Musica

Velha guarda do sertanejo aprova visual dos jovens

Veteranos como Zezé di Camargo & Luciano e Renato Teixeira aprovam cuidado dos novos astros com a aparência. Empresário da música vê 'apelação por Ibope'

Cecília Emiliana

É com generosidade que a velha guarda do sertanejo enxerga a nova safra de agroboys. Pelo menos é a sensação que fica ao se ouvir o compositor Renato Teixeira. “Olha, vamos deixar os meninos. Às vezes percebo que eles recebem críticas muito preconceituosas. Mas eles têm seu público, aliás, um grande público. Além disso, o importante é que eles estão trabalhando, produzindo, movimentando o mercado. E é bom que isso esteja acontecendo.”


Teixeira também elogia o profissionalismo dos garotos da nova geração. “Essa turma não brinca em serviço. Os shows e os discos da meninada costumam ser muito bem-feitos, bem produzidos.” A crítica escapa quando o autor de Tocando em frente reflete sobre a qualidade das composições. “Claro que há umas letras muito fraquinhas, com pouco conteúdo mesmo. De qualquer forma, insisto que é dessa geração que sairão os próximos Chicos e Caetanos. Quem é ruim passa, quem é bom sempre fica.”

Rapazes cobiçados no tempo em que o sucesso era medido em milhões de cópias vendidas – e não em milhões de visualizações no YouTube –, a dupla Zezé di Camargo & Luciano encara com naturalidade a pitada extra de sexo adicionada pelos jovens de hoje ao estilo musical do sertão. Afinal, os corpinhos bonitos e desnudos, acreditam eles, costumam vir acompanhados de talento.

“Hoje em dia, o culto ao corpo é muito maior. Faz parte do dia a dia da maioria das pessoas, homens e mulheres. Não há relação com a música e, sim, com a vontade e o cuidado pessoal de cada um. Que bom que eles se cuidam e se preocupam com a estética, saúde e bem-estar. E também são talentosos”, afirma Zezé. Num tom de quem ascendeu da categoria de “mais um rostinho bonito” ao patamar de “clássico”, Luciano acrescenta que, embora jovens, vários dos colegas contemporâneos não são aventureiros. Têm longos anos de estrada e experiência. “Luan Santana canta desde que era criança. É um menino que eu admiro, assim como o Gusttavo Lima. Eles inclusive gostam de Zezé di Camargo & Luciano desde pequenos e nos têm como referência. Os novos artistas reforçam o gênero, só fortalecem a música sertaneja”, defende.

CRÍTICA

O julgamento em tom áspero parte de outra velha guarda: a dos executivos da indústria fonográfica. O produtor Franco Scornavacca – pai do trio KLB e ex-empresário das duplas Zezé di Camargo & Luciano e Leandro & Leonardo – diz que, já no início da década de 1990, seus clientes investiam pesado na aparência, embora, naquela época, a preocupação maior fosse conferir um ar urbano ao sertanejo, que rompia os limites do interior para conquistar as metrópoles, sobretudo do Sudeste.

“Quando eu era empresário do Zezé, ele usava aquele penteado mais comprido. Um dia, apareceu no escritório de cabelo curtinho. Achei ótimo, porque o artista tem que se renovar mesmo, de acordo com o tempo.” O problema, afirma Scornavacca, é que a devoção à estética tem superado aquela dispensada à arte. “Nunca mais ouvi uma música digna de um hino sertanejo. Todas as que se eternizaram são mais antigas. Cuidar do visual é importante, mas temos que cuidar do conteúdo também. O artista da música vive do talento, não da beleza. É muito triste ver como nossos cantores estão se vendendo de forma apelativa para disputar Ibope”, avalia.

COMO MANDA O FIGURINO
Confira as etapas da música sertaneja no Brasil

Sertanejo de raiz
1929-1970

Letras
Exaltavam a natureza e o cotidiano da vida no campo

Figurino
Matuto, com chapéus de palha e camisas xadrezas

Representantes  
Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho


New sertanejo
1970-2000

Letras
Românticas, repletas de dor de cotovelo

Figurino
Calça justa, fivelas grandes e botas com espora

Representantes  
Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo


Sertanejo universitário
2000-2015

Letras
Embora falem de amor, há muitas referências a flertes e sexo casual

Figurino
Calças justas, camisas apertadas, deixando braços e tórax sarados
à mostra

Representantes   
Henrique & Juliano, Lucas Lucco, Luan Santana


Cifrões
Discussões sobre a qualidade sonora à parte, se há uma coisa da qual a turma dos caubóis malhados entende é vender. Segundo levantamento do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), dos 20 artistas com maior rendimento em rádios em 2014, oito são do segmento sertanejo universitário (destaque para a dupla Fernando & Sorocaba, em 3º lugar do ranking; e Luan Santana, em 7º). O valor dos cachês cresce na mesma proporção dos músculos dos agroboys. Contratantes dão conta de que um show de Lucas Lucco, por exemplo, está na faixa dos R$ 100 mil. Já Gusttavo Lima não mostra o tanquinho no palco por menos de R$ 300 mil, embora as assessorias de nenhum dos jovens confirmem a informação.

três perguntas para...

LUAN SANTANA, cantor

Até há relativamente pouco tempo, os artistas sertanejos eram mais “caipirões”. A que você atribui a mudança estética?


Quando eu era criança e no início da minha carreira, sempre vi os intérpretes sertanejos de bota e chapéu. Tentei usar bota e comecei a tropeçar. Então decidi entrar no palco, fazer minha música, independentemente de a roupa que eu usava ser “adequada” ao estilo ou não. No início, foi até estranho, mas chamou a atenção. Um cantor mais novo, solo, de cabelo espetado e usando tênis? Deu certo e acredito que tenha sido referência para muita gente a partir de então. Visto roupas com as quais me sinto confortável. Não mostram tanto o corpo. São roupas que me caem bem. Crio meu estilo. E, sim, pensando sempre no meu público. Ele merece.

O cuidado com o corpo é algo que sempre permeou a sua vida ou, ao optar pela carreira artística, algum produtor/empresário orientou você a malhar e adotar procedimentos estéticos?

Eu mesmo tomei a decisão de me cuidar. Comecei a cuidar da minha alimentação e fazer treinos diários, em nome da minha saúde e do condicionamento físico nos palcos. E também para acompanhar essa rotina pesada da agenda. O visual melhorou, claro, mas não foi crucial para a decisão.

Em que medida você acha que ser bonito e sarado beneficia sua carreira? Ou traz prejuízos, como ter de enfrentar preconceito, por exemplo?

Sim, preconceito existe. Mas é algo que as pessoas vão deixando de ter com o passar do tempo, por meio do seu trabalho. Você tem que escolher o que leva mais em conta: a aparência ou o seu talento? Eu levo o trabalho como cantor.