar desta maneira, por que não sempre cantou assim?”, Dylan responde sem responder diretamente: “Depende de qual música está cantando. When the world was young e These foolish things são canções com linguagem informal. Você não pode cuspir as palavras de maneira grosseira. Isso seria impensável”.

Com um repertório impecável – dos três CDs, o melhor é o terceiro – Dylan, nesta nova incursão pela história da música americana, consegue provar que pode ser um bom intérprete. Imperfeito, mas grande.

TRIPLICATE

Álbum triplo de Bob Dylan
Gravadora: Sony Music
Preço sugerido: R$ 79,90

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