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Clarice Falcão, do Porta dos Fundos, e Matheus Torreão "pedem dinheiro" na calçada em clipe

Em 'A volta do mecenas', composta por ele, os dois lamentam a dificuldade dos artistas de obter financiamento

Luiza Maia
Letra irônica propõe uma nova renascença - Foto: YouTube/Reprodução
Em processo de composição do primeiro disco solo, o cantor e compositor recifense Matheus Torreão, ex-vocalista da banda Caravana do Delírio, estreou na internet uma série de clipes. O primeiro deles, A volta do mecenas, conta com participação da conterrânea Clarice Falcão. A música estará nos próximos álbuns de ambos.

Filha do diretor João Falcão, também pernambucano, e da escritora Adriana Falcão, a cantora e atriz do canal de humor Porta dos Fundos lançou apenas um álbum, Monomania (2013). "A minha vontade de fazer algo com ela já era antiga, por me identificar bastante com o que ela faz. Mas adianto que a versão dela ficou bem diferente dessa", ele elogia.

Sentados no chão e com um chapéu à frente, Matheus e Clarice se apresentam à espera do apoio dos transeuntes - que nunca aparecem. Acompanhados apenas dos próprios instrumentos, interpretam em tom melancólico a letra e música compostas por Matheus nas quais sonham com uma nova renascença, "pra fazer sorrir nossos romances e poemas e abençoar a tinta dessas novas penas".

A volta do mecenas, composta em 2010, é uma ironia sobre as dificuldades de financiamento da arte. "A minha intenção foi justamente brincar com a anacronia da coisa", esclarece o compositor. No Facebook, ele publicou uma homenagem satírica a Caio Clínio Mecenas, conselheiro do imperador Augusto.
"Na Roma antiga destacou-se como patrono das letras dando casa, comida, wi-fi e chuveiro quente para que Horácio e Virgílio escrevessem seus versos imortais", escreveu.

Reticente acerca da forma como funcionam as leis de incentivo à cultura, Matheus pretende contar com o financiamento coletivo para o próximo disco e deve divulgar uma campanha online no início do próximo ano. "No próprio incentivo por meio da isenção fiscal predomina a lógica empresarial. É mais interessante investir em artistas que vão dar retorno em visibilidade pra uma marca. Muita gente aprova projetos incríveis na (Lei) Rouanet, mas não tem empresa que queira investir, mesmo com a garantia da isenção fiscal, enquanto gente já estabelecida ganha milhões", analisa.

Os clipes são uma parceria com o cineasta Lucas Cunha e serão lançados mensalmente. A volta do mecenas, My roommate is away, Adeus meu rock'n'roll, De menor e Estrela pornô são as canções escolhidas e todas estarão no álbum. "A ideia é começar a movimentar a carreira solo com produções mais simples, vídeos acústicos feitos especialmente pra internet, porque o processo de gravação de áudio é mais lento e trabalhoso", explica o artista.

Matheus está em processo de gravação de dois singles com a banda Exército de Bebês, com a qual tem feito shows. O vídeo de A volta do mecenas tem direção de Lucas Cunha. A ficha técnica é composta por Dudu Mafra (fotografia, câmera e som), Felipe Abrahão (câmera), João Henrique Costa (som direto), Anouk Zee (figurino) e Fabio Carneiro Leão (finalização).

Como membro da Caravana do Delírio, Matheus Torreão lançou dois EPs: Glamourosa comédia pop (2009) e Delirium tremens (2011). O grupo acabou em janeiro de 2014. Ele venceu o reality show musical Geleia do rock, do canal de TV paga Multishow, em 2010. Fernanda Takai, Carlinhos Brown, Lenine, Dado Villa-Lobos e Adriana Calcanhoto estavam entre os jurados. Desde o ano passado, mora no Rio de Janeiro.



Confira a letra da música:

"A volta do mecenas

Onde foi aquele moço bom da renascença,
Pai gentil das fábulas, romances e poemas?
Quem vai sustentar conosco o peso dessa pena?
Estamos todos esperando a volta do mecenas

E você diz: "Olha, que linda as rosas.
Quando eu digo: Acorda.
Quem se importa?"


Quando foi que entramos nesse estado de demência?
A cada nova década aumenta a decadência,
E quem é que toma as divinas providências?
Eu não tenho pressa, mas me falta paciência.

E você diz: "Olha, o raiar da aurora,
Quem dormir agora vai perder a hora de ver o sol nascer

Pois ainda há tempo para a nova renascença,
Pra fazer sorrir nossos romances e poemas
E abençoar a tinta dessas novas penas
Haverá de vir, enfim, a volta do mecenas".