Mais roqueiro do que nunca, Odair José ataca o conservadorismo no Brasil: ''estou com as minorias''

Em seu novo CD, compositor quer despertar o povo brasileiro com canções sobre homofobia, drogas, violência e outros temas polêmicos

por Pedro Galvão 27/11/2016 09:00

Rama de Oliveira/divulgação
Artista falou sobre o que o inspirou a escrever as letras do novo disco (foto: Rama de Oliveira/divulgação)
O rótulo de cantor brega ele rejeita com veemência. Para alguns, é o “Paul McCartney brasileiro”, enquanto outros o definem como “o terror das empregadas”. O fato é que Odair José consolidou sua carreira falando sobre temas polêmicos nos momentos em que poucos tiveram essa coragem.

 

Censurado em algumas canções pelo governo militar e perseguido pela Igreja Católica por conta do disco Filho de José e Maria, na década de 1970, o compositor volta a problematizar o cotidiano no recém-lançado Gatos e ratos, o 34º álbum de sua discografia.

Para quem associa esse goiano, de 68 anos, apenas à imagem do cantor de músicas românticas e melosas, o novo CD é um soco no ouvido. Pesado nas melodias e conceitual nas letras, ele mostra justamente o contrário: um Odair roqueiro e questionador. “Não estamos vivendo o momento de falar sobre ir para a balada ou de um amor mal sucedido”, avisa.

Gatos e ratos foi lançado apenas um ano depois de 16, último disco de Odair. Assim ele explica o pequeno intervalo entre os dois trabalhos: “Era a necessidade de um compositor fazer alguma coisa para despertar um povo que está adormecido por fáceis e falsas informações”. O resultado são 10 canções sobre problemas e incoerências da sociedade brasileira.

O repertório não tem dor de cotovelo nem letras de amor. Com muitas figuras de linguagem, as letras falam sobre homofobia (Moral imoral), abuso das drogas (Açúcar mascavo), violência no trânsito (Trânsito), questiona impostos abusivos (Cobrador de impostos) e desigualdades sociais (Carne crua). Segundo ele, gatos e ratos, presentes também na arte da capa, são metáforas do antagonismo entre a “elite alienada em sua zona de conforto” e as classes desprovidas de privilégios.

 

Politicamente correto sim

Nestes tempos de embates ideológicos, Odair não teme a reprovação dos fãs mais conservadores. “Nesta idade, não tenho medo de colocar o pescoço na guilhotina. Não fiz um disco partidário, de jeito nenhum. Apenas falo sobre coisas que gostaria que o brasileiro repensasse”, garante.

 

Nesse sentido, é enfático ao dizer de que lado ficou na construção de um discurso politicamente correto: “Com certeza, estou com as minorias. Está tudo errado e temos que consertar isso, quero que cada um viva no seu quadrado, mas sempre respeitando as diferenças dos outros”.

Com vasto repertório que, no passado, tocou em temas delicados – sexo, drogas e prostituição –, Odair diz que seu único arrependimento foi não ter se posicionado mais em alguns momentos, especialmente após o lançamento do criticado O filho de José e Maria, em 1977. “Meu maior erro foi ficar em cima do muro. Depois desse disco, bateram o pé para mim e passei 20 anos fazendo um trabalho de merda, sem falar nada relevante”, assume.

Além do teor das letras, o novo CD chama a atenção pelo som bem mais pesado do que a maioria de seus trabalhos. Solos de guitarra, riffs e distorções aparecem em quase todas as faixas. Com inspiração declarada no primeiro álbum de Paul McCartney fora dos Beatles, a sonoridade traz referências do rock dos anos 1970.

 

Em Livre, a faixa de seis minutos que encerra o disco, ele explora ritmos mais psicodélicos como fundo para a letra que questiona as liberdades que as pessoas acreditam ter.

