Não por acaso, já foi incluído em categorias como jazz, jazz fusion, electric jazz, jazz contemporâneo, pop instrumental, rock instrumental e até mesmo new age. Mesmo assim, há uma certeza: seu estilo na guitarra é inconfundível (fraseados, timbres e harmonias) e fez escola pelo mundo, influenciando não apenas quem toca o instrumento, mas intérpretes e compositores em geral. E o que impressiona é que essa personalidade já estava razoavelmente definida em seu disco de estreia, 'Bright size life', de 1976.
Em sua extensa discografia estão trabalhos com diversas formações, de solo a grupos recheados de vocalistas e percussionistas, passando por duos, trios, quartetos, quintetos – vários lançados pelo selo alemão ECM. O guitarrista gravou com Dave Holland, Chick Corea, Jaco Pastorius, Charlie Haden, John Scofield, Jack DeJohnette, Herbie Hancock, Ornette Coleman, Brad Mehldau, Michael Brecker e Trilok Gurtu, além de brasileiros, a exemplo de Milton Nascimento, Toninho Horta e Naná Vasconcelos.
Em 'Kin', álbum que acaba de lançar, o guitarrista mantém a aposta na sonoridade de grupo, ainda que ampliando a abrangência dos arranjos. Ele faz isso com o auxílio de recursos eletrônicos e de engenhocas previamente utilizadas em trabalhos anteriores, como os orchestrionics, instrumentos convencionais interligados entre si por sistema que faz com que “toquem” em resposta ao que Metheny toca na guitarra. Mas o principal mérito desse disco não está nisso, mas na consolidação dos músicos envolvidos como seu novo grupo – sem forçar comparação com o que foi, no passado, o Pat Metheny Group.
Ele vinha tocando com os competentes Chris Potter (sopros), Ben Williams (baixo acústico) e Antonio Sánchez (bateria) desde 2012, formação que chamou de Unity Band e deu nome ao bom disco que lançaram no mesmo ano. Agora com o jovem italiano Julio Carmassi (piano, sopros, violoncelo e teclado) a formar um quinteto, gravou as nove faixas de Kin, com destaque para composições como 'On day one', 'Rise up', 'Sign of the season' e a faixa-título, todas com mais de 10 minutos de duração e demonstrações de como o guitarrista continua um soberbo improvisador – além de hábil para criar “paisagens” com seus arranjos.
SANTA TEREZA Tendo declarado abertamente e em diversas ocasiões sua admiração pela música do Clube da Esquina, Pat Metheny fez amigos e parceiros em Belo Horizonte. Esteve na capital mineira algumas vezes, a última delas no ano passado, em junho, quando tocou no Grande Teatro do Sesc Palladium. Mas sua visita mais interessante à cidade foi nos anos 1980, quando se mostrou muito ansioso por conhecer “onde ficava o tal clube dos músicos mineiros” que admira.
Os anfitriões do norte-americano explicaram que isso não existia e que, na verdade, era apenas um cruzamento de ruas de Santa Tereza, onde amigos se encontravam. Não teve jeito: Metheny quis conferir pessoalmente. O guitarrista estava acompanhado por poucas pessoas, entre elas Milton Nascimento e Tavinho Bretas, e a primeira parada no bairro foi feita na casa da família Borges, onde estavam o cantor e compositor Lô, sua irmã Solange e seus pais, Maricota e Salomão. Passaram a tarde juntos.
“A recepção foi com grande alegria e carinho. Depois de cafezinhos, pães de queijo, biscoitinhos, muitos casos e boas risadas, mesmo com o Pat não entendendo nada do que falávamos, Lô e Milton levaram ele até a tal esquina. Naquela época não tinha ainda qualquer placa indicativa como referência, como hoje tem a do Museu Clube da Esquina. O Pat olhava para aquele lugar sem entender nada e a gente olhava para ele sorrindo e com aquela expressão de ‘é isso mesmo que você está vendo’”, lembra Bretas.
Promessa é dívida
Talvez o guitarrista não se lembre, mas acabou deixando duas “dívidas” para trás. Uma delas foi feita nessa mesma visita aos Borges. Lô lembra: “Naquela tarde, ele falou comigo que o 'Clube da esquina', de 1972, é um dos discos de cabeceira dele e que o incentivou a tocar e compor. Disse que queria gravar comigo, mas isso nunca aconteceu. Acho que isso foi mais uma gentileza dele”. O mineiro, fã de Metheny há muito tempo, diz isso sem qualquer rancor.
Outro “credor” é Toninho Horta, que anos 1980 gravou suas músicas 'Moonstone' e 'Prato feito' (nos discos Moonstone e Toninho Horta, respectivamente) com o norte-americano. O mineiro afirma que, desde então, os dois conversam sobre fazer um disco inteiro juntos. Inclusive, revela que a sugestão de Metheny era que fossem para o estúdio com ninguém menos que o percussionista Naná Vasconcelos, o pianista Herbie Hancock, o baixista Charlie Haden e o baterista Jack DeJohnette.
“Estou esperando até hoje”, brinca Horta. E o mineiro aproveita para mandar recado: “Músicos que têm vontade de gravar juntos às vezes não conseguem fazer isso por causa do business. O Pat tem muito compromisso, é do jazz mais pop. Já eu, sou facinho, facinho”, garante.
• PAT EM 5 TEMPOS
Bright size life (1976)
Disco de estreia do guitarrista, é quase todo autoral. Gravado com o baixista Jaco Pastorius e o baterista Bob Moses, já apresenta o estilo de Metheny consideravelmente desenvolvido.
First circle (1984)
Um dos mais expressivos trabalhos do artista no formato de grupo, tem o baixista e vocalista argentino Pedro Aznar como cereja do bolo. Ele contribui com emocionantes vocalises e até com uma canção.
Imaginary day (1997)
De sonoridade exuberante, esse álbum tem o artista a dominar diferentes instrumentos, como o violão Pikasso (de 42 cordas) e a guitarra sem trastes, à frente de competente grupo.
Beyond the Missouri sky (1997)
Com Metheny ao violão e Charlie Haden no baixo acústico, é um trabalho belo e delicado. O talento deles para criar melodias e harmonizar fica ainda mais perceptível nesse registro desplugado.
Orchestrion (2010)
O nome é referência a sistema integrado de instrumentos que tocam em resposta às notas que Metheny faz soar na guitarra. Essa é a base do disco, que o artista gravou “sozinho”.