Musica

Música contemporânea criada em Minas Gerais ganha espaço no Multifonias

Projeto será apresentado na Fundação de Educação Artística. Programação destaca a diversidade de linguagens e o experimentalismo

Walter Sebastião

O projeto Multifonias traduz, literalmente, o que a palavra sugere: várias possibilidades de trabalhar criativamente o universo dos sons. Assim o curador Fernando Rocha define os concertos que serão apresentados amanhã e domingo, na Fundação de Educação Artística (FEA).


A programação oferece de composições que incorporam gestos dos próprios instrumentistas à eletrônica, passando por quarteto de violões e peças de autores contemporâneos. Acrescente-se o espetáculo 'Play it again', do grupo Oficcina Multimedia, somando música, artes cênicas, projeção de imagens e uma peça clássica: 'In C' (1964), do norte-americano Terry Riley, considerada a primeira grande obra minimalista. Sua partitura tem apenas uma página com 52 elementos e cada instrumentista pode repeti-la quantas vezes quiser.

“Estamos criando um momento para conhecer e valorizar coisas novas”, afirma o curador do Multifonias, dizendo que os concertos oferecem panorama expressivo da atual produção musical de BH. Essas criações surgem da nova geração, que tem perfil próprio e dialoga com princípios da chamada Música Nova, movimento dos anos 1950 que abriu espaço para a experimentação.

O grupo Derivasons vai mostrar seu trabalho na FEA
Rocha observa que o crescimento de grupos de instrumentistas é fruto da busca de espaço para a música contemporânea, diferentemente de tempos atrás, quando a difusão dessa linguagem era comandada por compositores.

A iniciativa é fruto da ação de jovens e veteranos instrumentistas interessados em repertório diferente. Diante da escassez de material à disposição, eles têm convidado compositores a escrever peças. “Assim vai surgindo novo olhar sobre a música”, explica Rocha. A cena ainda é fragmentada, com grupos atuando isoladamente. A proposta do Multifonias é reuni-los, criando ambiente para troca de ideias.

Duas perguntas para...

RICARDO MIRANDA NACHMANOWICZ
Mestre em música pela UFMG

O que chama a atenção na produção contemporânea de BH?


Sobretudo a autonomia, a independência e a articulação interna entre os músicos, aliadas à naturalidade com que eles se lançam em cenários especulativos/musicais bastante complexos – ao contrário de outras gerações –, tornando seus conceitos bastante audíveis e acessíveis. Mas sem perder a consistência musical, virtude bastante requerida no século 21.

Qual o maior desafio posto a quem faz música hoje?


O conhecimento histórico e o volume de gravações a que temos acesso propiciam ao músico em formação grande variedade de aportes técnicos e poéticos. Ao mesmo tempo, a falta de pensamento “de escola” não propicia ao jovem compositor um eixo de produção predefinido. Este é o cenário que o músico tem que enfrentar: reinventar constantemente a roda. Essa dificuldade permanece, mas vem se tornando um ciclo virtuoso, pois os próprios artistas assumem sua autonomia frente à imensidão da história e vão travando escolhas. O desafio está em lidar com o material histórico, em não cair na tentação de apenas imitar ou imbricar, mas criar novas sínteses.

PROGRAMAÇÃO

Sábado
20h30 – Instalação sonora de Rogério Vasconcelos Barbosa baseada em cantos dos índios maxacalis. Concerto dos grupos Derivasons e Corda Nova. 'Play it again', com Oficcina Multimedia, Grupo de Percussão da UFMG, Sérgio Freire e Lucas Felipe.

Domingo
11h – Exposição Partituras, de Marina Nazareth. Concerto do Grupo Sonante 21.
19h – Videoinstalação 'Time machine', do grupo O Grivo. Concerto com Schlag!, Duo Qattus e Coletivo D’Istante. Obras eletroacústicas de João Pedro Oliveira e Lucas Felipe.

MULTIFONIAS
Fundação de Educação Artística – Rua Gonçalves Dias, 320, Funcionários, (31) 3226-6866. O valor do ingresso é estipulado pelo público.