Mais roqueiro à medida que envelhece, Odair ainda não chegou a seu objetivo musical, apesar de os últimos trabalhos terem ficado cada vez mais agitados. “O que quero, mesmo, é o formato de bandinha crua”, explica, referindo-se ao trio guitarra, baixo e bateria, apenas com um teclado intruso.

 

Ele promete “pesar mais a mão” nos próximos lançamentos “O rock não precisava nem do som, só da atitude. Sou um cara de rua. Se o Roberto (Carlos) era o cantor das famílias, eu era o dos bares. Musicalmente, minha intenção é desarrumar a casa”, avisa.

A turnê de lançamento de Gatos e ratos vai começar em janeiro, ainda sem data para Belo Horizonte. “Vou ter o cuidado de avisar que é o lançamento de um disco novo. Não posso incluir neste show música que não tenha a ver com proposta. Não vou cantar sucessos antigos só porque o público gosta”, garante. A versão física do álbum já chegou às lojas. O formato digital está disponível no Spotify.

Três perguntas para...

Odair José
Cantor e compositor


Por que você disse que seu novo disco é um despertador para pessoas que estão adormecidas devido a falsas e fáceis informações?
O povo se apega muito fácil ao que é mais confortável. É aquela ideia de “se não vai ser contra mim, não importa se vai ser ruim pra todo mundo”. Isso é o fácil. As pessoas deveriam buscar a informação difícil, que nem sempre é a conveniente. A falsa nos dá aquilo que queremos ouvir. Estamos vivendo em uma época que dizem: “estão fazendo errado”, “estão nos prejudicando”, mas não estão tendo a visão honesta do que estão fazendo. No Brasil, aceitamos isso como se não fosse com a gente. Queria ser um despertador nesse sentido. Por isso cutuquei, e acho até que deveria ter cutucado mais. Sem querer ser a palmatória de nada, temos que ficar atentos. O que acontece lá em cima, na política, é reflexo do que fazemos aqui em baixo.

Nesse sentido, quem apoiou o impeachment de Dilma Rousseff estaria “adormecido”?
Sim. O Brasil era uma carreta possante e desgovernada descendo a ladeira. Uma freada brusca ia provocar capotagem – e não parar a carreta. Em 2014, quando teve a campanha, manifestei minha preocupação com a reeleição da Dilma, porque previa que aquilo não ia dar certo, achava que ia ganhar e não ia levar. Tomara que esteja errado, mas não vai adiantar quase nada disso aí (o impeachment). Estamos caminhando da mesma forma, com os mesmos perigos. A coisa está muito mais difícil, culpa da informação falsa e fácil – “tira a mulher que conserta tudo”. Não é assim. Embora a postura dela sempre tenha me incomodado pelo pouco diálogo, mesmo não sendo partidário, não estou vendo novidade nenhuma depois da saída dela. O povo brasileiro tem que ficar esperto, pois a coisa pode feder mais que já fedeu.

Em 1977, quando você lançou O filho de José e Maria, o disco chegou a ser censurado e a Igreja Católica te perseguiu. Quarenta anos depois, há forte escalada da igreja evangélica, inclusive na política. Como você vê isso?
Fico impressionado com políticos ou pastores querendo oprimir a opção sexual das pessoas. Isso não é certo há 2.000 anos. Não gosto disso. Acho muito bonito a pessoa ter a sua fé, mas temos que procurar melhorar a nossa vida sem nos apegarmos à religião. Alguém já disse que se mede a cultura de um povo pos seu nível de religiosidade. Não digo que não tem que ter religião, sei que na hora do aperto as pessoas se apegam a ela. Porém, não aceito e tenho medo do uso da religião para se chegar ao poder. Isso é perigoso. É de novo aquela fácil informação: “O pastor disse que isso é bom”... Malandro, procure saber se é bom mesmo!

 

GATOS E RATOS
De Odair José 
Canal 3 
Preço médio: R$ 21,90  
 

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