Musica

Compositora Anabel Bian lança o disco 'Sinais vitais'

Artista mistura samba, afoxé, maracatu e pop dos anos 1980 ao experimentalismo e à a eletrônica

Kiko Ferreira

Cantora e compositora, a paulistana Anabel Bian radicaliza quando pensa na possibilidade de perder seu objeto de paixão. “Se um dia, amor, você não me quiser mais/ Eu vou desistir dos meus sinais vitais”, dramatiza a moça na composição própria que dá título a seu segundo CD, 'Sinais vitais'. Mas é só fechar o encarte com as letras para ler, na contracapa, o outro lado da moeda: “Tudo que alimenta/ a alma faz viver/ meus sinais vitais estão/ mais fortes agora!”, escrito como uma espécie de coda poética.


Ex-cantora de barzinho e integrante do Coral USP, ela é neta de Octávio Franchini, que tocava sax e trombone nas orquestras de Sílvio Mazzuca, Osmar Milani e Simonetti. Apresentadora do programa musical Espaço 48, na NGT TV, Anabel estreou em disco com 'Adição' (2008), sem revelar influências explícitas nem admitir rótulos e classificações para seu estilo, capaz de incluir samba, afoxé, maracatu, pop com jeito de anos 1980 e pitadas de experimentalismo e eletrônica. Em 2011, entrou para o grupo Vazante, do compositor Kleber Alquerque, com Nô Stopa, Daniella Alcarpe e Elaine Guimarães. No ano seguinte, foi convidada a assumir a apresentação do programa 'Tah ligado', da AllTV.

'Sinais vitais' tem 10 faixas e mantém a diversidade da estreia. Na abertura, com 'A prece', percussão afro e violão, não é difícil se lembrar das parcerias de Ney Matogrosso com a dupla Luli & Lucina, nos anos 1980, incluindo no verso fundamental: “Sou a poesia/ e você o meu salão”. Com ar de world music a la Mano Chao, 'Visto' (Rafael Altério e Kléber Albuquerque) soa mais atual e incisiva. A terceira faixa é uma versão livre e solta de 'Seção 32', de Vander Lee. Melhor experiência da moça como autora, 'Pilhas' poderia, por ironia, ser um tema do mesmo Vander Lee que ela acaba de subverter.

O CD chega à metade com 'Sereia da noite' (Flávio Tris), tema sugestivo sobre a eterna sedução entre sereia e pescador, seguida de 'Por um triz' (Kléber Albuquerque), o mais “paulista” dos temas. 'Pequeno manual' (Anabel Bian) é uma baixa de guarda, manual de celebração de vida e romance, cheio de loas à vida, amor e sorrisos. Já Louco de Deus (José Paes de Lira e Clayton Barros), do Cordel do Fogo Encantado, é o momento do teatro mágico e mais experimental.

O fim tem 'Amanheço na cidade' (Daniel Ope), que trata do cotidiano urbano, com direito a lojas e seus lançamentos, roubos de banco e engarrafamento. Para terminar, 'Sinais vitais' e sua paixão de cortar pulsos. Ou não, dependendo do quociente de realidade que o ouvinte é capaz de dividir.